
Alguns estudos de etnologia portuguesa habituaram-nos a ver no lugar, e em unidades de povoamento similares apesar da sua irrelevância formal em termos políticos ou administrativos e religiosos, um quadro estruturador central da vida social nas comunidades rurais.
Assim, para Joyce Riegelhaupt1, “a aldeia local é de importância fundamental nas relações sociais”. As aldeias não têm fronteiras administrativas. No entanto, “cada povoação (…) é vista pelos seus habitantes e pelos seus vizinhos como, de algum modo, única e mesmo fechada sobre si própria (…). Pequenas diferenças são cultivadas (…) e (…) cuidadosamente consideradas na definição do “nós” da aldeia versus todos os outros “eles”. “Existem rivalidades intensas entre aldeias vizinhas” e “para um rapaz, fazer a corte a uma rapariga de outra aldeia é, muitas vezes, uma experiência arriscada”. Debruçando-se sobre as festas, a autora salienta também a sua importância enquanto meios de que as aldeias se socorrem “para afirmar a sua identidade e a sua unidade”.
Na presente crónica quero relevar a identidade atalaiense em atos religiosos de 1843, de 1955 e num acontecimento recente, do ano de 1990, bem como as novidades quanto à capela de Nosso Senhor Jesus da Ajuda.
Antigamente, as características geográficas e humanas diferenciavam as localidades da Moita e da Atalaia. Atualmente, temos um aglomerado contínuo de residências que praticamente não permite descortinar cada povoação per si.
Ano de 1843.

Na 1.ª página do Jornal “O Moitense”, em junho de 1937, sob o título “Intrigas” vem a seguinte descrição: “É de lamentar certos factos que ultimamente surgiram, aliás destituídos de fundamento, fruto de maus elementos, de molde a provocar prejudiciais inimizades entre as duas populações da Atalaia e Moita. O Moitense observa com tristeza essa perniciosa intriga, pois entende haver toda a conveniência em que as duas povoações se estimem, respeitando-se mutuamente os respetivos e legítimos direitos. Cremos ser este o pensamento e desejo da parte sã e boa dos habitantes das duas povoações”.
De onde vinha esta rivalidade entre Atalaia e Moita?
– Pelo menos, desde 1843.2
Vejamos. “Em toda a parte há procissão dos Passos. Porque não há na Moita? Assim perguntaram uma vez certos marítimos, na taberna do Fol, que assentava na Rua Direita da Moita, na quaresma de 1843.
– Não há irmandade, nem na capela da Senhora dos Remédios temos essa imagem, como se sabe!…
– Mas arranja-se pedindo por empréstimo à Atalaya! … alvitrou alguém, tanto mais que nesta quaresma não tencionam fazer a procissão.
Combinou-se quem havia de ir apresentar o pedido e assentou-se que deveriam ir como pessoas de crédito e bem-falantes, o Azevedo velho e o pai do Francisco Maia Falua que teve uma taberna na casa em que hoje está estabelecida a pensão do João Ferreira, na Ladeira da estação da vila da Barquinha. E assim se fez.
Os da Atalaya, sem dificuldade, cederam a imagem de Jesus vergando sob o madeiro da ignominia, levando o favor até o ponto de emprestarem sessenta capas roxas e prometendo a comparência de vários irmãos residentes naquela vila.
Rejubilaram os da Moita quando ouviram o estralejar de três foguetes, sinal convencionado de que haviam conseguido o empréstimo da imagem; e a alegria subiu de ponto quando os comissionados comunicaram que, sem o pedirem, tinham a promessa da cessão das sessenta capas. Então a tia Justa Maia, cheia do maior entusiasmo ingénuo, gritou: – Viva o Senhor dos Passos da Atalaya!…
E o povo vivou com a maior convicção porquanto imaginou ser homenagem devida sem favor algum…
E então todo o mulherio que sabia costurar, pôs mãos à obra fazendo mais opas de cor roxa cuja fazenda foram comprar a Torres Novas, para o que se abriu uma subscrição que rendeu vinte moedas. E na véspera da procissão, o Capelão da Moita, o senhor Padre José, por sinal um patulea (liberal radical) dos quatro costados, de sobrepeliz e acompanhado de muita gente da Moita, concertadinhos nas suas opas, foram à Atalaya buscar a imagem enquanto os restantes da comissão acabavam de erigir nas ruas Direita, das Parreiras, Outeiro do Norte, Debaixo e noutros sítios da Moita, os passos com retábulos, castiçais e cruxifixos e a Maria de Behú ensaiava para os motetes (trecho de música religiosa, de origem francesa, com letra).
Eram seis da tarde quando a procissão entrou na Moita sendo a imagem depositada na capela e ficando a velá-la cinco ou seis da Comissão e algumas mulheres piedosas que tinham feito o voto de acompanhar a velada. Dealbava quando os velantes ouviram passos que pareciam de muitas pessoas.
– Queremos levar a imagem porque deliberámos fazer hoje na Atalaya, a procissão dos Passos! disse um que vinha à frente da malta.

Protestaram os moitenses com veemência e uma das mulheres, mais decididas, começou tocando a rebate na sineta da capela… e tão desesperado foi o apelo que a Moita inteira saltou da cama afim de inquirir o motivo do alarme.
– São os da Atalaya que vem buscar o Senhor dos Passos!… informou uma das mulheres que correu as ruas da povoação prevenindo toda a gente, em grande berreiro.
– Soltem os cacetes bradou uma voz, não o levam!! Soltem os cacetes!…
E os cacetes saltaram… endireitaram logo à Capela em som de guerra, quando os da Atalaya vinham já com o andor às costas, com uma guarda de honra também armada com cacetes formidáveis.
– Arreiem o andor! ordenou o Azevedo velho; arreiem ou vai tudo com trezentos diabos! Vocês não têm palavra seus bêbados, mas nós obrigá-los-emos a tê-la, seus…
E saiu um palavrão medonho!… Para a frente!… ordenou o maioral da Atalaya e saiam do caminho senão a gente derrete-vos… Zás… zás… E começou o cacete a trabalhar enquanto o mulherio da Moita, numa gritaria doida, incitava os patrícios a malhar rijo nas costelas dos contrários! Um dia de juízo naquele Largo da Capela!…
O andor e a imagem andaram aos trambolhões, enquanto o arrais João Maia com um compadre, o Farinha, pedia ordem!
A ordem era dar para baixo forte e feio, até que por fim os da Atalaya tiveram de fugir e os da comissão, ufanos, e alguns, também com as cabeças quebradas, levantaram a imagem do solo, e, triunfantes, desandaram com ela para a capela…
À cautela ficou um piquete de serviço à porta; armado de espingardas e cacetes para o que desse e viesse… À tarde saiu a procissão, vigiada pelo administrador do concelho e cabos de polícia e nessa mesma noite foram solenemente entregar a imagem do Senhor dos Passos a Atalaia, não tendo havido novidade, porquanto a gente sensata daquela localidade, que reconheceu toda a razão nos moitenses, meteu na ordem os exaltados que queriam a desforra…
Daí a dias, um carpinteiro de apelido Lopes, da Atalaya, mandava a seguinte conta ao Provedor da Misericórdia onde estava ereta a Irmandade que tinha a seu cargo o culto e conservação da imagem que se depositava na capela do Senhor Jesus da Ajuda conta e recibo que por curiosidade estava, no ano de 1901 em poder do meu compadre, senhor João Soares da mesma vila: Endireitar e consertar o braço da imagem do Nosso Senhor dos Paços – 480 rés; pôr uma cavilha no pé – 100 rés; reparar o andor – 160 rés; arranjar a coroa da cabeça – 100 rés; Total – 840 rés. São oitocentos e quarenta rés. Recebi: J. Lopes carpinteiro. Atalaya, 11 de abril de 1843”. A costureira Maria da Assunção da supracitada vila também teve trabalho que lhe arranjaram os da Moita e da Atalaya, à sociedade, apresentou a sua conta: lavar, engomar e passar a túnica de Nosso Senhor dos Paços – 400 rés; são quatrocentos rés. Recebi. A rogo de Maria da Assunção, por não saber escrever, J. Lopes carpinteiro. Atalaya, 11 de abril de 1843”.
Foi o mesmo carpinteiro que reparou a imagem que fez a conta da costureira porque a letra a ortografia e a tinta eram iguais. Quanto à conta do álcool e arnica (planta medicinal) para curar as cabeças dos combatentes da Atalaya e da Moita é que não conseguimos apurar.”
Ano de 1955.
Conta-nos o então Diário Popular3: “Uma aldeia amotinada com receio que lhe levassem uma imagem do Senhor … A povoação de Atalaia (Barquinha) esteve ontem o que se chama em “estado de sítio”, por motivo de uma simples procissão! O caso conta-se em poucas linhas: Numa capela daquela localidade existe uma enorme e antiga imagem do Senhor Jesus da Ajuda, a qual os habitantes da povoação, além de muito a venerarem, guardam ciosamente, propalando que os povos vizinhos a vem cobiçando… desde há séculos. E, assim, nunca desejam que ela saia da capela, e, muito menos ainda, para fora da terra.Ora, há dias, estava anunciada uma procissão com a aludida imagem, a qual iria até á Barquinha para depois regressar à Atalaia. O caso é que o povo desta ultima localidade mormente, as mulheres – por nada desta vida estavam resolvidas a consentir a realização do préstito (procissão ou acompanhamento). Mas, como as autoridades eclesiásticas deliberassem fazer sair a procissão, por acharem, muito justamente, absurda tal atitude do povo da localidade, atitude, aliás, baseada num receio inconcebível, pelo sim, pelo não, requisitaram uma força da G.N.R. para evitar qualquer cena desagradável. E devemos concordar que a medida foi acertada, pois, não obstante a presença dos guardas, a verdade é que, mal a imagem saiu da capela, a multidão, obstinada, com as mulheres à frente, opôs-se por todos os meios à saída do andor, gerando-se, então, importantes tumultos, os quais só não tiveram consequências funestas devido à forma criteriosa como a força pública rapidamente atuou. E, quando do regresso da imagem, novas cenas desagradáveis se repetiram e novo burburinho se gerou. Como é óbvio, o caso, por estranho e invulgar, tem sido o assunto de todas as conversas nesta região.”
À data o pároco da Barquinha era o Pe. Suzano. Segundo relatos testemunhais a palavra de ordem, antes e depois da procissão era: “O santo é nosso e o padre é vosso!”. Certo é que naquele tempo quebraram-se algumas cabeças pelo que não é possível quantificar as lesões.
Se a rivalidade com a Barquinha já vinha, pelo menos, desde as lutas liberais, a rivalidade com a Moita é mais ancestral, até porque são localidades medievais.

Fotografia de Júlio Barata
Ano de 1990
Na Capela de NS da Ajuda venera-se a milagrosa imagem do Sr. Jesus, com uma romagem todas as sextas feiras do ano. Há quem defenda que foi instituidor um homem particular chamado Nuno Velho. A crer nesta hipótese temos de colocar a possibilidade de reconstrução desta ermida pois ela já existe bem mais cedo, no ano de 1631 …
A Capela do Senhor Jesus da Ajuda ou do Bom Jesus da Agonia ou Nossa Senhora da Ajuda vem referenciada nos inquéritos paroquias de 1758: “Capela N. Sra. da Ajuda, em que se venera a Milagroza Imagem do Sr. Jezus, com romagem todas as sextas feiras do anno”.
Agora, segundo Rui Mesquita Mendes, “Há uma nota de índices de escrituras de Lisboa de um cartório notarial, entretanto desaparecido, com data de julho de 1607 que narra o seguinte: “Há uma licença para se dizer missa na Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, vila da Talaya, Atalaia, Condeça da Talaya». No mesmo ano foi erigida a Ermida da Ajuda pela Condeça”.
A Capela possui imagem de madeira, de boa escultura e carnação, numa cruz grande de madeira lisa e resplendor de metal é, presumivelmente, do Séc. XVIII e tem 1,58 cm. É, desde tempos imemoriais venerada pelos atalaienses. O tempo diluiu esse culto. Sobre esta “Milagroza Imagem do Sr. Jezus” há um acontecimento que importa relevar, também, no ano de 1990. Então a comunidade levantou dúvidas quanto à autenticidade da imagem que estava na Capela. Esta tinha sido entregue, em novembro de 1990, a uma casa de arte de Braga, para ser restaurada. Em 15 de agosto de 1991, aquando da realização da tradicional procissão que se realiza anualmente, alguns fiéis levantaram sérias dúvidas quanto à troca da imagem alegando que a imagem não era a mesma e que teria sido substituída. O alvoroço gerado em torno da imagem, e as desconfianças quanto à sua autenticidade, a que não será estranha a circunstância de, regularmente, existiram assaltos aos templos religiosos e comércio de antiguidades de artigos religiosos, levaram, para algum sossego das populações, a autarquia a participar ao Ministério Público os factos sempre tendo em vista o seu esclarecimento e a descoberta da verdade material.
Foram feitas as diligências de prova julgadas pertinentes, Nestas circunstâncias decidiu-se a realização de um exame à imagem feito então pelo “Instituto de José de Figueiredo”, que retirou as seguintes conclusões: “Depois dos exames efetuados à escultura conclui-se que sob a pintura atual, executada pela firma de Braga, existe uma policromia igual à dos documentos fotográficos sobre a imagem antes da ida a Braga, documentos que nos foram enviados por esse Tribunal. A existência desta camada policrómica prova, claramente, que não houve troca da escultura e de que a imagem é a mesma. Muito embora se conclua que a imagem é a mesma não deixam de lamentar o seu atual estado pois … o restauro foi mal feito e a pintura efetuada deixou a imagem como nova.”4
Na vila da Atalaia para além da atual Igreja Matriz, dedicada a NS Ascensão, levantaram-se outros templos dedicados à virgem Maria: a capela de Nossa Sr.ª da Esperança, a capela de Nossa Sr.ª da Ajuda ou Nosso Senhor da Ajuda e a ermida de Nossa Sr.ª dos Remédios, na Moita, então integrada na paróquia da Atalaia.
Com as novas investigações, com agradecimento a Rui Mesquita Mendes, ficamos a saber que a capela de Nossa Sr.ª da Ajuda ou Senhor Jesus da Ajuda é uma capela/ermida erigida, em 1631, pela Condessa da Atalaia que nesta data era D. Maria Filipa de Távora de Meneses, que casou com o 3.º conde, D. António Manoel de Ataíde, segundo obra recentemente publicada pelo meu colega, e descendente dos Condes da Atalaia, Diogo Orey Manoel5.
Fernando Freire
FONTES
1 Riegelhaupt, Joyce Firstenberg. Na Sombra da Cidade: Integração de Uma Aldeia Portuguesa. 1964
2 Jornal o Moitense, artigo de Júlio Sousa e Costa, n.º 62, de 15 de abril de 1941
3 Jornal “Diário Popular”, de 17 de abril de 1955
4 Proc.º Autos de Inquérito n.º 626/91 – Tribunal Judicial da Comarca do Entroncamento
5 MANOEL, Diogo Maria D’Orey. Epitome da família Manoel, Condes de Atalaya e Marqueses de Tancos.2020
















