Vapor a sair das entranhas do Entroncamento e um festival e museu que são só os maiores promotores nacionais da eterna cidade ferroviária.
A entrada para o Festival Vapor, que se realizou nos dias 3 e 4 de outubro. é igual a quem visita o Museu Nacional Ferroviário durante todo o ano. Entra-se pela recepção e, depois, temos de atravessar o museu e o espólio magnifico que ali se encontra. Máquinas imponentes e repletas de pormenores que, para quem chega, são um vislumbre do que já viveram. Mas, como é normal, nunca questionaram o seu funcionamento.

O festival acontece duas centenas de metros depois da entrada. Há quase uma vénia imposta pela organização aos festivaleiros, lembrando que não é um festival qualquer. O festival realiza-se num museu nacional. Um museu, escreva-se, espetacularmente bem conservado e dinâmico.
Abrir as portas a um festival de música, teatro, cinema, artesanato e muito mais é um ato de coragem. Mas a organização soube e sabe respeitar o local. Aposta ganha. Ganha o museu, o concelho e, tendo em conta a qualidade do programa, os festivaleiros.

Meio meio
Este ano sentiu-se ainda mais que o Vapor chegou mais longe. Que não houve ventos fortes a desviar atenções. A região e o país estavam atentos. O apelo de visitar e desfrutar o Entroncamento foi mais forte e é importante escrever que a cidade estava arredada dos caminhos do turismo. É um facto. O Entroncamento já foi o centro das atenções de diversão noturna da região. Nesta edição viu-se o regresso de centenas de pessoas, já menos jovens, a regressar. Como os comboios. Parte-se e regressa-se. Por vezes com atrasos, como é o caso…
Sim, já não há tanto Steampunk e as alegorias do circo, mas há mais espelho da cidade. Da sua população. A programação é sensível a isso, porque a cultura é a melhor forma de incluir pessoas, de as puxar para a comunidade. Na sua génese, o festival era uma incursão por um mundo muito particular, um nicho. E sim, os concertos tomaram conta de grande parte da programação. Mas ter nomes como Mayra Andarde ou Stereossauro no Entroncamento põe centenas de milhares de pessoas a olhar para o concelho.

E daí o crescimento do Vapor que também se mediu pela dimensão do cartaz. A presença de Mayra Andrade foi um dos pontos altos de uma programação que conseguiu equilibrar nomes reconhecidos nacional e internacionalmente com propostas emergentes, teatro de rua, cinema, literatura e artesanato. Num tempo em que muitos festivais parecem repetir fórmulas, o Vapor continua a construir uma identidade própria, apoiada no lugar onde acontece e na forma como esse lugar é utilizado.

Há muito poucos festivais capazes de reivindicar a palavra “único” sem exagero. O Vapor é um deles. Não acontece num recinto improvisado, num parque urbano ou num campo afastado da cidade. Acontece dentro do Museu Nacional Ferroviário, entre locomotivas, carruagens e oficinas que contam mais de um século de história portuguesa. É possível assistir a um espetáculo e, poucos minutos depois, entrar numa carruagem histórica. É possível ouvir música ao vivo rodeado por património ferroviário que continua a impressionar visitantes de todas as idades.
Quem nunca andou de comboio? Quem nunca esperou numa estação, olhou por uma janela durante uma viagem ou guardou na memória o som de uma partida? O Vapor tem a capacidade rara de convocar essas memórias coletivas e transformá-las numa experiência cultural. Os carris não servem apenas para recordar o passado. Durante aqueles dias servem também para ligar públicos, artistas e visitantes.

Daquilo que o EOL conseguiu perceber, metade do público era proveniente de fora da região. Esse dado ajuda a compreender a dimensão que o festival está a alcançar. Durante muito tempo, o Entroncamento esteve afastado dos grandes circuitos turísticos. Hoje, milhares de visitantes entram na cidade precisamente por causa do Vapor. Muitos chegam para um concerto, mas acabam por descobrir o museu, a história ferroviária e uma cidade que encontrou uma nova forma de contar a sua própria narrativa.
È necessário, agora, que a lógica de mercado funcione. Nomeadamente o surgimento de novos espaços noturnos ou promoção arregaçada dos que já existem.

O Entroncamento é uma panela de pressão. O Vapor sai e ajuda a andar para a frente e fantasiar o futuro. A cidade dormitório vai acordando. Seja do sono, seja estando de acordo com a proposta. Será sempre steampunk, mas nunca será estanque.
Texto, fotos e vídeo: Ricardo Alves




















