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Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt

Já o meu saudoso avô, de quem recebi decerto algumas das grandes alusões e valores que me serviriam como rochedos de referência e orientação quando cheguei ao mar alto da vida, costumava dizer que no mundo não havia nada que fosse absolutamente bom e positivo, mas também nada existia que fosse absolutamente execrável, e só trouxesse males, doenças e prejuízos. E, acrescentava, o que todas essas bênçãos e favores ou pragas e flagelos nos trazem, e isso fazem-no em comum, são pretextos e oportunidades para crescermos, amadurecer a nossa visão do mundo e tornar-nos mais responsáveis, conhecedores e conscientes ou até sábios do mundo. Com eles a nossa visão do mundo alarga-se e ganha espessura, e aproxima-nos do que o mundo é na realidade: complexo, mutante, fascinante e incompreensível, resistindo a ser interpretado em absoluto sejam os paradigmas da sua leitura religiosos, científicos, ecológicos ou mesmo astronómicos.

É verdade que esta convicção adquirida de nada haver que seja um mal absoluto tem sido severamente abalroada nos últimos anos com alguns figurantes públicos, com Donald Trump na proa, e acontecimentos mundiais, como a atual pandemia da Covid-19 na frente do pelotão, que quanto a esta já começam a dissipar-se ultimamente muitas dúvidas, depois da divulgação do enorme impulso que o caso está a dar ao negócio das piscinas privadas, à venda de vinhos portugueses, ao alívio no aquecimento global, na recuperação de muitos ecossistemas, à enorme subida de cotação de muitas empresas tecnológicas ligadas ao ensino à distância e até à felicidade de muitos ingénuos, puros, patetas, míopes e inscientes que acreditam que vão passar pelas plataformas digitais os novos métodos pedagógicos para a pós-modernismo e para o que falta percorrer neste alucinante século XXI.

Em Portugal, onde o Governo socialista tem sido elogiado pela forma como o país tem gerido a crise da pandemia, há que reconhecer que numa primeira fase o primeiro-ministro soube conduzir a “grande nau” com ponderação, sensatez e sentido de estado. O país sentiu medo, recolheu-se nos aposentos e nas casernas, e confinou-se, expondo-se apenas às saídas para os destinos que eram socialmente aceitáveis, para não dizer admissíveis: mercearias, supermercados, padarias, farmácias e hospitais. Depois, surgiu o omnipresente busílis da economia, e o paradigma da contenção e do sucesso pareceu mais marketing e propaganda que verdade, pelo menos a que se pode aferir pelos números.

Consumindo-se o país em combustão lenta, mas irrevogável, usando recursos de reserva, não produzindo já os que seriam o do seu devir, e reduzindo-se à míngua do teletrabalho e suplências afins, ficaram na equação duas incógnitas incompatíveis e que se repeliam mutuamente  ̶  a saúde preventiva e o produto económico. E é aqui que começa a mecânica quântica do desconfinamento e do risco de ao abrir a agricultura, o comércio, as escolas, a economia e a sociedade − chegassem as brechas por onde cresceria o novo coronavírus.

A ideia que prevalece neste final de junho, quase quatro meses depois de a pandemia ter aterrado em Portugal (como mais cedo ou mais tarde o faria em todo o mundo), é a de que depois de ter prosperado miseravelmente nos lares de idosos e em convívios desconfinantes de adolescentes, o novo coronavírus mantém-se ativo sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo. É esta a região que demográfica e sociologicamente é mais vulnerável ao conflito quântico entre o lado sanitário e a necessidade económica, sobretudo nos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Sintra e Loures, onde há freguesias e territórios em que medram a pobreza e a exclusão, e se situam os maiores contrastes e os mais gritantes focos de desigualdades sociais e económicas do país. Nessas áreas, os seus habitantes têm hoje, depois do início do desconfinamento, de ir trabalhar para terem amanhã o que hão de pôr em cima da mesa. E para ganharem os seus dias e chegarem aos seus locais de trabalho, nas indústrias, na construção civil ou nos serviços, e não o podendo fazer em transporte privado, têm que se amontoar nos transportes públicos  ̶   comboios, metros ou autocarros   ̶  apinhados de gente, e expostos como em mais lado nenhum aos surtos da doença.

Avançando a economia, progride também a epidemia, e é nesta realidade que têm esbarrado a política de António Costa e as diretivas da Direção-Geral de Saúde. E é também nelas que se há de configurar a realidade específica do Entroncamento e o fenómeno particular que tem sido o comportamento da comunidade local face à pandemia da Covid-19.

A cidade do Entroncamento compartilha com os centros urbanos mais vulneráveis das humildes periferias de Lisboa da sua condição de servidora de mão de obra da grande metrópole urbana geradora de empregos. E boa parte do nosso burgo (e até da região mais próxima) compartilha deste calvário quotidiano de diariamente utilizar os caminhos de ferro para chegar ao seu trabalho. Faz parte de uma das nossas condições precárias, mas das mais essenciais. Sem agricultura por não ter território, sem indústria por nunca a ter sabido atrair e em alguns casos a ter mesmo expulsado, e subtraído de serviços por falta de capital e de capitalidade regional, o Entroncamento tem em Lisboa a muleta possível. Boa parte da população (há alguns anos adiantou-se uma estimativa oficiosa de cerca de sete centenas de munícipes do Entroncamento e da região que completavam este pêndulo diário) comunga desta realidade oscilante e seminómada. E esta mobilidade para o trabalho é um dos fatores de risco acrescido para a propagação do vírus global e maldito. Para além disso, a nossa cidade detém uma densidade demográfica considerável, resultante de uma população estimada de 23 mil habitantes concentrados numa área de 13,7 Km ². E a concentração de pessoas é obviamente outro fator propício à transmissão e expansão da pandemia, tal como, naturalmente, a presença de algumas comunidades nómadas. E isso conduz, no Entroncamento, e num dia em que uma vez mais não há novos casos de infeção a registar, a uma questão incontornável: o que é que o Entroncamento tem que é diferente dos outros, e o conduz a números de infeções inferiores ao que seria expetável, dado o perfil de risco e de mobilidade e a sua densidade populacional?

Eu não sei responder a esta questão, mas ela existe, e há decerto especialistas muito mais habilitados para o fazer. Atrevo-me porém a conjeturar de que o facto de não haver demasiadas desigualdades económicas e sociais na cidade, o rendimento médio das famílias ser bastante acima da média no país, o trabalho social das instituições para isso vocacionadas e a cultura e a educação (onde é excelente o trabalho que continua a ser feito nas nossas escolas) possam ter um contributo considerável entre as razões que se possam procurar para responder.