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Passaram muitos loucos pela minha vida. Todos deixaram saudades. Povoaram as ruas e a minha imaginação, antes de, misteriosamente, começarem a desaparecer. Para onde vão os loucos?

Para o hospício, certamente. Mas e os loucos que não se qualificam como tal? Aqueles que engoliam as cervejas de um trago, se despiam à porta das discotecas? Aqueles que escreviam frases de amor na areia da praia, aqueles que riam sem motivo?

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Desapareceram, tragados pela espuma dos dias, ou pior: pela sensatez. A sensatez chega quando estamos sozinhos. Chega sorrateiramente, como um lobo. Primeiro cheira-nos as feridas. E finalmente, certa da nossa vulnerabilidade, morde-nos a espontaneidade, a autenticidade, e a alegria de viver.

A sensatez promete segurança e tranquilidade de cipreste. Essa árvore que por alguma razão se escolheu, para dar sombra aos mortos no cemitério. E é isso que a sensatez nos faz, da-nos um lugar no mundo, de onde não podemos sair e onde, de vez em quando, alguém sente a nossa falta. Lembro-me de ser louco o suficiente para não sentir a falta de ninguém.

Lembro-me de cantar sozinho pelas ruas. Há quanto tempo emudeci já, calado pela sensatez. Lembro-me de chutar as pedras da calçada, procurando conduzir cada uma ao seu destino pétreo, convencido que a sua imobilidade lhes causava enorme tristeza. Lembro-me de amar, amar perdidamente; e de sofrer na justa medida. A sensatez impede-me dessa loucura: querer mais ao outro que a nós próprios. Vivo hoje tranquilo, mas na ausência.

Loucura é viver assim, na consciência da loucura.

Gonçalo Serras

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