A grande muralha da China tem 21.000 km e ve-se do espaço. Várias dinastias chinesas queriam com ela evitar as incursões dos povos nómadas do norte, mas não só. Também controlar o comércio nomeadamente o acesso à rota da seda.
Eu não sou chinês, mas tenho visto construir enormes muralhas em Portugal. Não são muralhas de pedra, nem de betão. São muralhas de indiferença. Há a indiferença que eu sinto, por exemplo, em relação a mim mesmo. Vejo grupos formarem-se à minha volta, organizados por estreitas afinidades. Vejo a indiferença dos velhos, em relação aos novos. Dos novos em relação aos velhos. Dos ricos em relação aos pobres, e vice versa.
Lá para trás, na encruzilhada da vida que partilhámos, haviam possibilidades e dúvidas. Nelas fomos companheiros, camaradas e amigos. Hoje o telefone toca, e há cada vez mais números estranhos. Aqueles que não conhecemos. E os que fingimos não conhecer. Deparar com estranhos é deparar com o terror, que se converte habilmente em indiferença. Não sabemos quem são, e nunca saberemos. E somos cada vez mais estranhos. E indiferentes. Mesmo a nós próprios.

Há quanto tempo não soltas um grito? Há quanto tempo não choras a rir ou ris a chorar? Jorge Palma perguntava Quem és tu de novo? Tu és aquele que escolheu adequar o discurso às circunstâncias, calar o abismo que tens dentro. Tu és aquele que esqueceu o destino na algibeira, e se tornou dono do silêncio. Calou-se a música da nossa juventude. Acabou a imortalidade. Já não recebemos a vida como se ela nos merecesse. Merecemos apenas o instante que sobrevive a outro instante, que sobrevive a outro instante. E no meio do instante, a muralha. Os olhos que evitam e se perdem. A mão que desprende e a ausência que mata. A memória que castiga. O presente que não se desfaz.
Perdoa-me se não sei escrever de outra maneira. Sinto saudades. Gostava que me devolvesses o passado que vivemos juntos, e que me roubaste. Sei que no peito ainda arde a velha chama. Vi-te há pouco. Chamei por ti com o olhar. O olhar também fala, sabes? Fala com paisagens de paraísos perdidos para lá das altas montanhas. Fala da neve que nos queimou a ponta dos dedos, nos altos cumes do Everest. Corríamos o mundo com a imaginação, antes do Inverno. Ficávamos à vez nas planicies dos Estados Unidos e nas colinas do Sri Lanka. Hoje espero por ti. Não vens. Encosto a cabeça e choro, frente à grande muralha da China. E descubro que os chineses também choram. Que as suas lágrimas são salgadas como as nossas. Talvez haja um mar para além das muralhas. Talvez se ouça ainda o canto das águas no teu regaço. Gosto de ti pá.
Gonçalo Serras



















