Quando a bomba rebentar, gostaria de ter o coração tranquilo. Tranquilo de saber que os acontecimentos me excedem. Ter a consciência de que, por muito que tenha lutado, e exercido o direito a ser, tudo termina aqui e agora.
Quando o grande clarão vier, gostaria que me iluminasse. Os pensamentos. Os gestos. Os instantes. Nesse momento, em que deixaremos de ser, à vez, ricos, pobres, magros, gordos ou feios, gostaria de sorrir ainda de frente. Esperar ainda um milagre, entre os destroços. Organiza-te. Pensa.

Onde está a tua mãe? Procura a tua mãe. Leva uma lanterna. Um rádio e pilhas farão falta, como no dia do grande apagão. Os mecanismos de protecção civil devem ter sido accionados. Procura-os. Foge dos motins. Do pânico. Das fugas. Pega na tua mãe e vão para um sitio seguro, com pouca gente, e conhecida. Talvez a Barquinha. Espera. Ignora os batimentos cardíacos. Vai ser preciso dinheiro físico. As infra estruturas tecnológicas devem ter colapsado. Talvez tudo esteja em silêncio. Liga o rádio. Talvez uma voz seja o teu primeiro milagre. Vai ao sítio onde temos o dinheiro guardado. Mete-o no bolso. Mexe-te devagar. Não caias. Nem faças cair a tua mãe. A fechadura eletrónica do prédio não funciona. Usa as chaves antigas. Roda-as devagar. Não te demores nos feridos ou nos mortos. Nada podes fazer por enquanto.
O dia acalma. Contam-se os vivos e os mortos. Se estivermos vivos, sentirei culpa. A culpa do sobrevivente. Não é o momento ainda de pensar no futuro. Pensa no imediato. O exército deve estar nas ruas. “Estás bem, mãe?”. Temos água engarrafada. Ao longe uma coluna de tanques avança. Amigos ou inimigos? Parecem-me portugueses. Talvez tragam boas notícias.
Gonçalo Serras





















