O vereador Mário Balsa (PS) defendeu que o Festival Vapor se tem vindo a afastar da matriz original que lhe deu notoriedade, alertando para o risco de o evento perder a identidade ferroviária e steampunk que o diferenciava de outros festivais realizados no país.
A posição foi assumida durante a última reunião da Câmara Municipal do Entroncamento, onde o eleito considerou que o festival tem vindo a abandonar algumas das características que estiveram na base da sua criação.
“Vi desaparecerem objetivos que o festival tinha e, desaparecendo, ele acaba por deixar de ter grande relevo, torna-se um festival banalíssimo que vai competir com muitos outros que já têm uma dimensão muito superior e estão muito mais enraizados”, afirmou.
Segundo Mário Balsa, o Festival Vapor foi inicialmente concebido para funcionar como um elemento de promoção nacional e internacional do património ferroviário do Entroncamento, assente na cultura steampunk.
“O festival foi pensado numa lógica não só nacional, mas também internacional”, recordou.
Durante a sua intervenção, o vereador destacou que as primeiras edições atraíram visitantes estrangeiros e participantes oriundos de vários países.
“Tivemos da Figueira da Foz, mas também da Inglaterra, do Japão, da Austrália, que ficaram de propósito para o festival”, exemplificou, recordando uma conversa ocorrida numa das primeiras edições do evento.
Mário Balsa considerou que a componente musical acabou por ganhar demasiada relevância em detrimento de outras áreas que caracterizavam o festival.
“Era cinema, tinha teatro, tinha feira de livros, era a feira de artigos, artesanato, atividades para crianças, atividades para as famílias. Tudo isso se diluiu um pouco”, afirmou.
Na sua opinião, essa opção tem consequências não apenas ao nível da identidade do evento, mas também dos custos de organização.
“Se nós nos centrar-mos apenas na parte musical, aumenta substancialmente o orçamento que é necessário ter para sustentar o festival e retira-lhe a matriz ferroviária que ele tem”, disse.
O vereador defendeu ainda uma aposta na internacionalização do projeto, considerando que essa estratégia permitiria reforçar a projeção do Museu Nacional Ferroviário e do próprio concelho.
“Houve uma edição em que o festival trouxe um terço das visitas daquele ano inteiro ao museu”, afirmou.
Por isso, lançou um apelo ao executivo municipal.
“Apelava a que se repensasse um bocadinho a cultura no Entroncamento e também este evento, que existe, que tem um fim, que tem um propósito, e que não se deixe perder esse propósito”, declarou.
Na resposta, o presidente da Câmara Municipal, Nelson Cunha (Chega), reconheceu que existem aspetos suscetíveis de melhoria e garantiu que a edição deste ano será avaliada.
“O conceito steampunk é bastante abrangente. Faltou realmente ali, por exemplo, a parte da pintura, talvez a arte urbana, trazer aqui mais algumas características muito próprias”, admitiu.
O autarca destacou, contudo, a singularidade do evento e do espaço onde decorre.
“É um espaço único. O Entroncamento tem um potencial gigante, não só para géneros musicais, para outro tipo de eventos também municipais”, afirmou.
Nelson Cunha revelou ainda que o município pretende ouvir diferentes entidades antes de decidir o futuro do festival.
“Iremos obviamente avaliar para o próximo ano aquilo que pode ser potencializado e perceber dentro do próprio tema o que pode ser reforçado”, concluiu.
O debate surgiu durante uma reflexão mais ampla sobre a política cultural do município e sobre a capacidade dos eventos locais para promover a identidade ferroviária que distingue o Entroncamento no contexto nacional.
Texto e foto: Ricardo Alves




















