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Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt

É habitual e já costume antigo deslocar-me, e por diferentes razões, até à vila próxima da Barquinha, seguramente mais vezes após a criação da pérola ambiental de lazer e de esculturas que é o seu Parque Ribeirinho, a que o Turismo do Centro prefere pomposamente chamar de Parque de Escultura Contemporânea, que também o é. E, pelo impacto que gerou e mobilizou, transformando o decrépito centro histórico da vila de ontem num espaço em notável renovação, também lhe podia agora chamara de Autoeuropa da Barquinha, embora falte ainda algum investimento privado a acompanhar o esforço do município.

E, nestas deslocações, vejo o que o comum das pessoas pode reparar, por ser evidente e cada vez mais: é cada vez maior o número de pessoas que do município da Barquinha transita a pé até ao Entroncamento, e não estou a falar de pedestrianistas militantes ou de andarilhos de fim de dia, que fazem das caminhadas a atividade física da sua preferência. O que me motiva a escrever é outra coisa, e faço-o pelo dever ético e o compromisso social de o fazer, porque decerto não o podem fazer essas pessoas que encontro pelo caminho, e que o fazem ou cumprem por obrigação e, por não terem outra alternativa, muito sacrifício.

É habitual, e, com os anos, sempre mais, encontrar no trajeto que une o Entroncamento à Barquinha, e também ao Cardal, à Moita do Norte e à Atalaia (sobretudo aos sábados), deparar com pessoas, gente humilde, já com uma idade considerável ou com fragilidades bem visíveis, a fazer o percurso, sob calor intenso ou debaixo de chuva copiosa e vento agreste. Não o fazem certamente por ser esse o seu desporto predileto ou eleito. Fazem-no de forma penosa, arrastados pela obrigação, e porque é assim a sua vida. E mesmo pessoas mais jovens, mulheres que conduzem carrinhos com os seus bebés lá dentro ou ao colo e crianças pela mão, ou jovens estudantes, que são obrigados a completar as viagens com dificuldades, cansaços, e decerto grandes sacrifícios…

Acredito, como deve acreditar o comum das criaturas, que estas são situações de difícil entendimento. Num mundo em que a mobilidade das pessoas é um dado adquirido e uma necessidade imposta ao seu quotidiano, é difícil de entender esta insensibilidade dos poderes competentes perante mulheres e homens, jovens ou arrastando-se, porque a idade já não permita que seja de outro modo, que se condenam a tais esforços.

É claro que a sugestão mais óbvia seria a de criar uma estrutura leve capaz de solucionar o caso com carreiras regulares de autocarros a preços módicos que pudessem subtrair o sacrifício considerável a que se obrigam pessoas desvalidas, e eventualmente proporcionar uma forma de transporte público a quem agora só o pode fazer num automóvel particular. Os concelhos do Entroncamento e de Vila Nova da Barquinha, pela história, pela proximidade e pela sua interdependência social, económica e cultural, mereciam que essa realidade partilhada fosse igualmente compartilhada por uma rede de transportes públicos compatível. A simples criação de um itinerário unindo com um transporte público as povoações referidas e o Entroncamento geraria, por certo, novos públicos interessados. A Barquinha atrai para visitas as gentes do Entroncamento por diversos motivos, e pelos mesmos, e eventualmente alguns mais, o Entrancamento é atrativo para os barquinhenses. Isto é assim na teoria e, racionalmente, não há grandes argumentos para o contestar com fundamentos minimamente aceitáveis.

Mas uma coisa é a teoria, e até o bom senso, talvez até a compaixão pelos que são mais dignos dela. Outra, muito distinta, é a realidade de mentalidades feudais e ideias obscuras que veem fantasmas e ameaças onde há apenas cavaleiros e oportunidades.

Há alguns anos, alguns cidadãos, incluindo autarcas do Entroncamento e da Barquinha (honra lhes seja feita), sugeriram em fóruns públicos a possibilidade de se criar estes transportes interurbanos para resolver constrangimentos e melhorar a mobilidade entre os dois concelhos. Mas logo surgiram figuras a proclamar, com razões macarrónicas, que não. Que esses transportes iriam arruinar ainda mais o comércio barquinhense, e que o concelho iria perder a sua identidade.

Fico abismado com estes argumentos, se é que merecem esta designação, porque são outra coisa. Arruinar o comércio? Ameaçar a identidade? Por favor… Estamos no século XXI. E atualmente, argumentos desses não são só anacrónicos, mas neles eivam, desculpem, alguma má vontade. E, em responsáveis, são graves. É fácil ficar de braços cruzados e permanecer indiferente perante as situações, sobretudo quando para nos deslocarmos temos à porta de casa um Audi, um BMW Série 5 ou um outro veículo topo de gama, possivelmente com um condutor à nossa espera para ir para as autoestradas a faver derrapagens. Mas não é fácil quando o mundo é duro, hostil, e tudo o que se faz tem de ir a esforços.

Compreendo, perfeitamente, que por este caso, que está longe de ser um mero fait-divers, corre a questão do efeito de fronteira, e as inibições das autarquias em se envolverem em questões administrativas, burocráticas e logísticas que envolvam outros concelhos. Se os dois concelhos fossem apenas um, tenho quase a certeza que o caso estava resolvido com uma carreira intraurbana há muito tempo. Mas o dito efeito de fronteira cria abjeções terríveis, complicando em labirintos burocráticos soluções que podiam ser simples, naturais e imediatas. É verdade que sim. Mas também é para resolver esses problemas que elegemos pessoas inteligentes, abnegadas e capazes, sobretudo capazes de se sentarem à volta de uma mesa e resolverem problemas que mexem com os cidadãos mais vulneráveis e com o seu quotidiano.

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