Há muito tempo que andamos perdidos. Pelo menos desde o século XVII, a última vez em que razão e progresso andaram genuinamente de mãos juntas. Chamou-se iluminismo. A bem da verdade, São Tomás de Aquino já intuía esta dinâmica por volta do ano 1200, quando tentou relacionar a razão aristotélica com a fé cristã.
Depois de muita chacina, tortura e matança da Igreja, no estertor da idade média, os humanos estavam muito cansados de obedecer às vozes de Deus na Terra. Não tinha lógica matar em nome do invisível. Tal como não tinha lógica morrer em nome de um Deus que só a alguns pertencia. Sobretudo não tinha lógica que Jesus pregasse o Amor nas escrituras, e pregasse as carnes no espeto inquisitorial na vida real.
Cansado de tudo isto, Descartes quis pensar pela própria cabeça de forma objetiva. Disse ele em latim: “Cogito, Ergo Sum”, o famoso “Penso, logo Existo”. Infelizmente perceberam-no mal. Os pensadores da altura e posteriores, pelo menos até Nietschze, pegaram na verdade desta afirmação e viram nisto a vitória do indivíduo sobre o colectivo. A crítica que faço a isto, sem ser filósofo ou historiador, é que pensar pertence a todos, em maior ou menor grau. Ou seja, a fugir das trevas da Igreja, encontrámos um lugar ainda mais escuro: o individualismo. São dois extremos da mesma moeda. Se de um lado tudo pertence a Deus, do outro tudo pertence ao Indivíduo. Não é lógico que assim seja. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O senso comum ajuda nestas e noutras matérias.

Concordando que todos usamos do pensar, é lógico pensar que somos semelhantes nesse ponto. Mais do que na pele, ou na carteira, ou na origem ou no fim. Descartes diria hoje, ao ver o egoísmo materialista que grassa na terra, de forma plural em vez de singular. “Pensamos, logo existimos”, ou em latim, “Cogitamos, ergo sumus”.
Em vez disso, contamos apenas com a nossa esperteza em vez de contarmos, também, com a esperteza dos outros. Quem vive pela espada, morre pela espada. E se pensas em ti apenas, não podes criticar quem o faz também. O problema nisto é que há sempre alguém mais esperto do que tu. E disposto a vender a alma, que possivelmente já não tem, para te tentar sacar o que puder, seja dinheiro ou afectos – que também há sanguessugas do coração.
Que podemos contra a lei do mais forte? Que nos rouba a saúde e a qualidade de vida? O que sempre pudemos desde tempos imemoriais. Juntar-mo-nos e combater o despotismo e prepotência do líder. Que, verdade seja dita, sucumbe quase sempre ao seu egocentrismo. O verdadeiro líder não esquece a turba. É daí que vem o seu poder. Mas isto é só o povo a querer pensar. A querer ser gente.


















