Foto MF Vicente
PUB

Maria Manuela Assunção Poitout, investigadora de História Local e Regional e antiga professora, apresentou nesta tarde de sábado no Cineteatro São João do Entroncamento, com a plateia muito bem composta de autarcas, convidados, amigos e antigos colegas do ensino, o seu novo livro Ensaios de História Contemporânea do Ribatejo, uma edição da Âmago da Questão. Tratou-se de uma notável apresentação, emotiva, evocativa e, sobretudo, histórica, assim mesmo. Primeiro, foi um momento de homenagem da cidade a uma mulher que quer ao ensino, quer, mais recentemente, à pesquisa histórica local e regional tem dedicado muito estudo, gosto e investigação. E, depois, porque o canto emocionado e ainda vibrante de Francisco Fanhais, cantor de intervenção que viveu ainda jovem durante alguns anos no Entroncamento e desde 1984 vive no Alentejo, se quis juntar à homenagem a Manuela Poitout. O caso teve algo de simbólico, que a autora, com os seus habituais detalhes cheios de uma intenção minuciosa não quis deixar passar em claro.

Foto MF Vicente

Em 1970, no final do mês de maio, Francisco Fanhais tinha uma apresentação musical prevista para este mesmo Cineteatro São João, mas o concerto foi anulado por falta de autorização, e sobretudo falta de vontade, das autoridades responsáveis por analisar o reportório dos artistas, vulgo censura, que com a tenebrosa polícia política, zelavam pela manutenção da “ordem” e do salazarismo. Francisco Fanhais, hoje presidente da Associação José Afonso, não pôde cantar então, mas cantou este sábado, 51 anos depois, em homenagem à amiga de juventude, “às grandes memórias que eu tenho desta terra”, e porque acredita naquilo que tão admiravelmente continua a cantar num timbre ainda fresco e sem mácula.

“Este livro nunca esteve na minha cabeça”, confessou em certa altura Manuela Poitout. A verdade é que nasceu na cabeça de João Carlos Lopes, que se tornou no coordenador da edição desta notável obra de história sobre o Entroncamento e a região, e fez todo o trabalho logístico, de sapa e burocracia, até sair impresso da Gráfica Almondina. Os ensaios foram inicialmente publicados a partir de 2007 na revista de cultura regional Nova Augusta, mas João Carlos Lopes, pegou em 400 páginas com os textos de Manuela Poitout, levou-os até à sua casa e pediu-lhe que os revisse e atualizasse, se fosse o caso. E assim se fez a nova obra com textos tão notáveis e pertinentes como Clementina Relvas e a condição feminina no seu tempo (1857/1934), A emancipação do Entroncamento do concelho de Torres Novas e O Entroncamento e as lutas ferroviárias na Primeira República. As greves, além de trechos alusivos às invasões franceses na região, entre outros ensaios e pesquisas.

João Carlos Lopes elogiou a obra, “inatacável no método e rigorosa no conteúdo”, e a pessoa, a quem “a comunidade deve pelo seu exemplo como mulher, professora e cidadã, é uma excelente escritora e uma magnífica historiadora”. Para Luís Batista, professor e autor do prefácio ao livro, Manuela Poitout “é uma excelente escritora com alma de historiadora”. Depois de enunciar o perfil familiar, profissional e académico da autora, com quem trabalhou já em alguns ensaios e obras publicadas, Luís Batista elevou igualmente a capacidade da investigadora, defendendo, todavia, que, sobre a História do Entroncamento “ainda há muito para fazer”.

Foto MF Vicente

“A Manuela Poitout é uma figura inspiradora, que merece a nossa admiração e afeto, uma cidadã de corpo inteiro e que vive e gosta profundamente do Entroncamento”, disse Jorge Faria, o presidente da Câmara do Entroncamento, sublinhando, por outro lado, que o livro “é uma homenagem à cidade”. Jorge Faria notou que os textos da autora, “além de objetivos, têm sempre uma visão sobre as dimensões sociais, são factos históricos mas com a dimensão da solidariedade, os nossos egos são feitos de heróis, como Madrugo, há nele histórias contadas e lutas sociais pela liberdade”.

Francisco Fanhais não escondeu a emoção de rever a amiga e de visitar de novo o Entroncamento, mas não foi isso que lhe fez desafinar a voz, a ele que era um proscrito do regime, um dos de reportório não autorizado pela censura, como José Barata Moura, Adriano Correia de Oliveira e Manuel Freire, aqueles que tinham de apresentar no pedido de autorização para cantar as letras de cada canção. E José Afonso, também. O amigo José Afonso que o jovem Fanhais conheceu na noite de 28 de dezembro de 1968 nas grutas das Lapas, em Torres Novas. Um agente da PIDE (polícia repressiva do Estado Novo) quis entrar para assistir ao concerto, mas, ironicamente, não o deixaram. “Aqui, a PIDE só entra por cima do meu cadáver”, terá proclamado o autarca de Torres Novas, Fernando Cunha. E assim se fez, e isso se respeitos, mas o agente não apreciou a discriminação e fez um relatório contando o caso aos superiores. “Tenho esse relatório comigo. Deve ser a única coisa que devo à PIDE”, ironizou o cantautor das canções de intervenção, que terminou a sua atuação com a Canção da Cidade Nova, uma utopia com letra de Francisco Melro e baseada na Bíblia. “Se me dissessem, só tens cinco minutos de vida e uma canção para cantar, era esta que cantava”, disse, com emoção. “A canção não muda o mundo, um grão não enche o celeiro, mas ajuda o seu companheiro”, sublinhou, citando em português um provérbio castelhano ou até talvez universal ”. Terminava assim, com uma canção perfeita, e o seu grão foi também importante para a apresentação do livro da amiga Manuela. “Ao longe longe já aparece/Uma cidade que resplandece/Ao longe longe o sol já vem/Eu já alcanço Jerusalém”

Manuel Fernandes Vicente            

PUB