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Não sendo filósofo ou historiador, mas tendo falado e convivido com alguns, apercebi-me rapidamente como são obcecados pela precisão da linguagem. Se não disseres a palavra certa, no momento certo, és considerado burro. E corrido para fora da discussão.

Ao não acertares com a palavra certa, no momento certo, és considerado não só um burro, como também um bruto. E como sabes, os brutos não se sentam à mesa dos senhores do conhecimento. Aos brutos é destinado o papel de ouvintes. Para os senhores do conhecimento é um privilégio que os escutemos. Na verdade, eles preferem reuniões privadas, onde se entendem entre si. O resto, é a maralha.

Mas meu amigo, deixa-me dizer-te uma coisa para teu conforto. Não há palavras inteiramente certas. Todas elas são uma expressão vaga do que queremos dizer. A experiência da vida não cabe no léxico, nem na gramática. Não há palavras suficientes no dicionário para exprimir o Amor que sentes. O silêncio é inteiramente certo, pois é neles que se inscreve a palavra. Quando te pedem para acertar na palavra, pedem-te para interromper o teu silêncio – onde encontras o tempo e a paz para o verbo. É tudo um truque.


Há muito que o conhecimento é tanto e tão disperso, que os técnicos do conhecimento se especializaram. Raramente um programador é um bom sapateiro. Raramente um sapateiro é um bom astronauta. Raramente um cientista dá um bom jogador de futebol. O que eles fazem é convergir na necessidade de espartilhar, partir, o conhecimento, para disso obterem posição e privilégio. Meu amigo, tu que respiras o ar da primavera em silêncio, sabes mais dos átomos que o maior cientista no ativo. Queria dizer-te meu amigo, de uma forma bruta, que não és tão parvo como te fazem sentir.

Aquilo que eles não dizem é que a essência não se traduz por palavras, ou deixaria de ser essência para ser conceito. A essência sente-se. A vergonha que sentes não é tua. É de quem comanda a discussão. É de quem comanda a palavra. A palavra que nos divide, para reinar. A vergonha que te torna servil é, ela também um truque. Pela boca morre o peixe. E é pela palavra, através da palavra, que te querem amordaçar.

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Faz melhor que eu. Mantém-te em silêncio. Quando te perguntarem, cala. Sobretudo, não escrevas nada. Não fixes a palavra no papel, pois a cruz dos analfabetos cairá sobre ti. Mas se quiseres fazer como eu, faz tu as perguntas e responde a ti mesmo. Confia apenas em ti mesmo. Se a lógica não te ajudar, usa o senso comum, que é a lógica herdada dos antigos, e o balanço da nossa realidade. E se te apetecer falar, fala alto. Fala forte. Fala das entranhas. Deixa sair a tua essência. Não pontues o teu discurso, pelas pausas e silêncios dos senhores do conhecimento. Que é precisamente onde te querem agarrar. Que é precisamente, onde está o teu erro.

Por isso os senhores do conhecimento falam baixinho, de forma precisa e analítica e fria. Têm medo. Têm medo da voz forte e franca e quente das pessoas que te querem bem. Têm medo de ti. Têm medo de nós. O povo.

Gonçalo Serras

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