Acho que esquecemos o silêncio dos animais. Não só o silêncio, mas o calor da sua presença. Um cão não usa das palavras, nem um gato, nem um tigre, nem um crocodilo. E apesar disso falam, com os sentimentos. O ser humano há muito percebeu que podia conter, e representar os próprios sentimentos para disso tirar vantagem: comercial ou romântica.
Eu cresci com os bichos. Assisti à sua resignação bondosa, na casa da minha avó em Minjoelho. É um mundo sem maldade. Sem cálculo e premeditação. Já os seres humanos são capazes de racionalizarem o que sentem, nem sempre para o bem. Mas não se enganem: quando não somos autênticos e espontâneos, estamos a fingir. E a fingir, seja porque motivo for, somos mentirosos. Ou pelo menos hipócritas.

O sentimento é livre. Como livre deveríamos ser todos. Em vez disso sacrificamos o sentir pelo pensar, que oferece mais garantias, mas menos vivência. Não podemos controlar o que sentimos, mas podemos sufocar a sua expressão física. Seja constrangendo os movimentos, seja racionalizando até que só sobra a raiva do sentir. Acho que esta raiva de sentir, e de não o poder exprimir, é o mal opressor da nossa sociedade.
O sentir é um rio, as margens são o pensamento que o comprime. Parafraseando Bertholt Brecht, toda a gente chama selvagem ao rio que tudo arrasta, mas ninguém chama selvagem às margens que o comprimem. É este desespero que eu sinto dos racionais: o desespero de quem o sentir se torna uma memória cada vez mais vaga, e ao mesmo tempo mais exata. Sorrimos, propositadamente, se queremos parecer felizes. Não sorrimos, deliberadamente, se queremos parecer frios e distantes. O prato é servido à medida do freguês e consoante o que se pretende. Se queremos alegria, exercitamos o raciocínio para simular o prazer. Inventamos tecnologia, drogas, falsas amizades, mentiras qye esprememos, cerejas cristalizadas onde nem o caroço sobrou para ferrar os dentes. E são os dentes com que devoramos a existência que vão amolecendo. Apodrecendo. Caindo.
Sofro do mesmo mal. Vou racionalizando as coisas, vou-me aguentando. Quando sou espontâneo, sou inconveniente. Quando não o sou, sou cínico e premeditado. Há um talento social que é parecer autêntico, em emoções sequenciadas, concatenadas. Nunca fui capaz de o fazer. Chego sempre atrasado ao raciocínio sentimental seguinte. Pois me parece que todos os sentimentos devem ser cuidados, e não atropelados, até se chegar à meta – seja um negócio, uma gargalhada, ou uma noite de sexo. Tudo devia acontecer com naturalidade. A naturalidade deu lugar à maioridade. Tudo é preferível, à imprevisibilidade, à insegurança, de estar vivo. Às vezes quando estou com pessoas sinto saudades dos bichos da minha avó. Da sua resignação bondosa. E eu, sem nunca perder a fé que talvez apareça uma pessoa ou um momento especial, vou-me resignando, bondosamente.
Gonçalo Serras



















