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Agradeço-te meu Deus, o meu corpo. Não é aquilo que eu idealizei, mas também nada o é. Custa-me já esticar os braços e as pernas, vítima do sedentarismo, da falta de exercício físico e provavelmente, dos medicamentos. Mal rodo o torso, custa-me atar os sapatos, a visão torna-se turva da miopia crescente, e implacável. A minha voz, antes doce e frequente, está rouca e dormente, como um formigueiro. Tem 50 anos o meu corpo. Meio século. Gosto em mim, ainda, dos olhos fundos, as pestanas longas e fartas, as feições do meu pai e da minha mãe, inscritas na minha fronte como uma promessa de Amor Eterno.

Agradeço-te meu Deus, mexer os braços. Agarrar, e beber, esta garrafa de água que me interroga pela noite fora, algures numa noite chuvosa da província. Agradeço-te o respirar, mesmo contido, mesmo hesitante. E as unhas, lá em baixo, Senhor? Como estão feias. Encravadas. Amarelas. Sujas. Doem por vezes, e tive de retirar as palmilhas dos sapatos, para evitar mais sofrimento. Os meus pés bailam, e as minhas unhas me seguram à realidade.

Agradeço-te Senhor a Diabetes, a Tensão Alta, o Desiquilibrio mental. Tudo isso te Agradeço Senhor, pois me deixou nú perante as estrelas e os meus semelhantes, para que eles e eu soubéssemos o quão humano eu sou. E humano me sinto, perante o passar do tempo. Perante o passar dos dias, das horas, dos minutos sem fim.

Morreu o Alfredo, um rapaz de Torres Novas. Morreu de repente, sem avisar. O meu corpo avisa-me que morrerei, nos silêncios que ignoro, na carestia das emoções e dos pensamentos, no vácuo dos dias, e no vazio das horas. Agradeço-te o aviso Senhor. Cá estarei para escutar a tua mensagem, quer o meu corpo aguente ou não.

Amen.

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