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Devemos meter-nos em política? A resposta prática é não. Isso traz toda a espécie de dissabores e conflitos, quando só queremos ganhar o nosso dinheirinho. Seja a vender rissois ou a fazer espetáculos musicais, o que interessa é estar de bem com todos, e fazer com que a máquina continue a rolar. O mundo reduzido ao negócio. Vamos ver se é bom negócio alinhar com partidos fundamentalistas, como o Chega.

O Chega traz na sua base a discriminação e o privilégio, seja de raça, pele, ou estrato social. Como todos os partidos proto fascistas, traz um modelo ideal de homem (e já agora de mulher). O homem viril e patriótico. A mulher submissa e devota ao lar. Um so Deus, Católico. O caminho para lá chegar é tortuoso, mas, pelo menos a julgar pelo Entroncamento, parece passar por agradar a todos, especialmente para já, as elites culturais. E não é que têm feito um bom trabalho? Gostei dos filmes, da programação cultural, do programa das festas da cidade. Tudo isso está óptimo. Elite cultural me confesso. Porém, esta lua de mel não dura para sempre. Dura, enquanto a estratégia política do chega assim o quiser. Entretanto vamos fazendo negócios.

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Evitamos observar, e analisar, a estratégia do chega local à luz de um tubo de ensaio nacional político. O Entroncamento e Albufeira são, no continente, os projectos piloto deste partido, e parecem apostados em agradar a todos – principalmente nos pontos em que todos concordamos: limpeza, segurança, dinamismo cultural, etc.
O chega vê mais longe. Vê o dia em que os priviligiados do costume, de bolsos cheios, agitem as velhas bandeiras de Maldoror. Nesse dia a lua de mel acaba.

Não sou santo, mas também não quero vender a alma. Nunca quis ser político, e se calhar estou a se-lo. Mas são as circunstâncias que assim o obrigam. As pessoas e os lugares que amei obrigam-me a tomar posição. Que vergonha seria não o fazer, e pretender que proto fascistas – pois recriam de forma popular e embrionária o fascismo – me poderiam representar. Acredito no Amor. O Amor, tal como a Justiça, deveria ser cego. E as fronteiras chateiam-me um bocadinho: há sempre alguém a cobrar portagens, e a celebrar reinados.

Peço portanto a Deus que me ajude a resistir aos cantos da sereia, às manipulações de desejo do Chega no Entroncamento: à simpatia, à disponibilidade, ao profissionalismo e à competência do presidente Nelson Cunha – cujas qualidades tem. Mas essas qualidades estão ao serviço de um futuro sombrio. Um futuro reduzido a critérios objectivos de performance. Esquecem-se os amigos fascistas que não é possível medir os sentimentos. E que os sentimentos são universais e pertencem à Natureza – por muito que isso custe à Academia, que os tenta possuir pelo menos desde o iluminismo no século XVII, sobretudo com o Empirismo e o Utilitarismo. Apetecia-me ter ido ver os filmes dos Óscares. Mas não fui. Trata-se de propaganda política. Apetecia-me ir ver as Festas da Cidade. O David Fonseca, Peste e Sida, e outros. Mas trata-se de propaganda política do chega. Tenho de ter consciência disso. Neste tubo de ensaio político nacional, eu e todos, somos cobaias. É difícil, e muito, mas podemos resistir. No labirinto em que estamos é fácil perdermo-nos. O fio de Ariadne é o lugar e as pessoas que amámos, genuinamente. Para trás é o caminho.

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