
Desconhecemos a existência de algum brasão dos antigos concelhos de Atalaia, Tancos e Paio de Pele. Sabemos que o brasão de armas mais antigo da Barquinha, concelho criado em 1836, era constituído por um escudo sem coroa, partido em pala, na primeira, em campo azul uma bateira de ouro em mar de prata azul e, na segunda, em campo de prata uma oliveira de sua cor entre duas vasilhas de tanoa negra, ficando o escudo no centro um ramo de oliveira e outro ramo de carvalho.
Desconhece-se, também, o que levou os nossos ancestrais a retirar o ramo de carvalho do símbolo maior do concelho, mas talvez não andemos longe da verdade se fundamentarmos a sua ausência pela falta de elementos desta espécie arbórea à data da feitura do segundo brasão. Importa relevar que este elemento arbóreo não era inocente uma vez que esta árvore em Portugal está conexa com a Ordem do Templo depois de Cristo e, certamente, fazia parte substancial da floresta autóctone, tal como a oliveira, como adiante se irá evidenciar. Importa relevar que este brasão, com folhas de oliveira e de carvalho está ainda presente na frontaria dos Paços de Concelho e esteve no teto do salão nobre da Casa da Câmara pelo menos desde o ano de 1878.1
O segundo brasão da vila da Barquinha veio a ser um escudo partido em pala orlado interiormente por duas palmas cruzadas e atadas com uma fita azul com a legenda “V.ª N.ª da Barquinha 1836”. No cartel da esquerda um barco à vela e no da direita uma oliveira com duas infusas de barro preto. Aqui evidenciou-se, certamente, os barcos presentes no rio, que segundo dados históricos no cais seriam cerca de uma centena, e o comércio relevante do azeite como exploração e retenção em tanques para posteriores atos de comércio. A Barquinha possuí-a elevado número de tanques para depósito de azeite, armazenamento, que depois, em tempo oportuno e de preço do mercado, seria transportado por via fluvial, para a capital do Reino.
Por exemplo, na década de trinta do século pretérito, quando o atual concelho do Entroncamento pertencia à freguesia da Atalaia, concelho da Barquinha, estavam inventariados 30 lagares de azeite, bem como a existência de várias olarias na Atalaia.

Terceiro, e último brasão, ainda atual, mantém alguns elementos dos brasões primitivo e as suas armas são as seguintes: um escudo em campo azul com uma bateira realçada a negro, mastreada e encordoada de ouro, vestida de prata com flâmina de vermelho, vogando em duas faixas de prata. A bateira (barco) é acompanhada de duas oliveiras de ouro frutadas de negro e de duas vasilhas de tanoa de prata cintadas de negro. É rematado com uma coroa mural de prata de quatro torres (vila). Em baixo, um listel branco com os dizeres “Vila Nova da Barquinha” a negro.
Importa recordar que o arvoredo que hoje possuímos na Barquinha, onde há predominância esmagadora do eucalipto, não exibe a realidade de antanho. Parece mentira, mas não é …
Em 18542 já depois da fusão dos concelhos de Atalaia, Paio de Pele e Tancos, no novel concelho da Barquinha, afirmava-se que a árvore dominante era a oliveira e nessa narrativa assegurava-se que a “funda da azeitona é de acordo com as moléstias e com o rigor do Inverno”, tal e qual como na atualidade.
Não encontrei elementos bastantes para a existência de carvalhos embora os castanheiros sejam já bem referenciados.
Interessante é saber que são as laranjeiras a segunda espécie de árvores dominantes.
Depois, em menor quantidade aparecem as nogueiras, com produção de 2 moios ou 1600 litros, figueiras, amendoeiras com produção de 450 litros, avelaneiras com a colheita de 450 litros, pereiras, macieiras, sobreiros, amoreiras, castanheiros e vinha. Há, ainda, a registar a produção de 15 moios e 6 alqueires, cerca de 12090 litros de arroz.
Memoro, que 2 anos de 1854, em 15 de novembro de 1852, ocorreu um forte e violento furacão que em grande parte destruiu e devastou os olivais do nosso concelho.3
Em 1855 temos inventariados 910 litros de amêndoas, 600 litros de castanhas e não houve avelãs.4
Em 1857 a existência de cereais era de 55680 litros de trigo, 7077 litros de milho, 1044 litros de cevada, 221 litros de centeio, o que demonstra o peso das searas de trigo no nosso concelho.5 A batata, o tubérculo mais popular do mundo, oriundo doa Andes, teria sido cultivada em meados do século XVIII, nas regiões de Trás-os-Montes, Minho e Beiras. No inicio do Séc. XIX, com as invasões franceses, os agressores trouxeram batatas nas suas provisões, pelo que ajudaram a espalhar este importante alimento. Mas é tão só no ano de 1857 que aparece a palavra batata nos relatórios, isto para o concelho da Barquinha, nos livros de atas que consultei,6 e a partir daqui tem sido um alimento perene para as nossas famílias.
Em resposta ao Governador Civil7 questionado o Administrador do Concelho da existência de madeiras para o fabrico de pólvora, este vem dizer que no nosso concelho há pouca plantação de salgueiros, amieiros e sanguinhos nas margens das valas, dos ribeiros e dos rios, e que estas madeiras são utilizadas para segurança dos terrenos (contra a erosão), fundamentalmente junto das margens da borda de água ou “marachas” do Zêzere e Tejo. Atualmente, as galerias ripícolas arbóreas existentes são constituídas por salgueiros, freixos, choupos, amieiros, lódão-bastardo, sanguinho-de-água, borrazeira-branca, que sustentam e estabilizam as margens.
Notável é a referência à existência de valas que, após o desvio do Tejo, ocorrido perto do ano de 1545, são responsáveis pela origem do povoado da Barquinha na margem direita do Tejo.

Mapa da autoria do Prof. José Alves Dias, na obra “Uma grande obra de engenharia em meados do Século XVI: A mudança do Curso do rio Tejo”, Estampa, Lisboa, 1984.
A valadagem foi uma atividade secular. Que era a valadagem? “uma luta de, por um lado, domar os terrenos alagados pelas águas, e por outro, levar as águas aos terrenos onde ela escasseava. Sendo vulgarmente reconhecidos pelo seu grande valor, destemor, mestria e sabedoria, os valadores desempenhavam o que era, ao mesmo tempo, um trabalho, uma missão e um ofício … terrenos alagados onde se cultivavam os campos do arroz, do milho, do cânhamo e outras culturas às quais a presença permanente e abundante de água era essencial, não teriam tido fecundidade nem produção; sem eles, os terrenos secos de bairros e charnecas não seriam irrigados nem dariam produção; sem eles, nem mesmo as cidades originárias de seculares urbes teriam tido condições para nelas se viver e asseguradas as necessárias fortificações de segurança”.8 Esta atividade contribuiu para a riqueza da agricultura e engrandecimento dos nossos anteriores. Como sabemos o rio Tejo foi desviado artificialmente para o centro da planície de Martintina (entre a Cardiga e Pinheiro Grande) curvou à direita e preencheu as antigas “valas” dando origem ao Campo de Cima da Cardiga e a novos portos e a novas margens donde nasceu o lugar de Barca, e depois o lugar de Barquinha. E, não fora a chamada dos homens práticos e inteligentes do termo de Coimbra, logo a seguir à mudança do leito do rio Tejo, ocorrida perto de 1545, com recurso à plantação estacadas de tanchões de salgueiro e outras árvores, bem visíveis, atualmente, no Parque Ribeirinho da Barquinha, certamente a Quinta da Cardiga teria abalado e sido derrocada ou sofrido graves danos irreparáveis pelas impetuosas águas e cheias do Tejo.

Estacadas no rio Tejo – Parque de Esculturas Contemporâneas de Almourol – V.N. da Barquinha
Este Alvará do ano de 1694 tem dados históricos importantes! 9 Conta-nos que existiu o desvio do Tejo, a complexidade da sua navegação, a utilização da corda nas embarcações, a origem dos principais mareantes, o móbil que levou à sua feitura, as sanções penais e financeiras, de 20 dias de prisão e 2$000 réis, em caso de reincidência o dobro para os barqueiros e mareantes, e resolveu um enigma que me sobrevinha, a existência daquelas estacas numa extensão de cerca de 2,5 Km, a contornar o leito da margem direita, entre o cais da Hidráulica da Barquinha até à Cardiga.
Reza assim o Alvará: “ … ficar a dita Quinta (Cardiga) junto ao Rio Tejo, foram com o tempo as correntes das águas mudando o seu primeiro curso, e entrando pelas terras da dita Quinta, de tal sorte, que até no presente lhe tinha levado mais de sessenta moios de terra de semeadura, e já ia endireitando com casas, em que se temia grande ruína; e não se lhe acudindo com o reparo, na forma que fosse possível, entrariam as águas do dito Rio pelas terras circunvizinhas, lavando as do Campo da Golegã, com notável prejuízo, não só da dita Quinta, mas do bem público e comum; e que para cortarem este dano, e outros maiores, que podiam resultar, convocaram do Termo de Coimbra homens práticos e inteligentes nesta matéria, que resolveram ser necessário fazerem-se estacadas de tanchões de salgueiro e outras árvores … obra de grande quantidade de tanchões, e estacadas de salgueiro … mas … os barqueiros e marcantes das Vilas de Tancos, Alcochete, e Abrantes lhes cortaram, abalaram, e arrancaram as ditas estacas e tanchões …pois sem elas lhes ficara mais fácil levarem os seus barcos à sirga (corda), … impondo aos ditos barqueiros pena, para que mais não cortassem nem arrancassem as ditas estacas, e tanchões …”. Ou seja, a solução encontrada pelos engenheiros (homens práticos e inteligentes da Universidade de Coimbra) seria usada mais tarde, depois do terramoto de 1755, para a baixa de pombalina Lisboa que se encontra assente em madeira ensopada que sobrevive até aos dias de hoje.
Em 1878 (CHAGAS,1878) conta-nos que na Barquinha: “Grande parte de território é ocupado por olivedos que produzem azeite finíssimo muito acreditado nos mercados, possui também pinhais, laranjais, terras de trigo, milho e centeio, amendoeiras, figueiras, alguns sobreiros, e mais árvores de fruto”.
Outra árvore que devo referenciar é a amoreira. No tempo de El Rei D Afonso V, em 1438, lançou-se a “moda” de obrigar a plantação de 20 pés de amoreira por vizinho. O propósito é repetido por D. Manuel I, nas cortes de 1495. O rei D. José, por Lei de 20 de fevereiro de 1752, catalisando os ideais visionários de Sebastião Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que promoveu um regime de incentivos impar para a plantação desta árvore. Estávamos perante incentivos fiscais e prerrogativas sedutoras para o povo e para aqueles que se dedicassem à plantação de amoreiras/criação do bicho da seda. Com forte acolhimento popular, após a publicação desta lei, a produção veio a desfalecer em consequência do desleixo das populações, das invasões francesas e das guerras liberais. Este sucesso da plantação das amoreiras e criação do bicho da seda teve, portanto, naquele período, escassa longevidade. Já no reinado de D. Maria II, voltou-se a incentivar esta cultura através da circular de 21 de setembro de 1836, com a formação de “viveiros e plantas de amoreiras próprias para a criação do bicho da seda”, e pela Portaria de 23 de setembro de 1836, e Portaria de 12 de dezembro de 1842, se providenciaram “o bem da conservação das amoreiras”. Havia um desiderato real, a generalização do bicho da seda e produção de fio para a manufatura nacional. Só o Nordeste e as Beiras continuaram a produzir em escala a seda, isto até meados do séc. XIX. Todavia, a ambição dos produtores deu origem ao advento de várias doenças no sirgo e com ela o fim desta atividade. Só em alguns lugares, longe das culturas intensivas e desapropriadas a doenças, as produções sobreviveram, como aconteceu na minha terra natal, Oleiros, e que deu origem aos célebres bordados de Castelo Branco. Esta cultura apresenta características que a tornam uma produção artesanal única, fruto de materiais, sensibilidades e saberes enraizados. “É, no entanto, o concelho de Oleiros que nos surpreende. Nas palavras do próprio relator do Congresso, em Castelo Branco [IV Congresso e Exposição Regional das Beiras, ano de 1929], este concelho “Quási fora do mundo (…) apresentou-nos (…) a sua seda natural: em casulos, em meadas e em tecidos. Único concelho do distrito e um dos poucos do país onde ainda se faz a criação do bicho da seda em larga escala, ainda ali são conhecidas e praticadas todas as operações do fabrico e da coloração da seda”.10
Também no concelho da Barquinha a cultura da amoreira ou da seda é tema pois em resposta do Administrador do Concelho ao Governador Civil11 este informa que há poucas árvores de amoreiras, “… só nalguns quintais e nalgumas vinhas”.
Em 1863 o Administrador do Concelho vem informar o Governador Civil que não há qualquer produção de seda, nem de arroz, mas existe produção de nozes, amêndoas, cera, mel, vinho, aguardante, laranjas e limões.12
Acrescento que a Rua Patriarca D. José, na Atalaia, ainda conserva resquícios destas amoreiras. Antigamente, a rua Direita de Santarém, estava completamente coberta de folhas de amoreiras pelo menos desde a Casa do Patriarca até à Igreja Matriz da Atalaia.
Também há testemunhos da existência de amoreiras junto da Fonte da Moita.
Outrossim, em 1886, na vila da Barquinha tínhamos uma alameda no Largo das Amoreiras e uma praça, a do Comércio, atual Praça da República.

Avenida dos Plátanos – V.N. Barquinha
Por último uma referência aos atuais plátanos da Barquinha que nestes tempos tão prestimosa sombra nos dão.
Foram plantados no dia 20 de agosto do ano de 1908, quer isto dizer que são distintos exemplares que vão fazer 118 anos de vida, é obra!
Fontes/Bibliografia
1 CHAGAS, Manoel Pinheiro, Dicionário Popular, 3.º volume, 1878
2 Ofício n. 4, de 7/1/1854, 102 de 29/12/1854 e 6 de 15/1/1855 – Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857
3 Diário do Governo, n.º 290, de 9/12/1854
4 Ofício n. 112, de 17/11/1855. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857
5 Ofício n.º 27, de 7/3/1858. Livro de atas da Correspondência ao Governador Civil. 1854 a 1857
6 Ofício n. 75, de 18/11/1857. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857
7 Ofício n.º 30, de 16/6/1857. Livro de atas da Correspondência ao Governador Civil. 1854 a 1857
8 MARTINS, José Manuel Pereira. Os valadores de Riachos. Núcleo de Estudos do Museu Agrícola de Riachos (NEstMAR). 2022
9 ALVARÁ, 06 de agosto de 1694 – que o Corregedor da Comarca de Tomar, quando for em correição, tire todos os anos devassa dos danos causados por tirarem as estacas no Rio Tejo junto ao Convento da Ordem de Cristo – D. PEDRO II (1667-1706), Livro 1683-1700
10 CLARA, Vaz Pinto, MONTEIRO, João Pedro. Colchas de Castelo Branco. Ed. Silvip, Sociedade Gestora do Fundo de Valores e Investimentos Prediais. 1993
11 Ofício n.º 78 de 3/8/1855. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governador Civil. 1854 a 1857
12 Ofício de 13/5/1863 e 30/7/1863 – Livro de atas da Correspondência enviada ao Governador Civil, 1857 a 1863
Fernando Freire


















