Nunca fui à tropa. Situação militar: reserva territorial, desde que, em 1994, entrei para a Escola Superior de Comunicação Social.
O meu pai, Adelino, foi. Esteve em Alverca, nas OGMA, e esteve em Angola. Dele recordo muitas coisas, mas uma delas era a disciplina. Pergunto-me hoje se a disciplina que dava aos filhos, a mim e à Andreia, seria apenas consequência da educação rigorosa que ele próprio recebera ou se haveria ali também alguma coisa que trouxera da vida militar. Nunca lhe perguntei.
Em 1994, parecia-me muito mais urgente entrar para a faculdade. Havia uma vida para começar e o serviço militar ficou para trás. As exigências físicas não me preocupavam particularmente. Era desportista de alta competição, jogava hóquei em patins no Paço de Arcos e tinha sido vice-campeão nacional. O que me preocupava era outra coisa: a disciplina.
Seria eu capaz de suportar a pressão psicológica? Seria capaz de vergar a minha própria rebeldia às necessidades do coletivo? Nunca saberei. Talvez seja precisamente isso que me ficou do serviço militar que não fiz: a curiosidade sobre o homem que teria sido dentro dele.
Tenho amigos militares e admiro em vários deles uma característica que também reconhecia no meu pai: a franqueza. São pessoas calorosas, mas habituadas a conversas diretas. Nem toda a gente gosta de conversas francas. Eu habituei-me a elas desde cedo e talvez por isso nunca tenha aprendido verdadeiramente a movimentar-me no território das indiretas, das insinuações e das entrelinhas. Nesse território, peco muitas vezes por tardio. Quando percebo o que me quiseram dizer, a conversa já acabou há muito.
Talvez exista alguma relação entre disciplina e linguagem. Imagino que, num contexto militar, uma ordem deva ser entendida e uma indicação não possa depender demasiado da interpretação de quem a recebe. As palavras precisam de chegar ao outro com precisão. A disciplina pode começar também aí: não necessariamente em falar menos, mas em escolher melhor as palavras, saber quando perguntar, quando responder e quando uma frase precisa simplesmente de significar aquilo que diz.

No mundo civil desenvolvemos uma extraordinária capacidade para fazer o contrário. Dizemos sem dizer, respondemos sem responder e insinuamos em vez de afirmar. Deixamos frequentemente uma porta aberta nas palavras para, se for necessário, podermos regressar por ela e garantir que afinal não queríamos dizer exatamente aquilo. Há quem chame a isso diplomacia. Eu nunca fui particularmente bom nesse jogo.
Imagino que uma situação de guerra leve a necessidade de clareza ao extremo. Uma hesitação, uma instrução mal compreendida ou uma interpretação errada deixam de ser apenas problemas de comunicação. Podem ter consequências muito diferentes das que têm numa conversa de café. É nesse ponto que a questão militar deixa, para mim, de ser apenas uma questão de disciplina e começa a tocar noutra coisa: aquilo que estamos dispostos a defender.
Não morreria por Portugal. Ou, pelo menos, não morreria simplesmente por essa palavra. Mas talvez estivesse disposto a morrer por aquilo que essa palavra contém: pelos meus pais, pela minha irmã, pela minha família, pelos meus amigos, pelas ruas que conheço, pelas vozes que reconheço, pelas memórias que não escolhi ter e que, no entanto, fizeram de mim aquilo que sou. E se tudo isso fosse posto em causa? Se as nossas casas, os nossos afetos, os nossos compromissos, as nossas pequenas rotinas e até as nossas amarguras fossem fisicamente tomadas de assalto por uma força estrangeira? Estaria preparado para as defender? A resposta, neste momento, é não.
É também por isso que defendo o serviço militar. Preferia que fosse voluntário, naturalmente, mas aceito que uma comunidade possa considerar obrigatória uma preparação mínima para a sua própria defesa. Não porque devamos desejar a guerra, mas precisamente porque não a desejamos. Prepararmo-nos para defender alguma coisa não significa querer que alguém a ataque. Talvez o serviço militar tenha também essa função: obrigar-nos, durante algum tempo, a sair da escala individual. A confiar no camarada que está ao nosso lado, como tantas vezes não acontece na vida civil. A acreditar na organização, no sistema, e nos líderes – como também raramente acontece na vida civil. A perceber que pertencemos a algo que não começou connosco e que provavelmente continuará depois de nós. Uma comunidade vive de direitos. Mas vive também da disponibilidade dos seus membros para a proteger quando aquilo que têm em comum é ameaçado. Cabe a cada um descobrir o que merece o risco ou, no limite, o sacrifício.
No meu caso, penso que estaria disposto a sacrificar o corpo pelo espírito. Não falo de um espírito abstrato. Falo deste, que recebi dos meus pais, da minha irmã, da família e dos amigos; deste que foi sendo formado pelas pessoas que encontrei, pelas palavras que ouvi, pelos lugares onde passei, pelas alegrias e também pelas derrotas. Mais de trinta anos depois de não ter ido à tropa, não sei se teria dado um bom militar. Mas estaria disposto a aprender, se necessário.
Escrito por Gonçalo Serras, com apoio da Saphy, a Inteligência Artificial da OpenAI




















