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Há uma miúda que eu visito todos os dias pela manhã. Estamos tão longe como Vénus de Marte. Ainda assim vou lá buscar um punhado de força para o resto do dia. Tem olhos de chuva, e eu gosto de me encostar ao parapeito do balcão, a ouvir a chuva a cair. Ouvir a chuva a cair, a bater na janela do meu peito. Cai turva e cinzenta, dos seus olhos de céu. Mas eu escuto-a deslizar pelo silêncio, entre os copos de galão e as torradas de manteiga. Não temos muito a dizer, exceto o essencial. Não nos damos, exceto um ao outro, em certas vírgulas da conversa, em certos passos inseguros entre o reboliço de croissants.

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Ela diz que faz o que lhe apetece, e eu acredito. Acredito piamente como um pássaro acredita na manhã seguinte. Ela virá, só não se sabe quando. Um dia chorou à minha frente e não a soube consolar. A chuva enfim visível molhou-nos os pés, sedentos, da terra árida. Próximo cliente, próxima batalha. Entre pastéis de bacalhau e copos de três joga-se a integridade desta mulher. Ela recusa reduzir-se à função, eu recuso reduzir-me ao conteúdo. Precisava de uma forma, elástica, que a pudesse proteger. Do som e da fúria.

Tenho 5 minutos até me sentir incómodo, indesejável, nos recifes de coral do balcão a que me apeguei em azuis marinhos. Gosto de a ver sorrir, como uma franja de sol num dia de nevoeiro. Nos meus recursos, existem histórias e memórias. Mas nada basta ao instante, fugidio, desta mulher, nada basta ao momento da vaga que nos submerge: Sai um abatanado.

E eu fico sem saber se um abatanado é uma espécie de café com leite, ou um fantástico batel que nos levará dali para fora. Apetece-lhe parar para fumar um cigarro. E ela toma essa decisão contra o poder do mundo, contra o poder do patronato, contra o poder do destino. Porque lhe apetece. E bebe a sua imperial, à revelia dos fregueses, e à frente abre-se um areal onde as férias ainda eram grandes. E eu caminho nesse areal, quando faz frio, e vento, e as gaivotas se esquecem, amando-a como ela me ensinou. Quando me apetece.

Gonçalo Serras

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