João Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt

Já não sei ao certo quantas vezes o mundo esteve prestes a acabar. São inúmeros aqueles momentos em que o gongo ressoou pelas ruas da cidade com o pregão dos últimos dias mesmo aí à nossa porta. Mas provavelmente, de cada vez que acordo num dia seguinte, o planeta recomeça a sua vida para uma nova construção da realidade que irá encher o meu espírito. Todavia, nestes tempos em que o despertar se faz invariavelmente no confinamento de uma habitação, qual prisão sem grades onde voluntariamente nos enclausuramos, é possível imaginar que, em vez do labor do chuveiro, da pasta de dentes, da roupa já preparada, ou escolhida à pressa para enfrentar a loucura do dia-dia, do pequeno almoço consumido sem vagar e com dois pingos de café que se limpam rapidamente dos lábios, a mente matemática, cronológica, feita de horários e obrigações que se desenrolam numa rotina diária pelo cérebro, se vê agora substituída pelo vazio, pelo espaço em branco, pela agenda tão deserta como as prateleiras de papel higiénico de um supermercado.

Não fosse o martelar constante, hipnótico, sedativo, das notícias coronásticas, teríamos, finalmente, atingido o grande sonho dos gregos antigos de uma vida simplesmente filosófica, o Bios Theoretikos de Aristóteles (Suprema Felicidade), ou a Vita Activa de Platão que, curiosamente, compreende todas as actividades humanas numa absoluta quietude da contemplação. Que grandessíssima  seca não seria!

Numa metáfora deste espaço confinado auto-imposto surge-me a ideia da assim designada «Gaiola de Ferro» da racionalidade (Weber) constituindo-se, não num instrumento libertador do espírito humano, iluminista, de progresso, mas antes num símbolo de servidão de homens que deixaram a «fábrica de certezas» da mente apodítica e bem-oleada, para um obscuro recanto de quatro paredes repletas de slogans noticiosos repetitivos e de sensações de incerteza social, política e económica só possível em tempos em que o declínio dos valores, da liberdade, da democracia, se vem somar ao «colapso das nossas próprias certezas sobre o que o mundo significa» (Beck). Ou, se preferem o fim de todas as certezas da Modernidade, tornadas antiquadas antes de poderem «ossificar» (Marx). Prefiro uma linguagem alternativa, prestada pela linguagem muito própria de Pessoa: «A certeza – isto é, a confiança no carácter objectivo das nossas percepções, e na conformidade das nossas ideias com a «realidade» ou a «verdade» – é um sintoma de ignorância ou de loucura. O homem mentalmente são não está certo de nada, isto é, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente é um sintoma mórbido, o homem são é um homem doente».

O coronavírus é um desafio a múltiplas reflexões em torno da nossa condição humana, da sua aparente fragilidade encapsulada em sinais de progresso, da superveniência da vida biológica, tendencialmente finita, mortal, compartilhada num sistema ecológico com outras vidas humanas igualmente finitas, mortais, com a ambição do espírito travestido na eternidade de Prometeu em busca do fogo do conhecimento, sonhando com a gnóstica imortalidade da libertação do invólucro físico, emergindo sozinho, nem seguido nem acompanhado por outros, como o Platão da Caverna que se libertou dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes para atingir a «singularidade». Ou seja, simplificando, é o desafio de perceber se o espírito pode viver destas ilusões de eternidade e de imortalidade sendo, afinal, nada mais do que um binómio com o seu corpo físico e sensível a um ente biológico, microscópico, libertado num  distante mercado de uma cidade que todos tivemos que ir procurar ao mapa.

Enquanto a «hipnopédia» (Huxley) noticiosa deslarga o seu copioso embrutecimento surge um Debord no seu esplendor profético, que não soando como o tal gongo do fim dos tempos, sempre se faz anunciar como um aviso da que será, certamente, uma das grandes   «dialécticas da modernidade» (Beck): «Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipacão da nossa época. Esta “missão histórica de instaurar a verdade no mundo”, nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar» (Debord).

Enquanto procuramos, todos, o nosso papel no futuro que se avizinha, no mundo pós-coronavírus, saibamos por estes tempos achatar o nosso cérebro, que também sendo curvo, também nos impele a desafiar o desconhecido, a lutar contra a adversidade, a progredir em consciência e empenhamento individual e colectivo. Que esse  #VAMOSACHATAROCÉREBRO seja sinónimo, não de uma mocada na mente deslumbrada pela nova Torre de Babel da grandiosa ciência e do aparente domínio da Natureza, mas antes do esvaziar simbólico dos orgulhos de um cérebro inchado pelos fluidos do individualismo, da racionalidade auto-contida, do clister da comunicação das massas. Mais do que tudo,  saibamos perceber esta nova realidade que nos transporta para o facto de que todos, ricos e pobres, sábios e ignorantes, belos e feios, gordos e magros, brancos e não-brancos, residentes ou imigrantes, crentes ou ateus, etc, etc., repito todos, somos iguais nesta perspectiva da humanidade revelada por uma doença que nos achatou o orgulho e nos lança o desafio  de um novel estado de espírito, tão bem sintetizado pelas palavras de Hemingway: «O segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento é a humildade».

João Gonçalo de Bianchi Villar (Pós-graduado em Protecção Civil Municipal)