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A minha geração partiu. Uns para Lisboa, outros para o estrangeiro. Ficaram os velhos, os doentes, os que tinham património, e vieram migrantes para preencher o vazio. Em terminologia política chamaram-lhe desertificação do interior e repovoamento, respectivamente.

Eu fui um dos que não tive filhos, e tive pena. Gostava de ter visto um Gonçalinho a brincar na zona verde. Gostava de o ter visto a ler e a andar de bicicleta pela primeira vez. Não encontrei mulher à altura. Talvez tenha sido demasiado exigente. Paciência. Resta-me alegrar-me de saber que hoje, ao contrário de alguns anos, os jardins e as escolas estão cheios de crianças, de culturas e origens mais viçosas que a nossa, que decai na natalidade, porventura a caminho da extinção. Outros explicarão as razões profundas para isso.

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Ficámos velhos. As rugas aparecem na medida em que as crianças brancas desaparecem. Resta-nos a dignidade da derrota civilizacional, esta que pos um homem na lua, mas não consegue por bebés na barriga das mulheres. Ao contrário do que muitos supremacistas brancos pensam, isso faz de nós uma cultura inferior – apesar do nosso saber, e da nossa tecnologia. O tempo é medida de todas as coisas. Outras culturas trazem mais filhos ao mundo e elas, como dizia a Bíblia, herdarão a terra e tudo o que ela contém. Como a tua casa, o teu quarto, o teu automóvel, mas para já, as tuas escolas, os teus jardins, os teus empregos. Ainda bem que assim é. Antes assim que a ruína e o silêncio. Antes deixar aos homens, que aos bichos.

Resta a velhice. Esta em que vou entrando com 50 anos. Tento deixar um testemunho, sementes do que vivi, procurando que germinem num outro tempo, num outro lugar. E vejo tanto medo da velhice. Gostaria que fossemos velhos, juntos.

Gostaria de te dizer como foi bom crescer contigo meu velho, mas agora deixa-me envelhecer contigo. Deixa o teu orgulho de lado. Sei que ainda há pouco me vias trepar às árvores. Sei que não sou da tua têmpera. Não fiz revoluções, nem fui independente como tu. Como já te disse, nem filhos tive. Mas fui um dos que fiquei, mesmo doente, mesmo cansado. Ainda busco em mim o melhor e procuro partilhar como ensinaste, meu velho. Ainda procuro entender-me com os meus semelhantes, como me ensinaste meu velho.

Vejo-te preocupado com o futuro. Mas porquê, se o futuro não nos pertence? Somos a primeira geração da história que vive pior do que os seus pais. Não temos casas, ordenados, empregos. Não temos futuro. Mas temos pela frente, a velhice. E quem melhor para me ensinar a enfrentar a velhice senão tu meu velho?

Ensina-me por favor o que é ter cabelos brancos. Ensina-me a suportar os dias. Ensina-me a solidão. Ensina-me meu velho a enfrentar a morte. Fica do meu lado. Não entres tão depressa nessa noite escura. Espera por mim. Ainda não sei caminhar sem ti. Deixa-me continuar a cantar para ti essas velhas histórias de um povo unido, que jamais será vencido. O que te peço é que sejas o velho lobo que marca o passo à alcateia, para que ninguém fique para trás, e que flanqueemos a morte, com o nosso espírito e os grandes feitos da nossa cultura. O nosso uivo se calará um dia, mas as crianças do futuro, negras amarelas ou vermelhas, ainda o escutarão no vento.

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