Para trás é o caminho. Disse-o na última crónica, e espero que me acompanhem nesta odisseia. Será um exercício de memória afectiva. Iremos verificar onde nos perdemos, ao ponto de vermos nos missionários do Chega a nossa salvação. Como antes as testemunhas de Jeová, hoje são gritos de patriotismo que nos batem à porta. Urros contra uma invasão, sem a qual o nosso/vosso sistema não subsistiria. Não acho que as portas abertas nas fronteiras sejam uma solução, mas precisamos dos migrantes literalmente como de pão para a boca.
Acho que nos perdemos, quando esquecemos o que vivemos. Sei bem que as circunstâncias mudam. Já não há bares, discotecas, comércio efervescente aos sábados de manhã, na rua calcetada do Entroncamento. As pessoas não são as mesmas. Mas existem, existirão sempre, memórias afectivas.
Desprezamos essas memórias afectivas, por exemplo, quando não somos gratos pelo que vivemos. Quando esquecemos o “João” que partilhou a mesa da escola primária connosco. Mas também a D.Elvira do Quiosque que nos vendia gomas. Eu não o faço, mas já vi gente da minha época ignorar-me olimpicamente, nem sequer cumprimentando-me, quando se cruza comigo. Isso aconteceu-me a primeira vez há muitos anos, deveria eu ter 20 e tal. Ainda voltei atrás a pedir explicações; ao que se segue a justificação do costume: “Não te vi.” ou “Não te reconheci.”. Com o tempo habituamo-nos e relativizamos.
Mas não nos podemos habituar a esquecer e relativizar as nossas memórias. Sem passado, não há presente. Sem presente, não há futuro. Isto não é só um clichet nem uma frase vaga. Pode ser aplicado ao dia a dia pessoal de cada um.
Em Inglaterra, descobri que as paredes das universidades estão gravadas com o nome dos professores que por lá passaram. Diz-se também que uma cultura se vê pela forma como honra os seus mortos. Todos nós tivemos professores, para além da sala de aula. Pessoas que nos ensinaram a estar, a sorrir e a chorar. Também todos temos os nossos mortos. Pessoas que já cá não estão, como o meu pai, que marcaram uma época. Nesta odisseia, precisamos de recordar os vivos e os mortos. Precisamos de recordar como era. Porque é que era.

O que não podemos é fingir que não nos conhecemos. Desprezar o passado, as convivências, os episódios, as lições – e mesmo as mágoas, as frustrações e os ressentimentos. Neste presente conturbado, em que a nossa comunidade é desafiada com a presença de milhares de pessoas novas, e muito diferentes, vale a pena mostrarmos quem somos.
Vale a pena lembrar uma vilazinha no Ribatejo que resiste ainda nos nossos corações. Vale a pena lembrar que somos mais, muito mais, que o presente. Vale a pena contar as histórias, mesmo correndo o risco de não sermos ouvidos. Vale a pena cumprimentar o velho amigo, mesmo resvalando na indiferença. Vale a pena sentir a saudade, porque isso nos dá coragem e pretexto para o que há, e para o que ha-de vir. Somos também o que fomos. E o que viremos a ser. Sou do tempo de olhar nos olhos. Sou do tempo de sorrir para os estranhos. Sou do tempo das relações mediadas pela cerveja, pelos dias solarengos, pelo cheiro da relva e dos pavilhões. Nestes tempos do instantâneo e do imediato, mediados pela tecnologia, é preciso não esquecer que não há máquina como o ser humano. A única máquina que resiste ao dono.
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