As fundações de qualquer cidade são as pessoas. Por enquanto. Li agora mesmo que Sam Altman, lider da OpenAI, inteligência artificial com que trabalho, está a desenvolver um robot humanoide capaz de competir em pensamento e tarefas com os humanos. Diz que toda a gente deveria ter um. A China organiza competições destes “bichos” infernais: atletismo, e até luta. Parece ser o futuro. Mas eu tenho uma predilecção por pessoas. Muito amor e atenção recebi eu dessa espécie, fosse boa ou má. Portanto, meus amigos, para trás é o caminho.

O Entroncamento foi cidade desamparada muitos anos. Para quem não se lembra, antes das migrações, tudo estava deserto. Não se reconhecia nesse vazio, a agitação de outros tempos. Depois vieram pessoas. Muitas. Continuo a não me reconhecer na cidade, ou melhor, na vila onde ctesci. Exceto talvez nos meninos que jogam à bola no relvado por detrás do palco, na praça salgueiro maia. Todos os dias lá estão eles, a correr e a estragar a relva. A chutar a bola contra as pessoas, os carros, e as janelas. Para os incautos e os alarmistas da invasão social, tenham calma. Não publiquem já os vossos lamentos nas redes sociais. Trata-se da infância, essa época em que não queremos saber das circunstâncias: nem da Open Ai, nem do Luís Montenegro, nem da terceira guerra mundial. Queremos jogar à bola. Deixem os miúdos jogar à bola. E se levarem uma bolada, vejam isso como uma consequência de estarem vivos. Os putos jogam bem. Apreciem. Invejem. Mas não estraguem o jogo.
Qualquer daqueles miúdos é um craque em potência. Sugiro aos responsáveis do CADE passarem por ali de vez em quando. A ginga de África está lá, talvez pouco objetiva. Os miúdos fintam de mais, e marcam golos de menos: é uma observação de um europeu, que se habituou aos planos tácticos. Deixa-los divertirem-se. O relvado é curto. A imaginação é imensa. Quem sabe um dia estes miúdos tenham de jogar contra robots humanoides. Vocês não sei. Mas eu, lá de cima ou cá de baixo, vou estar a torcer por estes miúdos. Devíamos todos estar a torcer por eles.
Gonçalo Serras


















