Foto EOL

O caminheiro Pedro Pimenta propôs-se percorrer a costa portuguesa a pé num total de 1200 km. Saiu no dia 26 de janeiro de Monção e pretende chegar a Vila Real de Stº António no dia 24 de fevereiro de 2020.

As etapas realizam-se aos fins-de-semana e neste momento o Pedro Pimenta chegou a Vila do Bispo de onde vai partir no próximo dia 23 de novembro, com destino a Lagos. Depois são mais três etapas até chegar a Vila Real de Santo António no dia 23 de fevereiro.

O EOL falou com Pedro Pimenta que fez o balanço da caminhada até ao momento e revelou algumas curiosidades desta aventura, que apesar de ainda não ter acabado já tem sucessora nos planos de Pedro Pimenta.

Ficou marcado um novo balanço para dezembro antes do final da prova. Para além da entrevista em vídeo, publicamos o diário da prova feito pelo próprio.

Este é o relato da 11.ª etapa, entre o Porto Covo e Odeceixe, realizada nos dias 21 e 22 de setembro.

Sexta-feira, 20 de setembro: Encontro inesperado com turista espanhola

Finalmente a preparar-me para a Rota Vicentina. À partida, sabia que iria ser um fim de semana espetacular. Vou de malas e bagagens para o trabalho, em Lisboa. Todos lá sabem o que ando a fazer, mas não é normal andar no serviço de botas e calções, com ar de turista de rua. O expresso para Porto Covo parte às 16 horas de Sete Rios. Muita gente na gare a ir de fim de semana. Vou boa parte da viagem de duas horas a dormir. Ao meu lado vai um italiano, estranhamente calado. Os expressos são sempre pontuais. Às 18h estou a chegar onde tinha ficado na etapa anterior.

Há muitos anos que não venho a Porto Covo. Está completamente transformado. Tenho reserva num alojamento local, com beliches mistos. A estada não justifica muita comodidade. Ao chegar à porta, aparece também um casal de italianos e uma pessoa de bicicleta, simpática. À primeira vista, não dá para ver se é rapaz ou rapariga. Escolho a cama de cima do beliche e percebo que é uma mulher. Pela voz e pelos tiques percebe-se que é bem-disposta.

Depois de fazer o check in e o check out, dou uma volta até ao mar, à procura do por do sol. Há algumas nuvens no horizonte a cobrir o céu e o Sol. Mau presságio para amanhã: prevê-se temporal. Aos poucos, o tempo vai dando sinais de instabilidade. Tiro umas fotos e procuro um restaurante bom e barato, com comida caseira, de seu nome Café Central. Por sinal, fica afastado do centro uns bons 400 metros. Peço bife de peru e vinho.

Qual não é o meu espanto quando vejo entrar a jovem da bicicleta. Convido-a para a minha mesa e ela aceita, toda sorridente. Podem acreditar em química. Falamos tanto e rimos como se o tempo fosse acabar. Ela sabe o meu nome e eu só pergunto o dela uns 20 minutos depois: Aida Delhom, uma mulher da Catalunha, 38 anos, bibliotecária. Manda vir peixe e água, e cada palavra cada risada, o comer no prato a arrefecer. Digo-lhe para falar em espanhol, mas ela esforça-se por continuar português e, por vezes, as palavras não saem. Conta que tirou umas pequenas férias, mandou a bicicleta por correio até Lisboa e começou a descer a costa portuguesa em direção ao sul. Não vou esconder que estava encantado. A jovem transbordava alegria, sorrisos, superdivertida e genuína. Parecíamos duas crianças. Ela falava das férias e aventuras e eu do meu projeto COSTAPÉ, que a deixou entusiasmada.

Para desmoer o jantar, damos um passeio até ao mar. Diz-me que está preocupada com a chuva, pois não veio muito preparada para ela. De regresso ao alojamento local, despedimo-nos e cada um vai à sua vida e à sua aventura. Realmente, às vezes encontramos pessoas extraordinárias. Aida está feliz com a vida e tem a vida toda pela frente. Apaixonada por livros e viagens, faz as coisas à sua medida. Um bem-haja para ti Aida, que a vida te sorria sempre também.

Despesas: Transporte – €16,40; Jantar – €13; Dormida – €18

Sábado, 21 de setembro: Porto Covo – Almograve, 35 kms

Desperto às 5 da manhã e desço o beliche com muito cuidado, porque as escadas fazem doer a palma dos pés. Pego no material e vou direto à cozinha, no rés-do-chão, para evitar barulhos. Preparo-me com calma, uma tijela de Nestum ao pequeno-almoço. Na rua, ora pingava, ora não. E eu vou espreitando pelo terraço para ver há meio de o sol raiar, mas é muito cedo.

Ao sair da cozinha, estão já duas caminheiras estrangeiras a porem a mesa e a prepararem a comida. Bom, mochila às costas, abro a porta e faço-me ao caminho e ao tempo agreste. Está combinado começarmos às 7 horas da manhã, junto à igreja de Porto Covo. Chegamos todos ao mesmo tempo, que engraçado. Uns de Lisboa, outros de Almograve, conseguimos partilhar alguns transportes, sacrificando algumas horas de sono. O Luís Santos, que tinha ido de véspera para Almograve e ficado na Pousada da Juventude, chega de táxi com o Aníbal Matos, que tinha ido ter com ele de madrugada. Aparecem também o Luís Medeiros e a Idalina, o Joaquim Gomes e a Sónia Rocha. Sabe bem beber um café às 7 da manhã. De todos, só o Luís Santos irá acompanhar-me durante todo o fim de semana.

Iniciamos pela Rota Vicentina. Areia e dunas para começar. Céu cinzento, temperatura amena, mas a chuva vai caindo de vez em quando. A minha mochila vai pesada. A vista a Ilha do Pessegueiro acompanha-nos. Somos sete ao todo e apenas o Luís é estreante. Excelentes companheiros, bem-dispostos e valentes. A areia é uma constante, no caminho desde a praia da ilha do pessegueiro até ao forte com o mesmo nome. Como as portas estão abertas, entramos. É uma desolação ver tudo abandonado. Tanta história e tanto trabalho para estar tão degradado. O que pensarão os estrangeiros? Uma vista soberana sobre a ilha e para o mar.

Muitas autocaravanas, algumas de fazer inveja, num desejo de passar assim os últimos anos de vida. A chuva vai e vem, é um tira e põe de impermeáveis. Vamos andando entre as dunas, às vezes em terreno mais firme, mas quase sempre na areia mole.

Paramos na Praia do Malhão para comer qualquer coisa. Estamos todos satisfeitos, é um caminho espetacular, duro mas sempre à beira do mar. Sigo sempre bem acompanhado, uma vezes mais a frente do grupo, outras mais atrás. Os cortes nas pedras das falésias parecem feitas pelo homem. O Luís Santos anda de um lado para o outro a tirar fotos e a ver os recantos, já tinha saudades de fazer caminhadas.

Já começo a pensar em chegar a Vila Nova de Mil Fontes. Tenho em mente a travessia do Rio Mira num barco táxi para a outra margem. Damos algumas voltas e nada, hoje não há barco. Desilusão. O percurso vai ser bem grande para o outro lado do rio. Sentamo-nos numa esplanada, com autorização do restaurante O Morais, mesmo frente ao Forte São Clemente. Bebemos umas cervejas e petiscamos umas quiches deliciosas que a Sónia trouxe e tapas da Idalina. Enfim, hora de almoço. Descansamos e comemos quase durante uma hora. É hora de continuar em direção à ponte sobre o Mira.

Andamos mais uns quatro quilómetros e demoramos mais uma hora do que se atravessássemos de barco. Vamos em direção à Praia das Furnas. O caminho está todo bem marcado. Tudo muito bonito, até que começa a desviar mais para o interior. Passamos por campos onde há relva semeada e logo alguns de nós aproveitam para rebolar.

O trilho torna-se um pouco mais estreito devido à vegetação, muito diferente de tudo o que tínhamos visto até agora. O Luís Medeiros e o Santos avançam um pouco. Eu já estou um pouco moído. As costas e os pés ressentem-se de tanta areia. Para agravar, começa a chover com muita intensidade, com trovoada à mistura. Quase uma hora debaixo de chuva e vento forte. Ainda por cima, estou de calções e manga curta, até sinto picadas. É granizo, felizmente por pouco tempo. Como já vou um pouco cansado e ensopado, nada sinto, nada temo.

A Sónia e a Idalina fazem-me companhia e mais à frente juntamo-nos aos restantes, igualmente ensopados. Tempo para a foto da praxe, junto à tabuleta da localidade: Almograve, o nosso ponto de chegada por hoje. Uma vez na Pousada da Juventude, a Sónia, a Idalina, o Luís Medeiros e o Joaquim voltam no carro do Aníbal para Porto Covo. Já eu e o Luís Santos ficamos por aqui, para o check in e o merecido banho. Os quartos são confortáveis: desta vez, dormo sozinho e tenho duas camas. Jantamos cedo, num restaurante simples e rápido, o Sabores do Mar. Canja e uma dose de arroz de polvo para os dois. Muito bom. Ainda tento secar alguma roupa no aquecedor antes de adormecer.

Despesas: Jantar – €10; Dormida – €35; Outras – €10

 

Domingo, 22 de setembro: Almograve – Odeceixe, 37 kms

Encontramo-nos no corredor à hora certa, eu e o Luís. O pequeno-almoço é servido às 6h30, no refeitório da Pousada. O empregado põe tudo à nossa disposição, para estarmos à vontade. Na verdade, quase que almoçamos: sandes, bolo, sumo, café com leite, café…

Espreitamos pela porta para ver como está o tempo. O céu parece limpo, mas ainda escuro. À medida que caminhamos em direção à praia, o dia vai clareando. O sol espreita, mas não nasce por causa da altura das dunas. As poucas nuvens dão-nos esperança de um ótimo dia para caminhar, e percorrer um dos mais bonitos troços da Rota Vicentina. Adoro ver o mar de madrugada e o sol a conquistar a areia, num tom avermelhado. São coisas que não vemos todos os dias.

Seguimos em bom ritmo. Hoje vou mais leve, porque deixei algumas coisas no carro do Luís. Esta etapa é mais acidentada e cheia de precipícios, ravinas de autênticos monumentos esculpidos pela natureza. Cada clareira onde pode ir uma viatura, lá estão as autocaravanas, com vista para a linha do horizonte mal se acorda.

Ao princípio, ainda apanhamos alguma areia e um pinhal. Apesar de não estar muito calor, as sombras das árvores sabem bem. O Luís Santos não pára. Procura sempre os caminhos mais à beira das falésias para umas belas fotos. Eu, no meu passo, já é a terceira vez que faço este caminho e tento seguir as marcações. Funciono como um ponto de referência para ele, que assim tem a noção da direção a tomar.

Paramos em Cavaleiro para comer e beber no conhecido Café da Adélia, que se situa num local estratégico para quem faz esta rota a pé. Aliás, olhamos para a montra e até tem bananas, fruta que um caminheiro costuma ingerir nestas ocasiões. Está tudo bem estudado. Continuamos a tirar fotos e só uma nos faz virar para terra: a do farol do Cabo Sardão.

Espetacular a Praia do Cavaleiro, com um acesso algo difícil, mas com um mar de uma beleza única. As formações geológicas lembram um braço a entrar mar adentro, e o Luís foi quase até à ponta. Um à parte, revelador do estado de espírito de total liberdade em comunhão com a natureza, é o filho de um casal estrangeiro, a brincar numa poça de lama, semivestido, como se estivesse na banheira, e a mãe, descansada, a olhar por ele, a apreciar a felicidade da criança a chapinhar.

De seguida deparamos com um trilho que antigamente era mais técnico. Agora já tem uma escada, o que ajuda muito, principalmente quem vem de sul carregado. Porto das Barcas, uma enorme reta numa eco pista até à Zambujeira do Mar, é que é um martírio sem fim.

Procuramos na Zambujeira um local para comer algo ligeiro. Andamos às voltas, pois os restaurantes são muito formais para o que queremos. Lá nos sentamos numa esplanada mesmo frente à praia. Localidade bonita, com uma praia lindíssima. Passado quase uma hora, iniciamos o que seria o último troço até Odeceixe. Bem mais acidentado, com trilhos mais técnicos, passamos pela casa da Amália e descemos a praia com o mesmo nome. Um espetáculo. Por nós passam imensos caminheiros e caminheiras, aos pares, sozinhos, casais novos e velhos com mochilas enormes de 70 a 80 litros, com tenda. Para eles deve ser um verdadeiro paraíso esta costa.

Pelo caminho também vemos “cascatas” provenientes de furos nas herdades agrícolas. Vemos raparigas, bastante carregadas, a transpor subidas muito técnicas. Eu e o Luís até paramos para ver se as coisas correm bem – e correm mesmo. Grandes doidas. Parecem mulas a subir um monte no Nepal. Admirável não só a paisagem, mas também todos os que entram nela.

Última paragem em Azenhas do Mar. Mais uma bebida, nesta localidade piscatória que fica a poucos quilómetros do fim. Mais uma subida e uns trilhos acidentados, e umas fotos fantásticas. O Luís já está moído e cansado, mas cheio de grandes imagens que a sua memória irá reter por muito tempo.

Telefono para o táxi a acertar a hora de chegada a Odeceixe. Estamos dentro do tempo. Finalmente, o miradouro que nos dá uma vista panorâmica sobre a Praia de Odeceixe. Fazemos uma grande festa. Finalmente, depois de mais de 35 quilómetros, a meta está ali. Mais uma volta até chegar ao Rio de Seixe, e o Luis desce a correr como um adolescente com a alegria estampada no rosto. Descalços, passamos o rio para a outra margem. A frescura da água sabe bem, os dedos dos pés finalmente a respirarem.

O encontro com o táxi da Dona Fatima é mais acima, numa zona onde as pessoas param e abraçam-se ao por do sol. Pouco depois de chegarmos, pelas 18h30, lá está ela, a fixar-nos o olhar de quem conhece o tipo de cliente. De regresso a Almograve, num trajeto de quase 40 kms, a Dona Fátima conta histórias. Tantas que a viagem passa depressa. Muito simpática. Deixa-nos na Pousada da Juventude em Almograve, tomamos um banho e jantamos no mesmo restaurante do dia anterior.

Regressamos a Lisboa no carro do Luís. Fico na Gare do Oriente e despeço-me do meu excelente companheiro. Apanho o último comboio para o Entroncamento e chego a casa às 3 da manhã. É chegar e deitar, que às 7 já terei de estar de pé, pois há outra vida para lá das caminhadas.

Agradeço a todos os que me acompanharam neste longo fim de semana.

Despesas: Táxi – €40; Jantar – €10; Outras – €15

Pedro Pimenta