Raúl Pires raul.pires@entroncamentoonline.pt

Há dias, tive uma conversa com um jovem, de dezoito anos, que me surpreendeu. O tema era a religião. Confessou-se agnóstico. Não acreditava que Deus pudesse ajudar alguém. Senti-me surpreso naquele momento, mas livre e curioso para ouvir aquele jovem. Ouvi, ouvi e concluí que muito do que me disse fazia sentido. Mais tarde, já sozinho, reflecti no assunto.

O que levará este e outros jovens a confessarem-se agnósticos e ateus? Educação? Formação? Ou terá sido o percurso de vida que os formatou de modo a expressarem, de forma livre, a sua opinião, sem se deixarem intimidar ou violar as suas consciências? Sem ter resposta para tantas questões, pressinto que estes jovens falam assim porque foram ensinados a pensar.

Pensar não é o mesmo que crer. A crença ofusca o pensamento. Embora todo o saber tenha na sua base uma crença, esta deve ser aprofundada e esclarecida pelo pensamento. A adesão imediata e incondicional a uma ideia, poderá estar ao serviço de qualquer universo de mentira, nomeadamente quando não se sai da linha de pensamento e crença que nos é imposta.

Durante muitos séculos, fomos educados para acreditar no pecado original. Adão, ao morder a maçã, julgou-se semelhante a Deus e, desse modo, condenou-nos à queda. Façamos o que fizermos, seremos sempre simples pecadores. O inocente, o virtuoso, serão sempre culpados. É certo que se trata dum mito e como tal deve ser entendido. Falar de mitos ao jovem com quem conversei, não passa duma maneira ingénua de falar. Mas, segundo a doutrina da Igreja, há bons e há maus cristãos. Os bons são aqueles que fazem votos de humildade, pobreza e castidade. Os maus serão os que enveredam pela vaidade, pela procura de prazer (luxúria) e pela acumulação de bens materiais. Mas, perdoem-me a pergunta: há bons cristãos? Sem ter a pretensão de generalizar nem de ofender ninguém, responderia que não. Nem os padres.

Desde Maquiavel (séc. XVI) a Freud (séc. XX), alterou-se a maneira de olhar para estas questões. As três paixões nucleares e condenadas pela Igreja vão ser reabilitadas, e até legitimadas, modificando para sempre a cultura ocidental. É o despertar da sexualidade (Freud). A paixão pelo poder ganha foros de cidadania e com Adam Smith torna-se legítimo enriquecer, contrariando a condenação tomista do empréstimo a juros.

A Igreja Católica não acompanhou a sociedade nas suas transformações. Continuou a viver num passado rígido, marcado pela crença no pecado original, pela crença na existência do céu e inferno após a morte, preferindo uma mentalidade mítica e ritual.

Mas, alguns dos seus membros, serão arrastados pelas novas mentalidades que se espalham pelo seio da Igreja Católica. Assim, há padres vaidosos, ricos, e que procuram os prazeres da carne. Apresentam-se nas igrejas como autenticas vedetas, fazendo-se transportar em luxuosos veículos; e para completar o programa, são presidentes de órgãos civis, sem nada percebem do assunto. A isto chama-se, o quê? Eu não tenho resposta.

Sim! Entendo. Não faltam exemplos que corroboram a conversa que tive com o jovem estudante. De facto, Deus não ajuda nem pode ajudar ninguém. Desde logo, não pode violar o livre arbítrio do homem. Se o fizesse, não seria justo e o homem não seria livre e não poderia ser julgado por actos que não praticou livremente. Para concluir, parece-me que Deus nem os padres ajuda ou será que ajuda?