
“A toca do sardão” na Barquinha
Existem leis, cujo cumprimento, nos obriga a decisões inverosímeis, colocando-nos no dilema camachista que nos força a situações humilhantes, ou a violências comprometedoras. O acontecimento que vou descrever, não tendo podido o autor, Dr. Reis e Mata, por dever de ofício, recusar nem cumprir a sério levou-o para a chalaça, à Demócrito, que sempre será a melhor maneira de por cá ir levando “isto” até a último suspiro.
Ao contrário do paciente humano que conta ao médico as suas dores e os seus sintomas, na medicina veterinária não há comunicação direta entre o animal e o veterinário, estando a interpretação desses comportamentos sujeitos à subjetividade do observador.
Na crónica da Barquinha de hoje vou dar a conhecer um episódio que se verificou nesta vila quando o Dr. Reis e Mata, médico de clínica geral e dentista, que exercia medicina pelo menos, desde 1934, vestiu “a pele de médico veterinário” para licenciar uma corrida de touros, socorrendo-se da sua perspicácia e douta inteligência.
A praça foi edificada em meados do séc. XIX, perto da Fonte da Moita, cuja obra de beneficiação foi concluída em 1857, para abastecer de água “puríssima” quer a Barquinha quer o Entroncamento.
Importa, desde já, caracterizar o autor de tão douto despacho.
O Dr. Reis e Mata era médico de clínica geral e dentista (estomatologista) e exercia o seu múnus neste concelho da Barquinha, no Hospital da Misericórdia, e na CP, no Entroncamento. Detinha clínica própria no concelho.
Citando Motta Cabral1 vamos, através dele, procurar conhecer tão nobre personagem:
“ – Reis e Mata, outro ribatejano que clinica na Barquinha, homem de cultura humanista, espírito brilhante e bonomia de gordo …
“Fomos à Barquinha a fim de eu ver “a toca do sardão”, designação pitoresca dada por Reis e Mata à casa que ali comprou e vai arranjado com carinho e arte. Ao espírito viajado de Reis e Mata, lembra um trecho de vila italiana… O jantar decorre entre citações de Brillat Savarin do qual todos somos devotos; mas de que Mata é fervoroso apóstolo.

1952 – Cartaz de uma tourada
E, após o café, a conversa continua-se na varanda banhada de luar, os olhos postos na paisagem recamada de silêncio, velada nos tons fortes, toda envolta na transparência de véus brancos, num recolhimento de prece…. Na biblioteca … Reis e Mata lê-nos Baudelaire e páginas escolhidas de Renan. E assim se completa um dia passado no campo…”
Feita a descrição de alguns dos traços da personagem de Dr. Reis e Mata, viajante pelo mundo, culto e de inspiração brilhante, vamos então à narrativa que demonstra, e evidencia, todos estes epítetos.
Não havendo médico veterinário num concelho, era o subdelegado de saúde obrigado a substituí-lo, segundo o artigo 137.º do Código Administrativo, então em vigor. Ora, desde março de 1951 que, por desconhecidas razões, não tinha sido preenchido tal lugar na Barquinha. Por isso, ele, como subdelegado de saúde, continuou a substituir essa problemática entidade (veterinário municipal), a bem da economia orçamental e dos cofres do Estado.
Revestido, pois, de tais atribuições, recebeu do Exmo. Sr. Provedor da Misericórdia, o seguinte ofício:
“Vila Nova da Barquinha, 13 julho 1951.
Excelentíssimo Senhor Subdelegado de Saúde do concelho de Vila Nova da Barquinha. Realizando-se no próximo domingo 15 do corrente, um festival taurino na praça de touros nesta vila em benefício desta misericórdia, solicito de V.Ex.ª se digne proceder à inspeção sanitária dos 8 garraios, de harmonia com as disposições legais em vigor.
A Bem da Nação.
O Provedor, Eliseu Gomes.”
Surpreendido com o caso, foi o distinto médico à Delegação de Saúde do Distrito, informar-se sobre “as disposições legais em vigor” referidas no oficio supra, já que, até então, a atribuição da substituição (do veterinário municipal) se tinha limitado a examinar a rezes abatidas no matadouro para o que os seus conhecimentos de anatomia patológica o tornavam, certamente, competente.
Mas agora pediam-lhe para ir examinar e avaliar as feras e os curros, o que lhe parecia desmedido e impróprio.
O pessoal dos touros, nas conversas de taverna, também ficou admirado, mas não conhecendo tão pouco as leis sanitárias queriam era mesmo que a toirada fosse realizada, ora bolas, estávamos no Ribatejo.

1939 – Dr. António dos Reis e Mata e sua esposa D. Ida
(Fotografia recolhida do Grupo Barquinha em Fotos)
Em resposta ao pedido de informação, por escrito, recebeu o Dr. Reis e Mata o seguinte ofício oficial:
“Delegação de Saúde de Santarém – Exmo. Sr. Dr. António do Reis e Mata:
Conforme prometi, venho dar conhecimento do que apurei sobre o assunto que V. Ex.ª falou anteontem nesta Delegação de Saúde. Não consegui saber de qualquer disposição legal que expressamente torna obrigatória a inspeção sanitária do gado bravo, antes da utilização deste em praça de touros. Todavia, parece não haver dúvidas de que esse inspeção, embora em desuso, pode ser requerida ao abrigo das disposições do Regulamento Geral de Saúde Pecuária, aprovado por decreto de 7/2/1889 (regulamento geral dos serviços de policia hygieniea e sanitaria dos animaes) e, designadamente, nos termos do n.º3 do artigo 153º. do Código Administrativo, pelo qual compete obrigatoriamente aos veterinários municipais (ou aos seus substitutos legais – artigo 154.º mesmo Código), a inspeção sanitária dos animais seus despojos e alojamentos.
Em vista dessa obrigatoriedade, poderão mesmo os veterinários municipais, e naturalmente os seus substitutos legais, exercer de motu próprio essa inspeção.
São estes elementos que me foi possível obter, pedindo desculpas de, presumivelmente, nada indicar de concreto que possa esclarecer as dúvidas de V.Ex.ª.
Com respeitosos cumprimentos, subscrevo muito atento e venerador,
Rui Anacleto da Fonseca.”
Ora toma, o médico de clínica geral, como soe o adágio popular “passou a ser pau para toda a colher”.

Casa do Dr. Reis de Mata em Vila Nova da Barquinha – Fotografia de Villa Nova Eventos
Posto isto, decidiu o clínico traçar “doutas as regras” ou “interpretações autênticas” que seguiram em forma de atestado enviado ao Exmo. Provedor da Barquinha.
“António Reis e Mata, subdelegado de saúde do concelho de Vila Nova da Barquinha, e como tal e por lei, substituindo o médico veterinário, cujo lugar continua vago “sede vacante”, desde março p.p a esta parte DECLARO:
– que tendo observado e examinado, considerando e ponderado de perto, mas de bem alto – do camarote central, como aconselha a grande e salutar virtude, tanto teologal como médica da prudência – as 8 rezes, que compõem o curro, que se destina à festa brava, retintamente peninsular e mais ainda: ribatejana ou regional, que esta tarde se desenrolará no nosso já famoso “redondel”, neste instrumento faço patente do resultado do mesmo EXAME:
– isto é, que “nada encontrei” que possa servir de obstáculo, ou constitua discrepância ou embargo, para o fim a que são votadas as propostas como é mister, do que dou fé, por ter ficado maravilhado pelas belas linhas, limitando tão perfeitas “estampas”, dignos modelos para algum espinal animalista, poder produzir imorredouros testemunhas de beleza, que, viva tão fugaz se manifesta neste nosso tão desprovido planeta dos ditos magníficos e robustos garraios que com tanta agrado e admiração contemplei;
– Verificando serem perfeitamente inteiros em tudo no que me foi possível descortinar, com os meus “gamelos” de TEATRO, com que, para a circunstância me armei, visando-os cá do alto do palanque da autoridade e da “Intelligentsia” ou da “Mestrança”;
– Hábito externo: nada manos, nem estropiados, nem rabichos, nem mochos, estando todos bem providos “in magna quantitate” (em suprema quantidade);
– No que respeita ao sistema glandular e apendicular: sinal bem visível de grande potencial energético e humoral, capaz de, em situação propícia, se manifestar.
– Era perfeito o uso do ouvido, tanto para as chocas dos cabrestos, como para as vaias do rapazito e por conseguinte dos “destros” convidando-os a arrancar, se preciso for, de algum marasmo;
– E também com lume no olho, isto é, de grande sensibilidade cromática, sobretudo para o verde e o vermelho – como verifiquei, por lhes ter feito agitar duas bandeirolas daquelas tão veementes, com esperançosas cores, que simbolizam como é óbvio, na convenção “ferroviária” e da viação citadina internacional, com sinais para “avançar” ou “estancar”; bandeirolas, que me foram gentilmente facultadas pelo digno chefe da vizinha gare, Sr. Ernesto da Assunção que, quando está zangado com os carregadores, bate com o pé no chão, o que dista, a gare, do “redondel”, a menos de um tiro de besta. Com tão perfeita sensibilidade cromática, é de crer que bem provarão nas sortes da muleta e da “verónica”, pegas de “munheca” e outros passos de tão arrojada, como nobre arte de Belmonte, tanto “naturales” como “artificiales” …
– Também não mostravam sinais se fadiga, apesar do grande percurso que tiveram de fazer, desde as mimosas margens de Liz, até às grandiosas lezírias do Tejo, apresentando-se, “ante nos outros” perfeitamente aptos e escorreitos, isto é, com todas as belas e frescas qualidades aparentes, para poderem plenamente, satisfazer o que desejamos, que deles resulte;
– Apresentavam-se todos perfeitamente armados de pontiagudas hastes, tão bem plantadas, como simetricamente divergentes, em curvas harmoniosas, lembrando cada par, a nova forma apolínea de uma lira, donde esta, de resto foi inspirada; porém, se conservassem as pontas ao natural, sem serem embolsadas em amortecedoras bainhas de couro, constituiriam “um perigo” (pronuncie-se à brasileira) … de tremer – verdadeiramente arrepiante – “escalofriante”. Felizmente, que se procedera à embolação, já que a brandura dos nossos costumes, preconiza o rigoroso cumprimento das nossas leis vigentes, tão sagazes, como cautelosas se nos impõe desde aquela tarde trágica de Salvaterra, em que um malogrado e garboso Conde dos Arcos “pereceu”; mas não sem que os seus “manes” (alma dos mortos) fossem vingados pelo nobilíssima ancião, seu pai que, desobedecendo ao próprio Rei, desceu à arena e tenho sacado da espada de combate prostrou a fera, misturando-lhe o sangue ao do seu filho estendido por terra. Foi desde então, que o grande Marquês, decretou, secundado pelo rei “na forma do costume” como em tudo o resto – “o Marquês no trono e o rei ao Torno” – na proibição de touros de morte em Portugal, “para todo sempre”, isto é, para que se não tornasse a ver tal desmando em terras lusas, “jamais em tempo algum”. Quem quiser apascentar a vista ou cevar os seus maus instintos sanguinários e ancestrais, como revivendo algum quejando culto pagão de Mithra (deusa da sabedoria), terá que ultrapassar o Caia ou o Guadiana (rios fronteiriços com Espanha) porque isto por cá é outra porcelana…
– Mas, “vede da natureza” e das leis tão incertas, como desconcertantes da hereditariedade – “o desconcerto!…”.
Pois agora, precisamente, neste ano da Graça do Jubileu Universal e de nacional renovação presidencial (eleição do general Craveiro Lopes), tudo preconizando paz, alegria e confiança, com craveiros à janela, entremeando os manjericos de Santo António – não nos saiu o sr. presidente do “setor 1” que, como é óbvio constituiu o ramalhete a nossa “afición”, e que é, nada mais nada menos, que o Senhor Dr. Sebastião José de Carvalho (Chanceleiros), um descendente do grande Marquês de Pombal, que decretou a lei vigente a pugnar mais os da sua “clique”, ou todo o “sector 1”, digo, para que haja de novo touros de morte em Portugal…
– Mas basta de divagações que de resto já vão longas.
– Concluindo: Bom curro, em suma, com este material de tão bela presença, como o que estava patente à vista, é fácil vaticinar uma bela tarde de touros, bem preenchida e que a todos satisfaça, nesta genuína região de aficionados, tanto para barquinhenses, como goleganenses, e até torrejanos e abrantinos;
– Isto é, o fino do mais fino, um total “setor 1”, em que o digno presidente é “Príncipes interpares”.

Cartaz de 24 de julho de 1966, com Gustavo Zenkel, Joaquim Mónica e Dário Venâncio que lidaram 4 touros e 2 novilhos. A Troupe de Charlots Fenómenos do Entroncamento composto por Fanico, Mano e seu Feitor, Banda Cómico-Taurina que atuou durante a lide com duas reses dos Charlots. Os Estrambólicos Taurinos da Barquinha – “EL PERNA LEVE” Fausto Lavadinho.
– Oxalá, que finalmente resulte em rendosa colheita monetária para a misericórdia de que V.Ex.ª é inamovível presidente (e ainda bem) “ad muitos anos”, e que eu vá acompanhando por este meio, isto é, na substituição perene de tão problemático, como fantasmagórico médico veterinário;
– Desejamos para o povo uma tarde ruidosamente alegre e descuidada, aplaudindo e rindo às escancaras, num perfeito desopilamento benéfico;
– E para os artistas uma ocasião de se manifestarem com brilho, valentia e radiante garbo, mas sobretudo de graça, de muitíssima graça, que imanará da gentil amazona que tão adequadamente é nimbada por tal nome de “Graça”, repito sem me cansar “Oh! sem ela onde estaria a graça? “como disse algures um tal poeta Júlio Jantas da Ordem dos “Bem Ficas” e que também é outro presidente nato, inamovível, insubstituível!…
– Também não quero deixar de felicitar o conceituado granadeiro de Leiria, António Antunes Barbeiro, pela apresentação de tão prometedor curro, proveniente de um tão famoso, como selecionado, “semental andaluz” e que sendo o primeiro que nos apresenta tão auspicioso não seja o último;
– Por ser verdade, passo esta declaração que me foi requerida e que autêntico com o selo em branco desta subdelegação e sem emolumentos, por se tratar de uma obra em benefício duma instituição tão pia e tão generosa, como Graciosa, ainda que os bilhetes sejam a dobrar como é mister…
Barquinha 13 junho 1951
António Reis e Mata
Subdelegado de Saúde de Vila Nova da Barquinha.
Post scriptum (ps)
Podem sempre V.Exas. contar com a minha cooperação tanto legal, como legal e muito gostosamente; mesmo que venha à nossa ridente vila alguma companhia de circo com leões, panteras e crocodilos e que eu seja obrigado por lei e em substituição perene do veterinário, a testar o número de dentes das respetivas feras sem que dê conta, atestarei o seu número apoiando-me nos compêndios de Zoologia do mestre Baltazar Osório ou mesmo de Remi Perrier.
Deus guarde S. Exª e a Vossa Obra.
Haja saúde.
Autoridade e Fraternidade, entre nós todos, para bem da Nação.
Tenho dito e vou rubricar, não esquecendo o sinal da cruz, contra o mafarrico ou porco sujo.
António Reis e Mata”
O Dr. Reis e Mata, com esta brilhante vistoria, e licenciamento, cumpriu em plenitude os seus deveres funcionais.
O seu registo clínico feito do “camarote central” bem longe dos curros (pudera!), foi feito de acordo com as “leges artis” (conjunto de regras e princípios profissionais, aceitos genericamente pela ciência médica): preciso, completo, detalhado, específico e congruente. Igualmente, descreveu fiel, detalhada e especificamente tudo quanto de relevante foi comunicado, observado ou realizado, indo ao pormenor dos empréstimos das bandeiras, pelo chefe da estação da CP, da Barquinha, para testar a visão dos garraios e reação aos movimentos, permitindo vislumbrar os fundamentos e objetivos da sua douta decisão médica que permitiu, naquela data, realizar o evento, isto sem prejuízo do uso do aguilhão à vida social desta vila.
Fontes:
1 Revista Ilustração, n.º 207, 1 de agosto de 1934, artigo de Motta Cabral
Arquivo Municipal António Roldão, Vila Nova da Barquinha



















