
191? – Praça da República – Vila Nova da Barquinha
Em 1907 através de panfletos distribuídos à população do concelho da Barquinha era anunciado: “AO POVO DO CONCELHO DA BARQUINHA – As Comissões Municipal e Parochial republicanas de Barquinha, a exemplo do que se tem feito em outras villas e cidades, e, convictas de que só a República pode dar a Liberdade, Instrucção e Economia de que tanto carece este nosso infeliz Portugal, resolveu que se realize nesta villa um comício público no dia 2 de fevereiro, no qual virão discursar alguns dos principaes vultos do Partido Republicano. Tem-se desde já como certo, que virão fallar o sabio professor e illustre membro do Directorio Republicano, Dr. Bernardino Machado, o intemerato tribuno e deputado do povo, Dr. Antonio José d’AImeida, e o notavel publicista e distincto director de A Lucta, Dr. Brito Camacho, que com a sua palavra inspirada e auctorizada darão a maior imponencia á grande reunião popular.
Ao comício cidadãos!
Viva a Pátria!
Viva a Liberdade!
Viva o Partido Republicano!
Viva o Povo do concelho da Barquinha
Barquinha, 27 de janeiro de 1907.
As Comissões Municipal e Paroquial da Barquinha
O comício principia às 3 horas da tarde, na Praça de Touros.”
A imprensa nacional, também, dá a noticia do evento:
“NOTA DO DIA – Ontem realizaram-se dois comícios: um em Constância e outro na Barquinha. Hoje há um comício em Abrantes. O facto é simples e parece que não deveria passar do noticiário vulgar dos jornais. Mas não: esse movimento a favor do partido republicano, demonstra que há uma alma nova a arder na chama puríssima d’um grande ideal. A agitação republicana pela província demonstra claramente que o país está disposto a entrar em nova vida, abraçando o partido que proclama a sua emancipação política… criou-se, pois, um espirito nacional, capaz de todos os sacrifícios e devendo a sua existência ao partido republicano. Os comícios de hoje, como os passados, provam esse espirito. Saudamos o povo, disposto a reagir contra o regímen.”1
Ainda antes da implantação da República que ocorreu em 1910 temos um imponente comício republicano na Barquinha, no dia 2 de fevereiro de 1907, em que tomam parte Bernardino Machado, Ramiro Guedes, António José d’Almeida e Anselmo Xavier.

Retrato de Ramalho Ortigão pintado por Columbano Bordalo Pinheiro
Outrossim, também no ano de 1907 numa visita de Júlio Sousa e Costa2, então secretário administrativo do concelho de Vila Nova da Barquinha, ao escritor Ramalho Ortigão, este perguntou-lhe:
“ – Ainda existem lá no seu burgo pitoresco os arreliantes políticos, os caciques, os regedores, os citotes enfim toda essa boa malta da gentinha que zela admirável e civicamente pela Res Publica?”3
Ao que Júlio de Sousa e Costa respondeu:
“– Sempre e dignos e austeros, senhor Ramalho Ortigão, cônscios da responsabilidade que lhes incumbe a Carta Constitucional que felizmente nos rege …
Retorquiu Ramalho Ortigão:
“ – Belo! … está tudo integrado com coragem! … – e mudando de tom, continuou – E a sua República está de esperanças? – A República está a chegar! … Não lhe dou três anos …”
Esta profecia cumpriu-se!
Hoje sabemos que Júlio de Sousa e Costa era um republicano crente, convicto e dos sete costados. É através dele, enquanto secretário administrativo do concelho da Barquinha e na mensagem enviada para o Governo Civil de Santarém em 7 de outubro de 1910, que ficamos a saber como a câmara da Barquinha e a população reagiram ao advento da nova República:
“Acuso recebido o telegrama de V. Exa, de ontem, e cumpre-me informar o seguinte: No dia 5, às 6 horas da tarde, soube-se por uns emissários vindos do Entroncamento que havia sido proclamada a República às 8 horas da manhã, imediatamente a Câmara Municipal Republicana arvorou o estandarte da República no meio de grande entusiamo e de uma ovação delirante. Tendo sido avisado a comparecer na administração, recebi um telegrama do Exmo. Governador Civil de Lisboa, Dr. Eusébio Leão, para arvorar a bandeira e comunicar o facto às demais repartições públicas o que imediatamente fiz. A Escola Prática de Engenharia (exército, em Tancos) aderiu ao movimento, não tendo havido o mais pequeno protesto. Tudo está tranquilo.”4
E em 2 de novembro, o secretário assinalou, igualmente, a anuência das freguesias do concelho, reproduzindo as palavras do administrador:
“Cumpre-me comunicar a V. Exa que todas as freguesias desta administração aderiram ao novo regime tendo prestado voluntariamente a sua declaração de fidelidade.”
E para não parecer estranho ao Governador Civil que a câmara da Barquinha mantivesse a mesma vereação antes e depois da mudança do regime político, ou seja da passagem da Monarquia para a República, o Administrador do Concelho, em exercício no ano de 1913, sendo Júlio Sousa e Costa o secretário da Câmara, explicou em ofício que: “A revolução de 5 de outubro de 1910 encontrou na câmara municipal uma vereação na sua maioria republicana, motivo por que se conservou em exercício.”3
Ou seja, quando alguém perguntava o que se passava na Barquinha, a resposta era liminar: “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.
Após a 1.ª República, em dezembro de 1911, são efetuados os censos para a Barquinha que obtiveram os seguintes resultados: n.º de freguesias 4; fogos 1161; população de 4664 pessoas.
Se por estes lados do Ribatejo as coisas com a implantação da república foram mais ou menos pacíficas ou menos conflituosas4, o mesmo não aconteceu noutros lugares e com outros intervenientes.
Apesar desta pretensa calmia temos a registar que após a implantação da República, no concelho na Barquinha, tivemos problemas dolorosos com o clero, à semelhança do que aconteceu noutros lugares.
Se na monarquia o seu representante máximo era o rei, a autoridade terrena, na Igreja era o representante de Deus, o padre da paróquia.
Para os republicanos o padre ou pastor mantinha uma oposição sistemática ao desenvolvimento do conhecimento, do esclarecimento, da instrução ou do progresso.
Os republicanos acreditavam na luz do saber que seria o machado que desbastaria o então silvado de desconhecimento para elevar Portugal, de então, ao nível cultural, esclarecido e democrático da Europa ou, melhor dizendo, da França que era o seu ímpar modelo.

Assim, desde uma multidão armada em direção à Cardiga, à procura dos Jesuítas, em 13 de outubro de 1910; aos gritos na estação do Entroncamento contra o Bispo de Portalegre e Castlo Branco; aos arrolamentos dos bens das igrejas em todas as paróquias do concelho; ao encerramento das igrejas da Atalaia, entre 16 de dezembro de 1911 e 3 de março de 19175, etc, etc., de tudo aconteceu contra os legítimos representantes da religião católica.6
Ficámos, praticamente, sem padres nas freguesias da Barquinha pois dezenas de párocos não pensionistas haviam abandonado as suas paróquias, procurando meios de subsistência em profissões profanas ou na emigração. Isto, também, aconteceu nos concelhos de Barreiro, Loures e Vila Franca, onde, à semelhança da Barquinha, todas ou quase todas as freguesias se encontravam sem pároco.7
Com a implantação da República foram iniciadas várias reformas. Aprovou-se a lei da separação da Igreja e do Estado. Proibiu-se o ensino religioso nas escolas públicas. Foram expulsas as ordens religiosas. Procedeu-se à nacionalização dos bens da Igreja. Introduziram-se reformas no Código Civil com a inclusão do divórcio, liberdade e igualdade conjugal na sociedade, etc. Consagrou-se o direito à greve. Os símbolos nacionais foram substituídos por novo hino e nova bandeira. A moeda passou do real para o escudo. Foi criado o registo civil obrigatório, em substituição dos registos paroquias, para que os cidadãos lograssem nascer, celebrar o matrimónio e falecer sem terem o dever de ser presentes e registados nos arquivos da Igreja Católica.
Todavia, os primeiros anos da República são muito confusos do ponto de vista político e marcados pela luta acesa de várias correntes em que se dividiu o então partido republicano.
De um lado uma corrente mais radical e anticlerical que se apoiava nas camadas mais desfavorecidas da população e que pretendia agir rápido e implementar de imediato cortes abruptos na sociedade. Do outro lado uma corrente mais tolerante e conciliadora dos interesses da sociedade da época que tinha o apoio da burguesia e das classes mais abastadas.
Mas não só programas, ideias, e prismas diferentes de ver a sociedade foram o motivo da grande instabilidade vivificada após a implementação da República.
Para além destas diferenças, relevantes, obviamente, o conflito entre pessoas superou o conflito das causas.
A opção ou não pela participação de Portugal no conflito na I Guerra Mundial, a preparação para guerra do Corpo Expedicionário Português (CEP), no nosso concelho, com o designado CEP, Milagre de Tancos” ou “Cidade de Paulona, (pau e lona), geraram conflitos políticos intensos e debates ideológicos entre o partido democrático, com forte apoio popular, e os partidos evolucionistas mais conservadores.

1917 – Tancos – Acampamento “Cidade Paulona” – Fonte: Arquivo Histórico Militar
Importa, até porque a questão tem nexo de causalidade com o atual Presidente da República, António José Seguro, melhor dizendo com a sua esposa Margarida Maldonado Freitas, citar o cidadão António Maldonado de Freitas, homem natural da vila da Atalaia, deste concelho, e de onde dependia o então lugar do Entroncamento, com uma história “revolucionária” digna de um filme. Era natural da freguesia de Atalaia, onde nasceu em 13 de julho de 1886. Seu pai era António Maldonado de Freitas e sua mãe Maria da Nazaré Freitas. Formou-se em farmácia em 1908. Casou em 1.ªas núpcias em Santarém, mas esse casamento seria dissolvido pelo divórcio. Mais tarde casou com Maria Pereira de Sousa Freitas. Desta união nasceram cinco filhos: António Maldonado de Freitas, Artur Maldonado de Freitas, João Maldonado de Freitas, Custódio Maldonado de Freitas e Maria Antónia Maldonado de Freitas. Iniciou a sua atividade profissional aos 14 anos na farmácia Dionísio no Sardoal com a categoria de ajudante de farmácia. Daí transitou para a farmácia da Misericórdia, sita em Castelo Branco. Em 1909 compra uma farmácia em Óbidos, situada na rua Direita. Tornou-se então farmacêutico ou boticário. No ano seguinte adquire uma nova farmácia, desta vez nas Caldas da Rainha, construída na Rua da Liberdade, onde fixou o seu domicílio. Custódio Maldonado Freitas, farmacêutico, republicano, emerge como uma das figuras mais poderosas da região após o triunfo da revolução de 1910. O seu percurso político é ascensional sofrendo, contudo, alguns reveses. Em suma, um republicano convicto que ficou para a história da 1.ª república.
A implantação da República em Portugal 1.ª República vigorou entre 5 de outubro de 1910 e 28 de maio de 1926, quando um golpe militar, perante o afastamento político de grande parte da população, lhe pôs termo.
Por mais justificações que se procurem, a 1.ª República fracassou porque a modernidade — ou a aspiração a ela — foi sendo sucessivamente adiada pelas correntes tradicionais.
E o epílogo republicano surgiu a 28 de maio de 1926, quando a tradição conseguiu alcançar as cadeiras do poder — já o tentara em 1917, com Sidónio Pais — e impor a sua única forma de estar na política: a ditadura.
E o povo… deixou-se ficar dócil, sereno e pacífico, suportando o jugo como um destino, sem perceber a força que tem em si.
Foram muitos governos, muitas lutas partidárias e muita instabilidade social: mais de quarenta governos, seis Presidentes da República, eleições de dois em dois anos, vinte e cinco revoltas e vários motins.
A entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, em 1916, pôs a nu as dificuldades, fragilidades e contradições da jovem República parlamentar e liberal, cujo regime não consagrava — recorde-se — o sufrágio universal, negando capacidade eleitoral às mulheres, aos analfabetos e, em parte, aos militares.
Com o golpe militar de 28 de maio de 1926 abriu-se o caminho para a criação de uma República unitária e corporativa que formalmente instituiu um compromisso entre um Estado democrático e um Estado autoritário, possibilitando que a praxis política levasse à célere superioridade deste último em detrimento do primeiro.
No mesmo ano do golpe do 28 de maio, em 25 de agosto de 1926, é criada a freguesia do Entroncamento, com os fundamentos, entre outros, que o então lugar do Entroncamento, da freguesia da Atalaia, era composto na sua maioria pela família ferroviária e que pretende constituir-se como freguesia, tinha boas vias de comunicação com a sede de concelho, que dista 3km, tinha caminho de ferro, e que embora pertencesse a 2 concelhos, à Barquinha e a Torres Novas, nenhum do município podia prover eficazmente às suas necessidades optando por continuar a pertencer ao concelho da Barquinha, opção referendada por mais de 2/3 dos seus eleitores.
Em 1932, foi elevado à categoria de vila o Entroncamento, então sede da freguesia do mesmo nome, do concelho da Barquinha, por ter atingido cerca de 6.000 habitantes, e um grau de desenvolvimento e progresso que bem justificava a sua elevação.
Por Portaria n.º 9293 é aprovado o regulamento do serviço de abastecimento de água à vila do Entroncamento.

Afinal, em 24 de Novembro de 1945, é criado o novel concelho do Entroncamento e desanexado do concelho de Vila Nova da Barquinha com os fundamentos que constam do preâmbulo daquele diploma e que, em síntese, eram os seguintes:
– Constante progresso que se tem verificado com a elevação à categoria de vila, em 1932 com movimento comercial e algumas importantes fábricas;
– Existência de ruas bem pavimentadas, rede de distribuição de energia elétrica e de água pública, de mercado, de magnifico edifício próprio, de quartel dos bombeiros, belos edifícios escolares, de cemitério com capela e casa de autópsias privativas, de edifício para os serviços dos correios, telégrafos e telefones, edifícios de saúde e serviços que garantem a assistência médica à população;
– Que é o mais importante centro ferroviário do País, pois dispõe de secção de polícia de segurança pública, posto do guarda fiscal e sede permanente de vários estabelecimentos e formações militares e que tem mais de 8:000 habitantes, distribuídos por cerca de 3.000 fogos, e equipamentos lúdicos e desportivos, etc.
Estes foram, entre outros, os fundamentos para a génese do novo concelho do Entroncamento que em 1945 se separou da Barquinha.
Uma aspiração que já vinha do dia 24 de julho 1933 quando a Junta Freguesia do Entroncamento, por ofício ao Sr. Governador Civil do Distrito, coloca a possibilidade da mudança da sede do concelho da Barquinha para o Entroncamento e cujo conteúdo era o seguinte: “EXISTENCIA E MUDANÇA DO CONCELHO – Em 1584 a Barquinha pertencia ao concelho de Atalaia. Em 1839 foi criado o concelho da Barquinha, mas em 1846 foi extinto, e passou a Barquinha a pertencer ao concelho de Torres Novas, onde esteve 3 meses aproximadamente, voltando de novo para a Barquinha, onde esteve até 1895, data em que novamente foi extinto, e passou para o concelho da Golegã, onde esteve até janeiro de 1898, voltou nesta data para a Barquinha, e aqui espera agora a sua extinção para passar para o Entroncamento”.
Em 9 de novembro de 1934, um ano depois do oficio anterior e que foi do conhecimento do Ministro do Interior, usou então aquela Junta de nova “pressão”, sobre o Governo argumentando que “se vão fazer eleições e por isso muito lealmente, como é nosso dever, tanto mais que somos soldados disciplinados da Ditadura, vimos informar V. Excelência do descontentamento manifesto desta gente, e assim, portanto, um ambiente desfavorável ao acto a que se vai proceder …”
As pressões sobre o poder politico mantêm-se, mas a final, por oficio de maio de 1945, vem-se fazer o seguinte pedido:
“A criação do concelho ou a mudança da atual sede de concelho de Vila Nova da Barquinha para a Vila do Entroncamento” .
Ou seja, é feito um pedido alternativo, mudança da sede ou novo concelho, assim conciliando os interesses das comunidades e dos povos, desiderato que é conseguido passados 3 meses, com a publicação do Decreto n.º 12192, de 25 de agosto de 1945, que criou o concelho do Entroncamento e o separou do concelho da Barquinha.
BIBLIOGRAFIA
1 – Jornal “A Vanguarda”, de 3 de fevereiro de 1907
2 – COSTA, Júlio de Sousa, nascido em Lisboa, em 1877, foi funcionário público em Lisboa, Vila Nova da Barquinha, Tomar, Leiria, Alcanena e Torres Novas. Foi, porém, na Barquinha que trabalhou grande parte da sua vida, onde foi secretário da Câmara Municipal. Através do verbo assumia o ideal republicano, convicto, crítico e mordaz acabando por ver a sua obra “Rei Dom Carlos I, Factos Inéditos do Seu Tempo, 1863 – 1908”, ser proibido pela censura.
3 – POITOUT, Manuela, Nova Augusta, Revista de Cultura, n.º 26, de 2014
4 – ROLDÃO, António. Conferência: “Sábado às 5 com …”, A proclamação da República e a Barquinha em 1910, Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, 2/10/2010
5- POITOUT, Manuela, Cronologia do Entroncamento da Pré-História ao final do Estado Novo, Ed. Município do Entroncamento. 2022
6 – BATISTA, Luís Miguel Preto, O clero da igreja de Atalaia: 1544-2015, Revista Nova Augusta, n.º 27, 2015
7 – MOURA, Maria Lúcia de Brito. A guerra religiosa na Primeira República, Lisboa, Universidade Católica, 2010


















