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Entre as encruzilhadas de que a humanidade dispôs, conta-se o fim do rock. Talvez não o fim da música rock — porque essa continua modestamente viva —, mas o momento em que deixou de ocupar o centro da cultura popular. Esse momento coincide, em larga medida, com o final do século XX, quando bandas como Nirvana, Smashing Pumpkins, Pearl Jam ou, numa vertente mais comercial, Oasis, encerraram um ciclo iniciado quarenta anos antes.

Billy Corgan, dos Smashing Pumpkins, nota esse fim em entrevistas recentes, constatando uma viragem da indústria em direção aos poliritmos do hip hop e da cultura urbana que dominaram o início do século XXI. Não se trata apenas de uma mudança de sonoridade. Trata-se de uma mudança de visão do mundo.

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O rock foi, durante décadas, uma linguagem universal, sobre a qual se erigiu toda uma atitude perante a vida, entre os anos 50 e o fim do século XX. Do rock and roll de Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley à revolução cultural dos Beatles e dos Rolling Stones, passando por Bruce Springsteen, U2, R.E.M. ou Nirvana, construiu-se uma espécie de língua franca emocional. Era possível encontrar, no mesmo concerto, ricos e pobres, negros e brancos, operários e universitários. A música funcionava como um ponto de encontro. Sim, era exagerado. Sim, era excesso. Não é recomendável, nem pretendo fazer qualquer apologia desse modo de vida. Sex, drugs and rock and roll tornou-se um lema que destruiu demasiados talentos. Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain ou Amy Winehouse lembram-nos que a liberdade sem medida também cobra um preço.

Mas havia ali qualquer coisa profundamente agregadora.
A vida era uma festa. Era uma festa porque, nessa vida musicada, confluíam etnias, diferenças e contrastes. O palco era muitas vezes o lugar onde as divisões desapareciam durante duas horas.

O historiador Eric Hobsbawm escreveu que a segunda metade do século XX assistiu ao nascimento de uma verdadeira cultura juvenil global. Poucos fenómenos contribuíram tanto para isso como o rock. Pela primeira vez, milhões de jovens de continentes diferentes ouviam as mesmas canções, vestiam-se de forma semelhante e partilhavam referências culturais comuns. Havia, para usar uma expressão de Marshall McLuhan, uma espécie de «aldeia global» alimentada pelos mesmos discos, pelas mesmas rádios e pelos mesmos canais de televisão.

O hip hop trouxe outra narrativa. Trouxe a cultura das ruas, a afirmação da identidade, da comunidade e da pertença. Trouxe também referências de grupo, de bairro, de origem e de experiência social que o rock raramente conseguira expressar com igual autenticidade. Muitos dos seus maiores artistas denunciaram desigualdades raciais, pobreza, violência e exclusão com uma força que marcou gerações. Ao mesmo tempo, parte da indústria privilegiou uma estética de confronto, disputa territorial, ostentação e, em alguns casos, misoginia e violência, transformando essas imagens em produtos globais.

Talvez tenha sido um primeiro passo para uma indústria cada vez mais orientada para o multiculturalismo enquanto segmentação de públicos, em vez da procura de uma linguagem comum.


A verdadeira mudança, porém, não aconteceu apenas nos estúdios de gravação. Aconteceu nos departamentos de marketing, nas empresas de media e, mais tarde, nos algoritmos das plataformas digitais.

Durante grande parte do século XX, a indústria cultural vivia daquilo a que hoje chamaríamos uma monocultura mediática. Havia poucos canais de televisão, poucas rádios nacionais, poucas revistas de grande circulação. Para recuperar o investimento de um álbum, era necessário conquistar o maior número possível de pessoas. O incentivo económico favorecia artistas capazes de atravessar fronteiras sociais e geracionais. Os Beatles, Michael Jackson, U2 ou Madonna tornaram-se gigantes precisamente porque falavam para quase toda a gente ao mesmo tempo.

Nos anos 90, esse mundo começou a fragmentar-se. A televisão por cabo multiplicou canais. As rádios especializaram-se. A internet, o MP3, o YouTube, o Spotify e as redes sociais dividiram a atenção em milhares de pequenas comunidades. A indústria percebeu então que já não precisava de produzir um artista para toda a sociedade; bastava conquistar uma comunidade suficientemente fiel.
E descobriu algo ainda mais importante: a identidade vende. O psicólogo social Henri Tajfel demonstrou que os seres humanos tendem a organizar-se espontaneamente em grupos, valorizando os símbolos do grupo a que pertencem e distinguindo-se dos restantes. O mercado cultural transformou essa predisposição numa estratégia comercial. Em vez de procurar apenas o denominador comum, passou a oferecer produtos para cada tribo urbana, cada estilo de vida, cada origem, cada geração, cada nicho.

Quanto mais específica fosse a identificação, maior poderia ser a lealdade do público. A lógica é simples. Quem sente que uma música fala da sua comunidade, do seu bairro, da sua experiência ou da sua identidade tende a consumir mais, a recomendar mais e a permanecer mais fiel. Na economia digital, essa fidelidade é valiosa: mantém audiências, alimenta algoritmos e cria mercados previsíveis. Não foi necessariamente uma decisão ideológica. Foi, antes de mais, uma descoberta económica. Paradoxalmente, esta transformação ocorreu ao mesmo tempo que a globalização tornava o mundo mais parecido no consumo. Quanto mais os centros comerciais, as marcas e as plataformas se universalizaram, maior pareceu ser a necessidade de afirmar diferenças. A indústria cultural respondeu multiplicando comunidades em vez de construir uma só.

Talvez seja essa a verdadeira mudança do nosso tempo. O rock procurava frequentemente aquilo que unia. A indústria do século XXI aprendeu a prosperar explorando aquilo que distingue.
Isso não torna o hip hop culpado, nem o rock inocente. Ambos produziram grande arte, excessos memoráveis e contradições profundas. A questão é outra: passámos de uma cultura de massas, imperfeita mas relativamente partilhada, para uma cultura de nichos, extraordinariamente diversa mas cada vez mais fragmentada.

Nenhuma época é inteiramente melhor do que a anterior. A história raramente funciona assim. Mas talvez valha a pena perguntar se, ao substituirmos uma cultura que aspirava ao universal por um mercado organizado em torno de identidades cada vez mais específicas, não perdemos uma parte da capacidade de nos reconhecermos uns nos outros.
Talvez o fim do rock não tenha sido apenas o fim de um género musical.
Talvez tenha sido o fim de uma ideia de comunidade. A música é outra. E talvez tenhamos de a dançar cada vez mais sozinhos.

Escrito por Gonçalo Serras, com o apoio de Saphy, a Inteligência Artificial

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