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Olhou-me de soslaio como potencial inimigo. Como quem não quer a coisa deu um passo para a frente, galgando um bom metro de terreno. A moça da caixa, prosaicamente, anuiu com um olhar velado, como que a aprovar a estratégia. Ela própria se recostou na cadeira, garantindo mais meio metro de afastamento.

Se já tinha medido a distância ao aproximar-me da caixa para pagar as minhas compras, mais confortável me sentia agora que o cliente à minha frente retificara o seu posicionamento. Estamos a começar tudo de novo. Estamos a reaprender como se fôssemos outra vez crianças. Quando ia agarrar o carrinho das compras no estacionamento, antes de entrar, dei comigo a proteger as mãos com o próprio saco das compras, à falta de melhor. Teria sido boa ideia trazer umas luvas, daquelas fininhas, pensei. Percorri assim todo o espaço até sair aviado e devolvi a carrinho sem lhe ter tocado. Mas depois usei o saco para arrumar as compras… ora bolas. As tais luvas mesmo é que davam jeito.

Dentro da loja encostávamo-nos contra as prateleiras sempre que aparecia alguém a cruzar-se comigo no corredor. O que valeu foi que, naquela manhã, a afluência era mesmo muito reduzida. Calcei logo um saco de plástico na mão direita, como se fosse uma luva, para tratar de todos os meus aviamentos. Os saquitos do pão – trouxe o dobro do que é habitual para não ter de voltar tão depressa -, os packs do leite, o ensacar da fruta, os legumes, o queijo… mas o que é isto? Estou sempre a lembrar-me dos comboios rigorosamente vigiados, do estado de sítio e do Z a orgia do poder, três filmes que evocam tempos tenebrosos.

É bom não ter a memória curta. Pensei sempre na sorte que temos por já não termos por cá a lepra, a peste negra, as disenterias mortíferas que dizimavam famílias inteiras, a varíola e a gripe espanhola, a febre tifóide, enfim a Sida que supostamente era só para quem se portava mal… Tempos maravilhosos de desenvolvimento e progresso em que a ciência tudo quer compreender e explicar e, melhor ainda, com remédios para isto e cura para aquilo, resolve os problemas e cada um morre na sua vez. E agora? Voltámos às trevas, à Idade Média, voltamos a morrer às pargas e, até lá, mirramos de medo, sempre com a tranca atrás da porta para desancar um potencial contaminador? Vi há instantes nas notícias que umas dezenas de energúmenos espanhóis atacaram com pedras e engenhos pirotécnicos umas ambulâncias que transportavam idosos doentes com corona vírus de um lar para o hospital. É que correu o boato de que os iam soltar na cidade. Soltar na cidade? Está tudo louco? Aonde chega a impiedade dos humanos que antes de o serem eram ainda animais.

Nada vai ser como dantes. Fique em casa, é o mote de todas as mensagens, de todas as notícias, de todas as cantigas, de todas as piadas, até das palavras amigas e solidárias. Claro que ficamos em casa. Tenho-me divertido na horta, ontem colhi as primeiras favas e a glicínia está lindíssima. Mas até quando? Agora que esgotei as provisões de pão e de fruta, com o leite e os cereais quase no fundo, preciso de voltar ao supermercado. Desta vez vou levar luvas para não tocar no carrinho das compras. Se me deixassem até levava o meu cá de casa.

O vírus já nos contagiou a todos, já britou a nossa liberdade individual, já corrompeu a nossa sociabilidade e empatia, encerrou as escolas dos nossos filhos e netos, já mordiscou severamente a nossa própria solidariedade, está a destroçar por completo a economia dos pequenos e dos grandes.

Claro que vamos ficar em casa. Há três semanas que não vejo os meus netos, trocamos sorrisos no .., como é que isto se chama, no whatsapp e fingimos que está tudo bem, eles não vão à escola, os pais estão em casa em teletrabalho mas está tudo controlado, eu também já não vou a lado nenhum excepto amanhã que tenho de ir outra vez ao supermercado.

Obviamente que estamos todos a ficar em casa. Menos os que não têm teletrabalho e têm de sair para trabalhar, os polícias que têm de policiar, o pessoal da saúde que tem de tratar e curar, o pessoal dos comboios que tem de viajar, o pessoal das lojas e supermercados que tem de atender e aviar e toda aquela gente que não tem casa onde ficar. Claro que ficamos todos em casa sem uma luz no fundo do túnel que nos não deixe desesperar. Disse ontem o presidente da república que isto está para durar. Que vamos atravessar todo o inverno com esta cruz às costas. Chiça, ainda agora entrámos na Primavera! Temos de gramar esta quarentena por quatro estações do ano? Não, o homem deve estar mal informado. Um dia destes, mais cedo do que esperamos, acordamos com um dia de sol resplandecente e com a notícia de que, simultaneamente em cinco países do mundo, foi encontrado um antídoto eficaz para esta pandemia sem precedentes. Afinal não é por acaso que estamos no século XXI, ofuscados com tanto desenvolvimento e progresso.