Da minha janela, preciosa e catita, a cerca de 500 metros junto à passagem de nível norte, vejo um grande ginásio, o Fitness Factory. É o maior, e dizem que o melhor, ginásio do Entroncamento. Cheguei a estar inscrito, mas desisti.
Desisto, inclusivamente, de pertencer à turba elegante, que chega a ter a heresia de ir a pé para o ginásio, passando na minha rua em alegres conjugações de lycra e tyrilene. Exercício ultramontano. Para quê pagar, o que se pode ter de borla? Está provado que dá mais saúde caminhar, do que os desportos violentos para os quais a humanidade não está preparada.

Desisto de ser bonito, como outrora fui, quando perfilhava dos ideais colectivos de superação física, intelectual e moral. Nessa época dos meus 17 anos, era um funesto jogador de hóquei em Patins, primeiro no União Futebol do Entroncamento, depois Paço de Arcos e Sport Lisboa e Benfica. Não sabia que era tão bonito. Mas as raparigas sabiam. Podia ter escolhido melhor. Mas também eu fui travesso do destino, e romano no gosto: Quis viver depressa e morrer novo. Lema que rapidamente passou a: “Quero viver devagar e morrer velho”, assim que me assentaram no goto alguns golpes violentos da vida, que assim nos ensina a predizer o futuro, e sermos oráculos primeiro, ginastas depois.
Desisto de me esculpir. Os fascistas é que faziam bela estatuária e apologia do que devia ser a potência humana. Era comum exaltar um modelo de beleza único, pois naturalmente branco e louro, mas principalmente potente fisicamente. Desisto já agora de ser potente. Declaro ser um vw carocha, num mundo de Teslas e outras ergonomias. Declaro-me impotente, contra o decurso da vida e as minhas ambições da juventude.
Não, não voltarei a ser bonito como era aos 20. Não voltarei a perseguir ideais. Os ideais que venham ter comigo. Cá estarei à espera, velho gordo e cansado, numa esplanada qualquer, provavelmente no café do Scafa, onde partilho essa cumplicidade de não ser ninguém, excepto o que fui.
Não tenho meios para atingir os fins. Serei arrastado para as fatalidades, mas não as procuro. Devagar, devagar que temos pressa. Arrenego o culto da eterna juventude, essa soberba vaidade que nos determina a cinza ou a paixão. Dou boas vindas às rugas, às dores de ossos, à gordura. Que ela se instale em mim definitivamente, e ternamente, para quando me faltarem os abraços.
Gordos, feios, excluídos de todo o mundo: uni-vos. Ouçam o meu uivo, e percebam, e sintam, que também vocês sois animais. Não consta que os animais usem balança, e se achem bonitos ou feios. Não consta que se olhem ao espelho. Nesse espelho malicioso onde o narcisismo perdeu as botas, e onde toda a minha querida gente se perde, a vida é um labirinto, não é uma passadeira rolante. Só os ratos são felizes correndo sem sair do mesmo sítio. A vida é um testemunho, não é uma afirmação. A vida é tua, não é de mais ninguém. Amigo, não me julgues por ser gordo, não me julgues pelas minhas anomalias. Todos temos as nossas. Umas pagam-se outras não. A fraqueza de uns é a força de outros. Chegarei contigo ao destino, apenas vou um pouco mais devagar, para esse lugar onde todos seremos enfim magros e esbeltos – mas não necessariamente bonitos.
Foto: Amirali Mirhashemian



















