Estamos mais tristes e os números parecem confirmá-lo. Desde 2006, a Gallup acompanha as emoções quotidianas da população mundial. Nesse ano, 18% das pessoas disseram ter sentido tristeza durante grande parte do dia anterior. Em 2024 eram 26%. No mesmo período, a preocupação passou de 30% para 39% e o stress de 29% para 37%. O último estudo envolveu mais de 145 mil pessoas, em 144 países e territórios. Não estamos, portanto, apenas perante uma sensação.
As razões serão muitas e algumas são inevitavelmente particulares. Há quem esteja triste porque perdeu alguém, porque está doente, porque está sozinho ou porque não consegue viver como gostaria. Mas julgo que existe também uma razão comum ao nosso tempo: a vida tornou-se demasiado rápida e, sobretudo desde a introdução das redes sociais, acelerámos as próprias relações humanas.
O World Happiness Report 2026 analisou mais de 270 mil adolescentes de 47 países. Entre as raparigas, aquelas que utilizavam redes sociais menos de uma hora por dia apresentavam uma satisfação média com a vida de 6,71 numa escala de zero a dez. Entre as que passavam sete ou mais horas nas redes sociais, esse valor descia para 6,07. Na Europa Ocidental, as utilizadoras mais intensivas tinham uma probabilidade 63% superior de declarar uma satisfação baixa com a vida. Os investigadores não afirmam que as redes sociais sejam, por si só, a causa, mas a relação merece ser levada a sério.
Talvez o problema nem esteja apenas no número de horas que passamos diante de um ecrã. Está na quantidade de vida que atravessa esse ecrã. Em poucos minutos podemos receber uma mensagem de trabalho, assistir a imagens de uma guerra, ver as férias de um conhecido, descobrir que alguém morreu, receber publicidade e saber que outra pessoa gostou de uma fotografia nossa. Passamos da tristeza à inveja, da indignação ao divertimento, da preocupação ao desejo, quase sem intervalo.
Simplesmente não estamos preparados para aquilo em que o mundo se tornou. Somos praticamente os mesmos seres humanos que sempre fomos, mas vivemos agora no meio de uma vertigem de emoções, relações, negócios, notícias e possibilidades. Falamos com muito mais pessoas, mas isso não significa necessariamente que estejamos mais próximos delas. Podemos conhecer centenas de pessoas e continuar sozinhos. Podemos saber o que alguém está a fazer sem sabermos verdadeiramente como essa pessoa está.
Há mais de um século, um grupo de portugueses chegou à meia-idade com uma sensação semelhante de desencanto. Ficaram conhecidos como os Vencidos da Vida. Entre eles estavam Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e Eça de Queirós. Tinham pertencido a uma geração que, na juventude, acreditara que conseguiria transformar Portugal. Anos depois, olharam para o país e sentiram que a realidade ficara muito aquém daquilo que tinham imaginado.
Percebo-os melhor hoje do que os perceberia aos vinte anos. Também pertenço a uma geração que acreditou profundamente no futuro. Vi chegar os computadores pessoais, a Internet, os telemóveis e as redes sociais. Cada uma destas coisas apareceu acompanhada de uma promessa de liberdade. Teríamos mais informação, comunicaríamos melhor, trabalharíamos mais depressa e conheceríamos o mundo inteiro. Quase todas essas promessas foram cumpridas. O problema é que não percebemos imediatamente o preço que pagaríamos.
Não me considero, porém, um Vencido da Vida. Também não tenho saudades de um passado idealizado, com menos conhecimento, menos conforto e menos possibilidades. Não quero voltar atrás. Quero apenas que consigamos avançar mais devagar.
Talvez esteja aí a diferença entre aqueles homens do século XIX e nós. O seu desencanto nasceu porque o futuro que imaginaram demorava demasiado tempo a chegar. O nosso poderá nascer porque o futuro chegou depressa demais.

Precisamos de abrandar, mas construímos uma economia que recompensa precisamente quem consegue acelerar. As empresas precisam de produzir mais, vender mais e responder mais depressa. Os trabalhadores têm de acompanhar e os consumidores deixaram de querer esperar. Queremos a encomenda amanhã, a resposta hoje e a mensagem imediatamente.
Isso tem um preço. Ganhámos riqueza, conforto, informação e possibilidades, mas perdemos também silêncio, espera, concentração e tempo. Muitas pessoas simplesmente não estão a conseguir acompanhar este ritmo. Talvez não haja necessariamente alguma coisa errada com elas. Talvez haja alguma coisa errada com a velocidade.
Durante décadas imaginámos que as máquinas nos devolveriam tempo. Inventámos máquinas para lavar roupa, fazer cálculos, fabricar objetos e transportar pessoas. Mas cada minuto que ganhámos foi rapidamente ocupado por uma nova tarefa.
Agora chegam máquinas diferentes. A inteligência artificial e a robótica poderão executar uma parte cada vez maior do trabalho que ainda fazemos. Isso obrigará certamente a redefinir papéis e a repensar o próprio valor do trabalho. Com certeza que muitos líderes, e muitas outras pessoas especiais, ainda preferem o mundo antigo. Mas o mundo novo promete máquinas que nos irão poupar trabalho e, principalmente, dar-nos tempo para podermos abrandar.
O valor do trabalho não será o mesmo. Talvez possamos finalmente voltar a dar mais valor ao tempo, à companhia, à amizade, à conversa e ao cuidado. E talvez possamos abrandar o suficiente para nos podermos ver uns aos outros.
Gonçalo Serras



















