Começo por assinalar que no final de 1978 a proposta de Constituição que Sá Carneiro apresentou ao país teve como primeiro Direito e Dever fundamental o “decorrente da inviolabilidade da vida humana”. Esta formulação não deixa margem para equívocos ou interpretações espúrias. Sá era um humanista visceral, no bom sentido do termo.

É hoje dado assente que o pensamento de Mounier influenciou definitivamente Sá Carneiro tornando-se a âncora do personalismo cristão que defendia. Esta é inequivocamente a marca distintiva do PSD que consta dos artigos fundamentais dos seus estatutos (que certas individualidades gradas fingem desconhecer e ousam contornar quando não contrariar).

Sá Carneiro em Portugal era assim o rosto da influência do personalismo cristão de E. Mounier.

Sabemos que a doutrina social da Igreja motivou e marcou profundamente a ação política do estadista, o que nos é confirmado por exemplo pelo testemunho de notáveis como Jorge de Miranda.

No primeiro comício do PPD, em 25 de outubro de 1974 Sá Carneiro, face às ameaças dos totalitarismos emergentes, insiste na construção de uma sociedade segundo as correntes do humanismo social cristão.

Sá Carneiro, desde 1969, era o nome que a opinião pública mais conhecia e que mais se evidenciava na defesa dos direitos e liberdades. Em 25 de Janeiro de 1973 renuncia ao cargo de deputado. O impacto teve repercussão internacional. Cite-se por exemplo o “Le Monde” que dava destaque ao facto de Sá Carneiro não ter conseguido modificar importantes leis sobre os direitos fundamentais da pessoa humana.

Com efeito, já em junho de 1971 tinha iniciado na assembleia nacional a defesa do seu projeto de revisão constitucional, de oposição ao regime. Sem medos, aqui e ali, ia aparecendo na imprensa, a defender o primado dos direitos do homem sobre o Estado, propostas rejeitadas pelo regime como “inconvenientes”.

A presença do pensamento social cristão, da formação personalista do estadista Sá Carneiro teve consequências nítidas, quer no programa do PSD logo em 1974, quer na própria constituinte. O PSD bateu-se pela defesa da dignidade da pessoa humana e da inviolabilidade da vida humana. Em momento algum o PSD defendeu na constituinte o direito à autodeterminação pessoal para morrer. Nem em qualquer revisão constitucional. Não é esse o legado de Sá Carneiro. Não é esse o ideário do partido. O personalismo cristão está no código genético do PPD.

Qualquer viragem à esquerda, no sentido do abandono do personalismo social cristão e da eventual adoção do marxismo cultural, carece de referendo interno. O PSD não é um partido presidencialista.  Ao demarcar-se politicamente da decisão sobre a eutanásia, renunciou ao personalismo que ainda informa os seus estatutos. Até quando resistirá o partido ao leme de Rio?

José Luz (ex-candidato a presidente da Câmara Municipal de Constância em 2013)