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Era um Verão de 1997. Tinha acabado a faculdade. E descia as escadas do meu prédio da Zona Verde à pressa. Trazia vestida a camisola de um jogador de futebol extraordinário que tinha nascido para a ribalta naquele ano, no Barcelona. Ronaldo Nazário. “O Fenómeno”.

Para os que não o viram jogar, ele atravessava as linhas defensivas adversárias com uma brutalidade nunca vista. De cada vez que pegava na bola, o público exultava. Sabia-se que ia partir para cima dos defesas. Não era um futebol planeado. Era um futebol criativo, de improviso, feito com uma velocidade, força e técnica nunca vistas.

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Talvez tenha sido também o fim de uma época. Durante grande parte do século XX, o futebol viveu do génio individual tanto quanto da organização coletiva. De Pelé a Cruyff, de Maradona a Romário, havia espaço para o erro, para o risco, para a jogada que contrariava a lógica. O drible não era apenas um recurso técnico; era uma forma de liberdade.

Foi a última vez que vi futebol a sério. Desde aí, o futebol rendeu-se, aos poucos, à eficiência e ao marketing. Aos resultados.

A transformação não aconteceu de um dia para o outro. Coincidiu com a explosão das receitas televisivas, com a globalização das grandes ligas, com a Liga dos Campeões moderna, com a profissionalização extrema dos clubes e, mais tarde, com a análise estatística de cada metro percorrido e de cada passe realizado. O futebol tornou-se uma indústria extraordinariamente competente. Talvez demasiado competente.

Bem sei que os resultados são importantes. São eles que alimentam estratégias, patrocínios, investidores e espectadores. Os resultados são importantes. Mas serão mais importantes do que o próprio futebol?

A eficiência da equipa esmagou o jogador de drible. O jogador criativo deixou de poder errar. Deixou de poder perder a bola. Por conseguinte, deixou de arriscar. E, sem arriscar, não há magia. O espetáculo sofre. Mas os resultados aparecem.

Hoje, quase todas as grandes equipas pressionam alto, defendem em bloco e ocupam os mesmos espaços. A organização coletiva atingiu um nível impressionante. Talvez por isso um drible seja agora um acontecimento raro. As equipas parecem, tantas vezes, espelhos umas das outras.

A recente final do Campeonato do Mundo foram duas horas monótonas de jogo tático, onde vi apenas um drible digno desse nome: de Lamine Yamal. Sem dribles dificilmente se criam desequilíbrios, pois as equipas são espelhos umas das outras. Onde uma avança, a outra recua, e vice-versa.

Bem sei que o Verão de 1997 não volta. Mas para sempre no meu coração ficarão os dribles do Fenómeno desse ano.
Ele atravessava as defesas.

Eu também pretendo atravessar, da mesma forma, as minhas hesitações, as minhas dificuldades, os meus adversários.

Não. Não vou jogar em equipa.
Jogo sozinho.

Recordem os meus dribles.


Não recordem os meus resultados.

Por Gonçalo Serras, com a consultoria histórica de Saphy, a Inteligência Artificial

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