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Diz-se com justeza que cada um vê o mundo que está à altura dos seus olhos. É, pois, de esperar que muitos espetadores do filme, que conhecem a cidade e nela vivem, concluam que o Entroncamento do filme não é, apesar de tudo, a cidade que eles conhecem, não é a cidade onde vivem. Para um espetador não entroncamentense, esse juízo de valor não tem importância nenhuma, nem sequer existirá. Mas, para um habitante do Entroncamento, o filme, associando-se à cidade nos seus cenários mais desoladores, e fixando-se exclusivamente num grupo de jovens marginais desenraizados que aí vivem, não pode evitar o confronto entre o lugar realmente existente, que se conhece, e o lugar da ficção realisticamente localizado, que só parcialmente se reconhece.

Porque, justamente, o filme mostra uma realidade que está longe de ser exclusiva do Entroncamento. Mostra uma cidade pobre que “mora” nos bairros “sociais” mais ou menos periféricos, mais ou menos degradados, de qualquer centro urbano. Desde logo porque a opção do realizador foi quase despojar do filme outros habitantes – digamos, simplificando, as pessoas comuns e as suas vidas –, centrando a trama num grupo de jovens do “bas-fond” ligado ao consumo e pequeno tráfico de droga, existindo sobretudo de noite, imbuídos de uma cultura racista e misógina, socialmente ressentida, cujos esforços para se integrarem nunca são bastantes perante uma sociedade hostil, que lhes falhou no contexto familiar (há no filme apenas, e fugazmente, um vago pai e uma silenciada e sofrida mãe cigana), na escola, em toda a parte. E por isso recorrem a expedientes criminosos para, como diz uma personagem antes de um assalto violento e totalmente amador, “tirar o pé da merda”.

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O realismo cru das relações entre as personagens não “salva” nenhuma delas de uma existência dura, áspera, “sem pecado e sem culpa”, sendo logo evidente na cena inicial do filme, em que cinco jovens socialmente iguais na pobreza e na exclusão entram numa escalada de violência (verbal, física, moral…) que marca o filme até ao fim.

Laura, a personagem protagonista, é uma espécie de passante solitária, que chega ao Entroncamento, vinda de um bairro degradado do Porto (o Cerco, é sintomático), para tentar mudar de vida num lugar “mais calmo”, como ela própria diz, e esquecer um passado violento, que lhe deixou marcas físicas (o plano em que se olha ao espelho e se contorce sobre si própria para fitar o estado das nódoas negras que tem nas costas é particularmente tocante). Paradoxalmente, é esse pesado passado que a torna friamente escudada num universo onde as mulheres são o elo mais fraco. É acolhida em casa de um primo vagamente meliante, vagamente preguiçoso, com uma vida desancorada de qualquer referência ou projeto, uma vida de ganzas e de pequenos atos criminosos. Laura começa por procurar emprego, tentativas goradas. Arranja finalmente um part-time por 450€ ao mês, mas tudo se esgarça e ela passa (volta?) a dedicar-se ao pequeno tráfico, à hostilidade das noites frias, aos recantos mais degradados da cidade, às ruas cheias de carros estacionados, mas desertas de gente. No final do filme, após uma dupla vingança sobre um homem violento e sobre o grupo onde afinal não se integrou durante a sua estada no Entroncamento (não se despede, furta uma pesada embalagem de droga ao “dealer” do grupo), Laura parte de novo de comboio e, como já fizera à chegada, olha demoradamente para a câmara, fitando-nos, e o seu olhar tem tanto de ódio como de desesperada súplica.

É um filme muito violento, ainda que nenhuma personagem caia baleada no chão. Naturalmente contra os seus próprios desígnios, o filme pode suscitar uma interpretação equívoca a espetadores enviesados. Num momento em que o Entroncamento é governado por autarcas de um partido da extrema-direita, que tem nos cidadãos de etnia cigana e nos imigrantes pobres um dos seus combates mais ruidosos, o filme arrisca-se a passar uma imagem deturpada do Entroncamento: uma “cidade infrequentável”, dominada por uma criminalidade desenfreada, perpetrada por jovens marginais, perigosos, entre os quais pontuam um cigano (afinal, o mais “humano” de todos) e alguns afro-descendentes. Os “outros”, portanto. Bem sei que o filme inclui o polícia que, no ginásio, debita o discurso tipicamente “chegano” e que a professora insiste com desfaçatez e cinismo no duplo preconceito contra os ciganos e contra os imigrantes africanos (ou simplesmente portugueses afro-descendentes). Mas será isso suficiente para não fazer esquecer a violência social a que a pobreza está sujeita em cidades como a de “Entroncamento”?

Há um plano, um belíssimo plano, em que Laura está na “ponte do mijo”, já noite, olhando para a estação, onde se veem, em fila, vultos ao longe acabados de sair dos comboios, que atravessam a estrutura montada sobre as linhas e se dirigem para a cidade, de regresso às suas casas, após um dia de trabalho e uma cansada viagem de volta. São os (muitos) passageiros que vemos apearem-se no Entroncamento ao final dos dias, vindos sobretudo da região de Lisboa, onde trabalham e para onde vão manhã bem cedo, e que hoje são em grande parte imigrantes oriundos do Brasil e de África. Aqui é mais barato, e também é “mais calmo” do que nos bairros pobres da periferia da capital. Sobre essas pessoas, que hoje fazem um Entroncamento novo e já sem qualquer mitologia bairrista (que pouca houve…), ferroviária ou outra, sobre o seu quotidiano, os seus anseios, a sua integração, a sua (in)visibilidade, o seu jovem contributo para a cidade, talvez que o cineasta Pedro Cabeleira pudesse fazer um filme que se parecesse mais com o Entroncamento de agora e propriamente dito, um filme, digamos, que fizesse mais jus ao título.

Com isto, não se pense que achei o filme – o filme pelo filme – menos bem conseguido. Bem pelo contrário. Ótimos diálogos, uma magistral banda sonora de fundo (no seio da pobreza, não há nunca silêncio…), magnífica direção de magníficos atores, de que se destaca a prodigiosa Ana Vilaça. Conhecia o “Verão Danado”, a primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira, e a curta “By Flávio”, que é filmada – imaginem – no Torreshopping. Vejam-nos, se os não viram ainda. E sigamos o cineasta Pedro Cabeleira, sim.

Arnaldo Lopes Marques

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