Não é fácil perdoar num mundo que não perdoa. Não perdoa o insucesso, a passividade, a indigência, mas também não perdoa o sucesso, a ambição ou a independência. Para viver neste mundo não podemos ser pretos ou brancos. Temos de ser cinzentos. E muito duros, tal como o betão armado que funda as nossas cidades. Disseram-me um dia que perdoar resolvia muita coisa. Disseram-me os meus pais e disse-me a Igreja Católica. Mas um dia, as ofensas são tantas ou tão fundas, que perdemos a capacidade de perdoar.
Quando isso me acontece prefiro afastar-me, não para um convento, nem sequer para muito longe, vou ali para aquele espaço entre o impulso e o pensamento e deixo-me ficar, resistindo. É difícil resistir ao impulso que nos manda pagar na mesma moeda, apesar de esta ser a diplomacia do momento. Aquela que nos permite continuar. Pagar na mesma moeda implica magoar e ferir o outro.

Somos respeitados assim naquele instante. Mas isso é sobreviver. E eu gostava de ter uma vida plena. Por isso tento perdoar o outro, estar mais perto da harmonia e do futuro. Tento dar horizontes à dor, uma justificação para os males do mundo. Fizeram-me isto porque estavam mal dispostos. Ou nem se aperceberam. E eu fico-me, analisando, meditando. Entretanto, finda a batalha, descubro tarde de mais que podia ter ganho aquele instante, se tivesse dito e feito.
Quantas palavras ficaram por dizer, em nome da paz e da conformidade. Quantos murros ficaram por dar, no abismo dos acontecimentos. Quantos gritos ficaram presos na garganta, quanta raiva me amoleceu o espírito depois de esfriar. Quantas tragédias vivi no meu pensamento. E tento viver o tempo que me resta, sabendo que ele me fará esquecer. Sabendo que entre o impulso, o pensamento e a acção está a nossa liberdade de escolha. E perdoo a mim mesmo as minhas fraquezas, as minhas dúvidas, as minhas hesitações e fragilidades, pois também elas fazem parte do mundo, e fazem parte de Deus.




















