Meu amigo, isto já não corre mal de agora. Corre mal desde que definiste objetivos para a tua vida. Mas enganaram-te. Disseram-te que tinhas de ser coerente contigo mesmo para lá chegar – ou seja, ser totalmente previsível, e como tal confiável, e como tal, altamente elegível para um cargo ou para uma missão na vida. Agora, manipulas as circunstâncias a teu favor. Ou seja, és completamente burro na tua abordagem egoísta. Pois meu amigo, as circunstâncias são de todos – e quando nascem, são para todos.

A incoerência é uma dádiva. Fazemos a infância e a adolescência alegremente incoerentes, navegando ao sabor das circunstâncias. Num dia sendo amigo do João, no outro da Teresa. Num dia gostando do gelado de morango, no outro do gelado de chocolate. Num dia gostando da mãe, no outro dia do pai. Num dia acreditando em Deus, noutro dia renegando-o. Porém, quando chegamos a adultos, percebemos que para chegar ao paraíso – seja ter família, casa, filhos, um bom emprego, só para citar o paraíso mais comum – temos de fazer as nossas próprias circunstâncias. Para conseguir isso, esquecemos a incoerência que nos trouxe à idade adulta. Esquecemos como fomos felizes. Em adulto, cada um quer ser feliz por si. Que é uma idiotice. Pois a felicidade não se impõe unilateralmente. Acontece, quando estamos todos juntos. Como na infância e adolescência, com a familia, amigos, colegas e conhecidos. Somos seres cooperantes e gregários, esquecer isso é esquecer o que nos trouxe aqui. Sim, tivemos atritos, ódios e guerras. Matámos aos milhões. Mas ainda assim, esforços colectivos de pertença. Matámos e odiámos para sermos coerentes com os nossos padrões de valores. A coerência não é só perigosa. É uma linha de ruptura de toda a humanidade, onde se pretende individual ou colectivamente, controlar as circunstâncias. Logicamente, não deixando que as circunstâncias nos controlem a nós. Pergunto: São assim tão más as circunstâncias para as querermos dobrar à sombra da nossa vontade?
Meu amigo, vives hoje a circunstância de um lindo dia de sol. Ainda te lembras de rir desbragadamente na rua, com os teus amigos, nesse tempo em que a circunstância de um dia de sol a isso obrigava? Meu amigo, na construção da tua coerência de vida, esqueceste que o mundo é maior que os teus sonhos, as tuas metas e objetivos. Esqueceste o mundo à tua volta. Talvez tenhas conseguido a mulher dos teus sonhos. O emprego bom, e as Férias em Espanha. Tens o bmw estacionado à porta de casa. Mas esqueceste-te de algo no caminho. Esqueceste a incoerência que te fazia feliz. A incoerência que te permitia fazer o que te apetecesse. A incoerência afinal que habitámos juntos. E trocaste-a por uma coerência onde estás só, com os teus sonhos e os teus monstros. Agora, és tu quem ditas as circunstâncias. Agora, és tu quem mandas. Mas em mim, e na minha incoerência, não mandas tu.


















