Foto arquivo EOL

A história da humanidade conheceu nos últimos mil anos vários episódios de epidemias mais ou menos localizadas, mais ou menos devastadoras e dramáticas (peste negra, varíola, gripe espanhola, cólera, febre amarela, gripe asiática e, mais recentemente, o VIH/Sida, Gripe A…). Habituámo-nos a olhar para estas epidemias como coisa do passado, de momentos em que a ciência e os sistemas de saúde não tinham atingido os níveis de progresso, qualidade e eficácia que conhecemos hoje; ou decorrentes de contextos de elevado subdesenvolvimento, más condições de vida e de higiene. Tememos ainda um certo número de doenças que nos podem tocar individualmente, mas quanto ao efeito de vírus e bactérias, sentíamo-nos muito seguros e tranquilos… até há pouco mais de duas semanas atrás.

Inesperadamente, a 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou estarmos perante uma pandemia. Não era, portanto, um problema da Ásia ou de territórios distantes, a que poderíamos continuar indiferentes. De repente, sentimo-nos voltados à idade média. Atordoados por este brutal soco no estômago, sentimo-nos, à escala global, reconduzidos à original insegurança, frágeis e vulneráveis como os nossos antepassados. Com uma diferença significativa que nos coloca perante uma encruzilhada nunca antes sentida: ao contrário do passado, em que o drama se reduzia ao pavor da morte, os níveis de desenvolvimento eram estáticos, vivemos hoje numa sociedade de grande mobilidade, progresso e dinamismo, uma economia e uma tecnologia que oferecem níveis de bem-estar surpreendentes, um nível de consumo contínuo e crescente. E, em poucos dias, fomos obrigados a viver o essencial e a prescindir de todos os recursos e possibilidades que, agora, espreitamos pela janela ou virtualmente apenas. E o essencial passou a ser a sobrevivência, podermos continuar vivos, num espaço mínimo, com o menor número de contactos possível. Surpreendente!

Inquieta-nos também perceber que, mesmo no meio científico está instalada a dúvida e a incerteza sobre a natureza e evolução do vírus: quem o transmite? durante quanto tempo? sofre mutações? a que ritmo? uma pessoa pode ser infetada várias vezes? quanto tempo dura a imunidade ao vírus? haverá uma nova onda de infeções no outono? até quando as medidas de reclusão serão necessárias?

Rompido o equilíbrio entre Homem e Natureza, perguntamo-nos: como evoluirão os microrganismos perante alterações climáticas tão céleres? que adaptações ou mutações sofrerão? a que ritmo se irá adaptando o ser humano, as suas defesas, face a ameaças novas e surpreendentes? Dúvidas e mais dúvidas!

Perante tão dramático e inesperado contexto, face a um inimigo invisível, mas ameaçador e fatal que podemos transportar sem saber, temos assistido a um desfile de consequências: arrasadores níveis de mortalidade por cada 24 horas nunca antes vistos, funerais em massa sem calor humano, o caos nos hospitais, sistemas de saúde que quase claudicam, distanciamento, açambarcamento, desconfiança, cidades vazias, fecho de fronteiras, queda das bolsas, dos investimentos e dos negócios, desemprego, pessimismo, desorientação, crise (outra vez!)… E o planeta Terra vai aproveitando para se regenerar, respirando melhor!

E conhecemos diariamente as mais diversas reações ao fenómeno: políticos que aproveitam para especular, que já sabiam tudo antes de acontecer, teriam decidido sempre melhor, aproveitando-se das piores circunstâncias para fazer um brilharete; países que aproveitam para atacar outros países e reforçar um nacionalismo insensato e perigoso; cidadãos irresponsáveis (para não falar dos imbecis que, ostensivamente, desafiam as regras…) que, apesar de todos os avisos iniciais, fazem férias e cruzeiros, ou que continuam a conviver em grupo nas praças e nas marginais, tranquilamente, exigindo um reforço de meios para os repatriar ou para os dispersar; e os otimistas que, na sua segura ignorância, nos tranquilizam dizendo que não é motivo de alarme, que só está em risco quem tem mais de 70 anos ou problemas de saúde associados.

Mas há também tantos gestos de altruísmo surpreendente e de entrega abnegada entre cidadãos anónimos, vizinhos; países que se dispõem a um efetivo de apoio solidário, com equipamento e pessoal médico…

E agora? É verdade que a ciência vai encontrar um antídoto para mais este vírus. Mas haverá ainda tempo para os responsáveis políticos e os cientistas, cooperarem e acertarem estratégias que assegurem qualidade de vida para todos e não apenas para nos alarmar em situações limite como a que vivemos estes dias? Haverá tempo para restaurar a confiança no progresso das economias e das sociedades? Vamos esperar que tudo se resolva espontaneamente ou que alguém faça por nós?

Responsabilidade e cumprimento das orientações oficiais, serenidade e prudência são, no imediato, as palavras de ordem que se nos impõem. Prudente é ter a humildade de reconhecer que nenhum país do mundo dispunha de manual de instruções para este cenário, sendo o atual contexto propício a muitas decisões não acertadas, erros que servirão de muito para situações futuras, mas não para jogadas políticas. Prudente é seguir rigorosamente as instruções e orientações dadas pelas autoridades de saúde e órgãos de poder central e local. Prudente é disponibilizar aos cientistas e técnicos todos os meios quer para responder às imperiosas necessidades de socorro imediatas, quer para promover os necessários progressos a bem da saúde pública e de cada um de nós, sem pensar no lucro que vão poder sacar desta pandemia global! Nos tempos difíceis em que vamos convivendo, prudente é tornar verdade as palavras solidariedade e cooperação! E que se guarde bem a grande lição desta pandemia, a lição da disponibilidade, da humildade, da cooperação entre os povos e nações em prol do bem comum das sociedades e do meio ambiente. O planeta não tem dono, é de todos nós, e só na partilha responsável de recursos, de conhecimentos, de vontades e energias, sem pensar em interesses nacionalistas, critérios contabilísticos, ou em rentabilidade financeira de poucos, poderemos sobreviver…uma nova ordem económica e social, uma nova Humanidade.

Finalmente, uma palavra de reconhecimento a tanta gente, heroicos soldados de um combate duro e difícil, soldados já com assinaláveis baixas, e tantas vezes vítimas de desconsideração, desrespeito e ignóbil agressão: médicos, enfermeiros e outros técnicos de saúde, bombeiros e forças de segurança, transportadores e trabalhadores do comércio, da limpeza urbana, entre outros.

Da minha parte, da nossa parte, o melhor contributo e apoio a dar-lhes será tudo fazer para não lhes dar trabalho… permanecendo em casa!

Luís Filipe Alves Ribeiro Antunes