Não posso dizer com franqueza que acredite em política. E é preciso fé para acreditar nas pessoas. Há muitos anos tive fé no Henrique Leal, do bloco de esquerda. Homem muito considerado na nossa comunidade, que chegou a ser vereador. Anos mais tarde, tive fé numa jovem extraordinária chamada Mariana Mortágua, que vi enfrentar os poderosos até ao limite das suas forças.

Gostaria de ser óbvio e dizer que em política, e na vida, a fé não chega. Mas chega. Mais. Tem de chegar. A política, e a vida, serão sempre vítimas da corrupção. À esquerda e à direita aparecem, invariavelmente, sistemas de favorecimento. Aos amigos, à família, aos clientes. Trata-se de usar os privilégios de governar em benefício próprio. Só a fé nos ensina o privilégio de servir o outro.
Ter fé em Deus é fácil. Fé nas pessoas é um acontecimento extraordinário. Houve fé em Salazar e Sidónio Pais. Houve fé em Sá Carneiro e Cavaco Silva. Houve fé em Martin Luther King e Gandhi. De alguma forma nos deixámos impressionar e encantar por estes vultos. Hoje há fé, de muitas pessoas, em André Ventura.
Cada um destes homens falhou à sua maneira. São humanos. Tal como é humana a necessidade de nos deixarmos conduzir por líderes.Na verdade, o único líder que reconhecemos somos nós próprios. A natureza humana assim o exige, particularmente em situações de miséria ou sobrevivência. Apenas delegamos em outros a responsabilidade de organizar a sociedade por nós.
Os partidos serão sempre as cortinas que escondem os interesses particulares de um grupo. O único denominador comum é o dinheiro, canalizado secretamente através da corrupção. Proponho pois que olhemos para a corrupção com o devido respeito, pois nela se joga a nossa integridade e carácter, e para quem acredita em Deus, a salvação da nossa alma.
Nunca me tentaram corromper, felizmente. Sei que não sou diferente dos outros. Por isso fujo a sete pés de situações de liderança e responsabilidades sobre outros. Haverá sempre alguém disposto a pagar por privilégios. Todos os homens têm um preço. Nem que seja o preço da segurança, da tranquilidade, da saúde ou da paz de espírito. Julgo que por isso o prof. Henrique Leal e a Mariana Mortágua, pessoas em quem tive fé, se afastaram da política. Nunca fui testado. Mas possivelmente eu também terei um preço. Pois se acontece aos outros, também, nas circunstâncias certas, me pode acontecer a mim. Mas tenho fé em que haja quem resista. Por isso tive fé no Henrique Leal, e na Mariana Mortágua. Nunca se deixaram, que eu saiba, corromper. Mas essa verdade, reside nos seus íntimos. Só eles sabem a conversa que tiveram com as sombras.
Deus não vai a votos. É preciso ter fé nas pessoas. Ter fé que elas sejam mais fortes que nós, que somos apenas humanos. Não é uma fé cega. É uma fé que interroga, discute, avalia as palavras, os actos, e a sua correspondência. A desilusão espreita. No reduzido leque de escolhas que temos face às circunstâncias, podemos escolher ter fé, ou não, nas pessoas. É uma decisão íntima. Talvez a salvação da humanidade. Falharemos uma e outra vez, talvez até à eternidade. Mas uns aos outros, é tudo o que temos.




















