
A fachada principal da casa da câmara e da cadeia nos primórdios do século XX integrava o campanário, bem visível na fotografia acima onde se encontram os sinos da câmara, uma ferramenta fundamental dos velhos concelhos portugueses, pois todos os atos camarários eram anunciados “a som de campa tangida”, isto é, convocados com toques do sino da câmara municipal.
Certo que outrora os sinos tocaram no campanário do edifício da Câmara para convocar o Executivo Municipal e para regular as horas aos pescadores, marítimos, arrais, pastores, boieiros, maiorais, abegões, lavradores e tantos outros que, desde o nascer ao sol-posto, eram assíduos atores musculados pela faina no rio e pelo trabalho agrícola.
Hoje ainda tocam para chamar os fiéis para a missa e para outras cerimónias religiosas.
A designação sino provém do latim, da palavra signu, que significa sinal. É público e notório que um sino para ter boa sonoridade deve incluir um metal nobre, quase sempre em bronze, na sua fundição.
O sino pode soar, dobrar, repicar, tocar, bater e voltear. Segundo o costume e a tradição oral considera-se que os sinos repicam em situações festivas, dobram em casos de dor e tocam a rebate em situações de perigo!
A mais antiga referência documental ao uso de sinos antes da nossa nacionalidade data do ano de 870.
Os sinos alcançaram, em todas as civilizações e desde tempos imemoriais, um lugar essencial na vida social e comunitária quer como modo de anúncio quer em rituais sagrados como forma de ligação e invocação do divino quer como reguladores da vida social.
A introdução do sino nos rituais cristãos ocidentais é imputada a São Paulino de Nola (anos 353–431). “Nos anos 529 a 543, a Regra de São Bento instituiu o sino para regular o quotidiano monástico, sendo, também, neste período e através da expansão do movimento monástico pela Europa que se dá a disseminação do uso do sino, tornando-o um elemento distintivo da paisagem e do ambiente sonoro.”1

Relógio da torre sineira da Atalaia – Fotografia de Valter Vinagre
Em várias ocasiões tive a oportunidade de estar na torre sineira de uma igreja e é uma sensação soberba. Calcorrear aquelas escadas em espiral da torre até atingir o pináculo da Igreja, bem mais perto do céu, são momentos únicos da vida! A vista é sempre deslumbrante e atípica. Traz-me recordações da orquestra divina e das sinfonias que, recorrentemente, ouvia quando era menino e moço.
Lembro-me, perfeitamente, de estar na da minha terra natal, em Oleiros, na Barquinha, em Tancos e na torre sineira e do relógio da Atalaia, esta última possuidora de um acoplado relógio magnífico do séc. XIX. Sempre me recordo de ouvir os sinos a tocar e com eles a sensibilidade dos sineiros na sua nobre missão, ora dobrando vagarosamente movido por alavancas, ora continuados, ora com repiques ou toques de velocidade acelerada numa cantilena que diferencia um bom tocador que reproduz as emoções humanas de um singelo batedor de sinos.
Com as orelhas tapadas com as duas mãos ouvia os sons graves e agudos. Eram sons sineiros incómodos e ensurdecedores que produziam uma ressonância colossal, sons sonoros intensos e vibrações que sopravam sobre os meus tímpanos.
No início séc. XIX, em 1828, no reinado de D. Miguel, Portugal estava dividido em seis províncias; estas em comarcas; as comarcas subdividiam‑se em termos ou concelhos; e cada concelho possuía a sua Câmara Municipal. Este órgão colegial tratava dos negócios concertantes aos bens públicos e reunia ordinariamente ou extraordinariamente. As reuniões ordinárias faziam-se duas vezes por semana e as extraordinárias quando houvesse matéria relevante para o concelho. Nesta última, para além do presidente, adjuntos ou vereadores, e do procurador, integravam-na os membros do clero, a nobreza e o povo do concelho, e estava estipulado que: “A hora para estas reuniões he annunciada pelo sino da Camara, que chama a Auto da Camara: então se dirigem os Cidadãos á sala da Camara, e todos dão individualmente o seu voto.”2 Portanto, naqueles tempos, o som dos sinos constituía um privilegiado meio de comunicação dos povos e era usado pelas entidades civis e religiosas.

Sino da Igreja da Barquinha – Sino da Igreja de Tancos
Importa recordar que os então concelhos de Atalaia, Paio de Pele e Tancos foram extintos pela Reforma de Passos Manuel, que dissolveu 498 concelhos em Portugal Continental e criou o novel concelho da Barquinha. O objeto de tal diploma seria a criação de maiores circunscrições municipais procurando suprimir a existência de concelhos pobríssimos de modo a possibilitar que esta fusão os munisse de melhores meios humanos e financeiros. As primeiras reuniões da Câmara da Barquinha serão feitas na sede da Câmara da vila da Atalaia, do já extinto concelho da Atalaia, e até em casa de Manoel Henrique Pirão, o primeiro presidente da Câmara da Barquinha.
Em 14 de junho de 1837 seria lançada a primeira pedra do edifício da Casa da Câmara e Cadeia da Barquinha que incorporará os sinos na torre que seriam quatro, dois a norte e dois a sul. Os sinos de bronze “civis” presentes no edifício dos Paços de Concelho da Barquinha tinham outro desiderato que não o religioso. Para além de servirem para chamamento às reuniões da Câmara eram utilizados para alertar a população para evento ou novidade extraordinária ou de força maior (eram as alturas de repique ou de anormalidade), como um incêndio, uma cheia, uma alteração da ordem pública, etc., ou em momentos de público regozijo ou visita de autoridade (toque de autoridade) ou de festa (coroações, casamentos reais, etc.) ou até para o recolhimento noturno comunitário que abarcava os presos da Casa da Cadeia, na Barquinha situada no rés-do-chão do edifício dos Paços de Concelho.
Uma referência aos sinos da Igreja da Barquinha. Teriam sido colocados muito perto do ano de 1873, data da construção da sua torre. Os sinos estão gravados com o nome de “MANUEL GONSALVES RATO ME FEZ” fundidor que deverá ser daquele período.
Outrossim, nas vilas e nas cidades, em tempos mais antigos, o sino tocava a recolher a horas certas da noite em que se limitava a mobilidade de pessoas. Era o “sino de correr” que convidava os habitantes a recolherem-se, para repouso, nos seus domicílios.
Com a ascensão do liberalismo procurou-se reduzir a presença dos sinos na vida comunitária e o sino da Câmara viu a sua linguagem e peso social diminuir enquanto símbolo representativo do poder concelhio, em paralelismo com os pelourinhos, destruídos pelo camartelo civilizacional, nas palavras de Alexandre Herculano.
Por exemplo, em 1837, a Rainha D. Maria II, manda regular o toque dos sinos e a duração deles e dá ordens para que esses toques sejam prontamente reduzidos mormente os que anunciam a saudação angélica, os que chamam os fiéis à missa, e os que dão sinal de incêndio.3
Todavia, logo no ano seguinte, em 1838,4 é publicado um Decreto que determina que nas festividades por ocasião do feliz sucesso de Sua Majestade houvesse luminárias, repiques de sinos e salvas de artilharia.

Igreja de S. João Batista – Limeiras, com as suas duas torres sineiras
Na Barquinha há relatos grandiosos do uso do som dos sinos … Em 1895 o concelho da Barquinha é integrado no concelho da Golegã o que durou três anos. Mas os barquinhenses lutaram pela sua autonomia municipal e aguardaram, pacientemente, pelo retorno do Partido Progressista ao poder para poderem restaurar o concelho. Em 1898 o concelho da Barquinha era, finalmente, restaurado! Ora, estas alterações legislativas supervenientes, com mudança sucessiva de concelho para outro concelho, (a Barquinha pertenceu, ainda, em 1867 e durante 3 meses, ao concelho de Torres Novas) e ao sabor das correntes partidárias, acarretou revoltas e tumultos nas populações determinadas e com raízes de autonomia local e identidades acérrimas. Por causa disso o nosso “archivo do concelho” andou, literalmente, aos trambolhões, e terá sofrido alguns descaminhos. Isto sem prejuízo dos danos que acresceram os arquivos pelas águas das cheias recorrentes do Tejo. Curioso é que no meu múnus autárquico quando questionava pela localização de algum documento mais complexo obtinha uma resposta singular: “desapareceram com as cheias do Tejo!”
Certo é que em 1898 o concelho é restaurado, com uma enorme festa. Atente-se neste relato à importância do arquivo municipal5: “Barquinha quatro – Acaba de chegar o archivo do concelho acompanhado por um cortejo de cerca de trinta trens repletos de senhoras e cavalheiros. Quási todos os trens ostentam vistosas bandeiras, lendo-se em algumas, Viva João Izidro dos Reis6. Este cortejo que apresentava um aspeto deslumbrante, entrou pela rua Ivens [atual rua 25 de abril] que está lindamente adornada com bandeiras e balões á veneziana. As janelas estavam adornadas com colgaduras, regurgitavam de damas, o que produziu bom efeito. O cortejo desfilou por defronte dos paços de concelho, fazendo as três philarmónicas ouvir o hino da restauração. Os sinos repicavam e ao ar subiram muitas girandolas de foguetes. Reina o maior entusiasmo n’esta gente, ouvindo-se repetidas aclamações ao benquisto e honrado comerciante José Gonçalves, a quem esta terra deve relevantes serviços.” Tempos em que os sinos da Câmara repicavam …
As invasões francesas e os conflitos bélicos tiveram um impacto considerável nos sinos, já que muitos deles foram descidos e fundidos para uso do seu metal em materiais de guerra. Soe que em tempo de paz se fazem sinos e em tempo de guerra se fundem para canhões.
Hoje em dia, na vida moderna, os conflitos são outros e estão ligados a preocupações ambientais, ao descanso e à multiculturalidade das populações que balizam, e regulam, o seu uso. E até o legislador criou, através do DL n.º 9/2007, de 17 de janeiro, o Regulamento Geral de Ruído.
A linguagem dos sinos foi importante numa época onde a comunicação se fazia por sons, eram eles que avisavam os fundamentais acontecimentos da comunidade e o chamamento para os atos públicos. A autoridade municipal também era feita do som do sino e coordenada por quem detinha o poder autárquico.

Hoje os sinos da Câmara permanecem silentes. Estão, contudo, na torre dos Paços do Concelho como testemunhas de quase dois séculos da história desta terra e da sua memória coletiva. Já não convocam o povo, já não anunciam as decisões dos órgãos do concelho ou os grandes acontecimentos da nossa comunidade. O seu som já não regula o quotidiano como outrora, mas continua a lembrar-nos que houve um tempo em que a vida coletiva se organizava ao ritmo do seu bronze!
Fernando Freire
BIBLIOGRAFIA
1 SEBASTIAN, L. Subsídios para a história da fundição sineira em Portugal: do sino medieval da Igreja de São Pedro de Coruche à atualidade. Câmara Municipal de Coruche; Museu Municipal de Coruche. 2008
2 D. Miguel I. Obra … sobre a legitimidade e inauferíveis direitos do Senhor D. Miguel I. ao trono de Portugal. Traduzida do original francês [of the Count de Bordigné]. Lisboa, Impressão Régia. 1828
3 Ofício de 19 de junho de 1837. Oficio sobre o abuso no toque dos Sinos. SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DO REINO, Livro 1837 – 1º Sem
4 Decreto de 1 de setembro de 1838, determina que nas Festividades por ocasião do feliz sucesso de Sua Majestade haja luminárias, repiques de sinos e salvas de artilharia. D. MARIA II (1826-1827; 1834-1853), Livro 1838
5 Jornal “A Vanguarda” de 4 e 5 de fevereiro de 1898
6 Em 1880, foi eleito deputado pela primeira vez pelo círculo de Tomar; em 1887, voltou a ser eleito pelo mesmo círculo; em 1890, pelo círculo de Santarém; em 1897 e 1898, pelo círculo da Golegã; e, finalmente, em 1906, foi eleito deputado pela sexta vez, pelo círculo de Santarém.



















