Deveria perceber muito mais da lógica do consumo. Foi para isso que os meus pais me pagaram o curso de Marketing. Mas eu sempre consumi, muito mais do que produzi. Sou duma geração que teve imensamente mais acesso a bens e serviços do que os nossos pais. Talvez por isso tenhamos sido moldados pela possibilidade de escolher.
Os nossos pais nem sempre tiveram oportunidade de escolher, pelo menos tanto como nós. Se queriam um brinquedo, tinham de o inventar. Não havia televisões em todas as casas. Na verdade, não havia duches ou banheiras. Não havia livros. Não havia água canalizada ou electricidade em muitas casas. Muitas vezes, segundo me contou a minha mãe, não havia o que comer. No inverno tiritava-se de frio. Impossível ter saudades desses tempos.
Cresci, por isso, num mundo de abundância e bem-estar, comparativamente à geração anterior. O comparativo histórico poucas vezes é feito. Em geral, a política e os media preferem situar-nos constantemente na cauda da Europa. Não faz mal. A cauda da Europa é farta e copiosa; o pior da Europa supera em qualidade de vida aquilo que não vivi, mas que ainda se conta. Passados 50 anos de democracia, temos a economia bem consolidada. Fomos recentemente reconhecidos com o rating A+ por uma importante agência de notação financeira, a Fitch. A fartura é tanta que, desde 1976, vimos reconhecido na Constituição o nosso direito a sermos consumidores (art.º 60.º). Ao menos, temos o que consumir. O que vestir. Com que nos aquecer. Não se queixem tanto. Possivelmente, envergonham os vossos pais.
Isto não apaga os salários baixos, a habitação incomportável ou a pobreza que ainda existe. Comparar historicamente não é absolver o presente. É impedir que o presente apague o caminho percorrido. A crítica é necessária; a amnésia não. Há problemas, sobretudo psicológicos, na abundância de escolha. Terreno fértil para o individualismo, de que tantos e tantos se queixam. O egoísmo e a indiferença grassam na nossa sociedade. E não os defendo. Na abundância de escolha é preciso saber escolher. Não só produtos e serviços, mas também quem somos. Mas eu prefiro escolher entre o egoísmo e o altruísmo a escolher entre a fome e a miséria. Sejamos práticos. Não é assim tão difícil estender a mão ao próximo como era difícil ter o que comer. Não é assim tão difícil lidar com lixo, dejectos e monos mal colocados como com a falta deles. Sejamos gratos.

Muito avançámos desde que abriu o Centro Comercial Amoreiras (1985) ou o hipermercado Pão de Açúcar em Cascais (1973), ou desde que no Cinema São Jorge, em Lisboa, estreou o pornográfico “Último Tango em Paris”, com Marlon Brando e Maria Schneider (1974). Sim, hoje escolhemos amores como quem escolhe camisas. Escolhemos amizades para servir o nosso íntimo. Escolhemos partidos para escolher o menor dos males. Os ideais que nos trouxeram aqui são descartáveis em função do interesse de cada um. Tudo isso deveria ser considerado uma bênção. São aspectos menores, consequências visíveis de uma evolução acelerada, para a qual nenhum de nós estava preparado.
Convém, sim, desacelerar. Parar. Pensar um pouco. A dignidade também está em dar graças pelo que temos. Porém, recordar a memória do que o tornou possível é mais do que urgente. É uma questão de saúde pública. A paranóia colectiva com os detalhes e os pormenores, amplificados à lupa por fotografias e vídeos nas redes sociais e quejandos, impede-nos de perspectivar e ver com distanciação. Estamos muito melhor do que estamos. Somos muito mais do que fomos. Seremos muito mais do que somos.
Gonçalo Serras


















