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No largo José Duarte Coelho, no dia 25 de Abril, esteve um homem sentado, com um cravo na mão. O cravo parecia querer cair da sua mão. Cantou-se o hino, por Valter Guia, do cimo da varanda municipal. Cá em baixo, estavam os líderes da comunidade. O Hino é bem cantado, à guitarra, de forma simples. Não me preocupa a questão técnica, que está assegurada. O que me preocupa é haver cá em baixo quem ouça o hino e sinta no peito a vontade de voltar ao fascismo. Eu não cantaria para essas pessoas. Afinal de contas comemora-se a data em que o fascismo terminou oficialmente. Mas cada um sabe o que se passa dentro de si interiormente. Inclusive as pessoas do Chega, a quem eu me refiro.

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Sinto vontade de chorar. A praça está vazia. O meu cravo pede-me para cair mas eu seguro-o mais um pouco. Não há uma alma que verifique o absurdo como eu, de se cantar o Hino para quem quer Portugal só para si? Portugal é de todos os portugueses. Não haverá uma alma que sinta como eu, o quanto cedemos para que o sistema continue a funcionar? Para que possamos, como o Valter Guia, recebermos o nosso dinheirinho? Mesmo que isso signifique ignorar o senso comum, de que estamos a cantar para quem tem uma ideia de Abril muito diferente da liberdade? Que me permite por exemplo escrever esta crónica. Veremos até quando.

O presidente dirige-se aos presentes. Estica-me a mão para me cumprimentar. Tenho vontade de não o fazer. Porém não quero afrontar ninguém neste dia. A minha mão estica-se, cobarde, e aperta a mão ao inimigo. Tive medo da multidão. Tive medo de não pertencer. O meu cravo cai no chão. Estou só. Profundamente só. Mas estou habituado a perder. Continuarei a perder, cercado por estas histórias em que fascistas são boas pessoas, como as outras, e que só desejam o bem coletivo. Não são. E o meu cravo continua caído no chão. Vou-me embora, sem o apanhar. Já não mereço empunhar o cravo. Ao longe, vejo uma criança pegar no cravo caído e oferecê-lo à mãe, que o beija de volta. Digo adeus ao Futuro, que já me não pertence. Outros apanharão os cravos caídos no chão.

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