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Há pessoas que passam a vida a pedir respeito. Outras matam por ele. Se lutam, brigam, e matam por ele, é porque o respeito deve ser algo muito importante. Existe no espaço da relação – seja com os outros, seja connosco próprios. E é nesse espaço da relação que está a nossa integridade – algo que o respeito permitiria, se fosse praticado.

Ainda sou do tempo, muito criança, de sentir uma distância solene entre os adultos. Havia perguntas que não se faziam, por respeito. Havia gestos e atitudes que não se tinham, por respeito. Havia até silêncios que não se expunham, por respeito. Mas o respeito, praticado, era do mundo dos adultos. As crianças viviam num outro mundo. O mundo de Abril, onde, ao contrário dos seus pais, tiveram imensas facilidades. Já não tinham de ir trabalhar, tinham de estudar. E isso era óptimo. Parece impossível imaginar hoje que crianças trabalhassem no campo, lavoura ou fábricas, como no tempo da outra senhora. Entretanto a ideia de dar oportunidades de crescimento às crianças, sem as agruras da vida adulta precoce, degenerou. Os pais trabalharam o dobro e o triplo para permitir aos filhos irem para a universidade. Para terem um emprego melhor, uma vida melhor. Os pais lembravam-se da miséria e da fome do Salazarismo. Pensavam facilitar, o que não se pode facilitar. A educação. De onde nasce o respeito.

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O respeito é uma construção social, que passa de geração em geração, através do senso comum. Ninguém nos ensina a medir as palavras, as atitudes e os silêncios, respeitosamente, senão os nossos pais. Ou mais tarde, na brutalidade da vida. Essa educação inicial não entra em nós com facilidade. Às vezes é necessário ser duro, para se ensinar o respeito. Às vezes é necessário ser inflexível – mas sempre justo. O respeito vem de uma ideia de justiça elementar, judaico cristã: respeita pai e mãe. Que te alimentam, protegem, e seguram na hora do pior. Hoje filhos batem aos pais. Dizem saber mais que eles. Criou-se uma atmosfera de intimidade que não permite hierarquia. A educação exige uma hierarquia, onde alguém ensina e alguém aprende. Para que através do respeito mútuo, se possa ocupar um lugar entre iguais. Deve-se sofrer em casa as dores da educação, que nos afastam do egoísmo, do animal, da mundanidade, para não ter de se sofrer em público mais tarde. Podemos aprender com as crianças? Concerteza. Mas podemos, em virtude da experiência adulta, ensinar muito mais. Talvez não da tecnologia, dos filmes, das ciências, mas da relação com os outros. De onde emergem todas as possibilidades.

O respeito é uma medida. Como tal, não deve ser pouco nem demasiado. Nem em excesso nem em carestia. O respeito em excesso torna-se respeitinho. Uma imitação fraca, daquilo que é o verdadeiro respeito: a possibilidade que damos a alguém de nos respeitar, sem querer impo-lo à força. Como fazem os ditadores, quando conquistam pelo medo, aquilo que não conquistaram pelos afectos. Quando falta o respeito, ele não desaparece. Transforma-se em insultos, em ofensas, em guerras. Eu respeito. Fui ensinado assim.

Respeito os meus pais e a minha educação, em primeiro lugar. Respeito os outros – tento ver neles o seu potencial e ofereço a distância necessária, tantas vezes confundida com frieza ou indiferença, para que eles se possam expressar. Sobretudo respeito o sofrimento dos outros. Sempre achei que há sofrimento a mais, para respeito a menos neste mundo.

Gonçalo Serras

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