PUB

Um dia acordei e tinha 50 anos. O meu corpo, outrora esculpido pelo desporto, estava deformado e obeso. Quis vestir-me, e tive dificuldade em atar os sapatos. As costas doíam. Lá fora não havia ninguém a chamar-me para ir almoçar. Estava sozinho em casa. A minha vista já não eram os frondosos plátanos da zona verde – agora eram eucaliptos, na zona norte da cidade. Já não ouvia as bolas de hóquei bater contra as tabelas do União Futebol do Entroncamento. Hoje também não iria treinar. Já não veria o meu pai Adelino, preocupado com a evolução do clube. Nem a minha irmã, nas danças de salão. Já não fumaria às escondidas. Agora, posso fumar à vontade. Inspiro. Expiro. Estou em 2026. Ligo à minha mãe. É domingo.

“Olá mãe. Estás bem? Temos almoço hoje?”. A minha mãe fazia um coelho no forno com batatas fritas e ervilhas aos domingos. Para não variar, estava de ressaca da noite anterior. Tinha beijado não sei quem na discoteca, sem grandes consequências. Não beijo ninguém faz muito tempo. Beijava com paixão. Hoje beijo por cortesia. Muitas vezes, por obrigação. Hoje o almoço vem do Rei dos Frangos. Entrecosto com migas. Nunca gostei muito de entrecosto. Mas como tudo, não se pode estragar, diz a minha mãe. Vamos dar uma volta, mãe? Vamos a casa dos avós? Mas os avós não estão lá. Já não estão lá. Era para onde íamos, aos domingos. A minha avó fazia um puré de batata que dava para alimentar um exército. Era o exército dos seus netinhos. Eu era um deles. A minha bisavó Olinda olhava de soslaio, invejosa. Comprava-nos depois com rebuçados. E os netinhos todos trocavam facilmente a avó Guilhermina pela bisavó Olinda.

PUB

O entrecosto chega, numa espécie de cuvete prateada. Apetece-me dizer, por comparação, que era preferível o coelho com ervilhas, ou o puré da Avó Guilhermina. Mas há coisas que não se dizem aos cinquenta anos. Em vez disso digo: “Sabes, mãe, hoje li uma coisa interessante. Envelhecer não é para maricas.” A minha mãe ri-se. E responde “Lá estás tu!”. Sei que há certas palavras contundentes, como a palavra “maricas”. Mas não fui eu que disse. Foi uma atriz americana chamada Bette Davis. Acho que sei do que ela está a falar.

Está a falar desta ausência que enche as casas. Mas também desta força que se põe nas palavras e nos gestos, e sobretudo, nos silêncios. A minha mãe percebe onde quero chegar. E não dá seguimento à conversa. Como sempre tem razão. Nenhuma palavra, por mágica que fosse, me traria as manhãs serenas, as tardes contagiantes, e as noites encantadas de outros tempos. As costas doem. Aguenta. Sentes-te sozinho? Aguenta. Tens saudades? Aguenta. Acende um cigarro.

PUB