Foto EOL

O caminheiro Pedro Pimenta propôs-se percorrer a costa portuguesa a pé num total de 1200 km. Saiu no dia 26 de janeiro de 2019, de Monção e vai chegar a Vila Real de Stº António no dia 23 de fevereiro de 2020.

As etapas realizaram-se aos fins-de-semana e neste momento o Pedro Pimenta chegou a Olhão de onde vai partir no próximo dia 22 de fevereiro, com destino a Vila Real de Santo António. No dia 3 de março a aventura termina com um jantar oferecido pelo Restaurante Bonito by Trincanela no Entroncamento com todos os patrocinadores.

O EOL falou com Pedro Pimenta, no Saboreia Chá e Café, antes da última etapa onde já foi feito um primeiro balanço.

Pedro Pimenta tem feito para a revista Visão online o relato das etapas que o EOL também publica.


Décima terceira etapa da grande caminhada de Pedro Pimenta e amigos pela costa portuguesa, de Vila do Bispo a Lagos, com fotos e vídeos deste cantinho à beira-mar

Pedro Pimenta delineou um plano: percorrer toda a costa portuguesa a pé, de Monção a Vila Real de Santo António. São 940 quilómetros, que dividiu em 16 etapas, para cumprir até fevereiro de 2020, um fim de semana por mês. O ponto onde terminou a etapa anterior é sempre o ponto de partida da seguinte para todos os que o querem acompanhar.

Funcionário público, Pedro Pimenta, de 52 anos, é já um veterano das caminhadas – durante mais de uma década, liderou a secção de Pedestrianismo do Clube de Lazer, Aventura e Competição (CLAC) do Entroncamento, onde reside. Num registo informal, de impressões e pensamentos soltos, partilha agora, no site da VISÃO, uma espécie de diário desta aventura pela costa, ao mesmo tempo que nos brinda com belas fotografias e vídeos dos locais por onde passa (também os pode ver no site do projeto Costa a Pé).

Este é o relato da 13.ª etapa, entre Vila do Bispo e Lagos, realizada nos dias 24 e 25 de novembro.

Sexta, 22 de novembro: não param de chegar ao Algarve

A saída da estação da CP do Entroncamento, a meio da manhã, está complicada de-vido ao mau tempo. Vale-me a ajuda do Fernando Silva, que me avisa sobre qual o primeiro comboio a ir para Lisboa. As previsões meteorológicas não são muito animadoras, mas pego em duas mochilas e desando.

Em Lisboa, tenho uma amiga à espera para viajarmos rumo a sul. Não posso atrasar-me muito. Temos encontro marcado com outros companheiros em Sagres, onde temos reservado o alojamento. Mas até lá, durante a viagem, muita água haveria de cair. Um autêntico lençol da dita. A ponto de não se ver nada à frente do nariz. As escovas do automóvel não davam saída a tanta água.

Nas calmas, vamos andando. Depois de umas voltas no Algarve, chegamos a Sagres. À porta, a aguardar-nos, estão o António Carvalho e o filho Hélder. Chegamos mais ou menos ao mesmo tempo. O sol já está a desaparecer.

A jovem do alojamento local é muito simpática e prestável. Arrumamos as coisas nos quartos telefono a outra companheira que amanhã também nos vai fazer companhia. Está hospedada com a mãe noutra residencial e vem jantar connosco. Finalmente, a última companheira chegaria de expresso pela uma da manhã.

Durante o jantar trocamos impressões sobre o percurso do dia seguinte. Teremos de fazer uma jogada com o apoio dos carros, de forma a minimizar o peso das mochilas e ficarmos mais ligeiros. Já no fim do jantar telefona-me o Luís Medeiros, a combinar um encontro em Vila do Bispo às sete da manhã do dia seguinte. Que loucura ir de Loures a Sagres, de madrugada, num total de seiscentos quilómetros de carro, contando ida e volta, para fazer 30 quilómetros a pé. É preciso gostar mesmo de caminhar. Ficamos contentes com mais este reforço para o dia seguinte.

Adormeço e durmo até o despertador tocar… às 00h50. Hora de ir buscar a Ana Tavares ao expresso. Está uma ventania e um frio que arrepia.

Despesas: Transporte – €20; Almoço: €8; Jantar – €10; Dormida – €15 (partilhado)

Sábado, 23 de novembro: Vila do Bispo – Sagres, 33 kms

Acordamos, e ter a certeza de que voltaríamos aquele quarto tranquiliza-nos. Não é preciso andar a correr logo de manhã para arrumar as coisas. Tomamos o pequeno-almoço e arrancamos de carro para Vila do Bispo. À chegada, damos umas voltas à procura de um café, mas só mesmo as bombas de gasolina estão abertas.

Já com o Luís e a Idalina, começamos a caminhar. Estamos na mesma estrada que percorreramos em outubro. Até que saímos por um caminho de terra assinalado um PR (Trilho Ambiental do Castelejo). O caminho vai ficando cada mais estreito e para cúmulo apanhamos uma tenda mesmo montada no meio do trilho. Imagino o susto de quem lá estava dentro a ouvir sete pessoas a passar mesmo encostadas à tenda.

Continuamos com alguma dificuldade, pois o mato vai fechando e o terreno torna-se cada vez mais inclinado. É preciso alguma técnica para progredirmos. Tinha calculado passarmos pela cordilheira de um monte. Espectacular, a paisagem – até ao mar e a ver a praia do Castelejo. Olha uma subida com uma configuração meio estranha mas lindíssima. Tudo muito singular, deserto, e à beira-mar. Começamos a ascenção com calma e, de vez em quando, olhamos para trás para apreciar a vista.

Paramos a meio para ganhar um pouco de fôlego, ao mesmo tempo que avaliamos alternativas para um possível azimute. Andamos um pouco aos “esses” e chocarmos mesmo com a vegetação. Sete caminheiros com mochilas a desbravar mato para poderem passar e continuar o belo percurso.

Tinha marcado no GPS um trilho que desce uma falésia até à praia e a atravessa, mas a maré está cheia e há muitas pedras na praia. Por essa razão, no momento em que ali passamos, não é possível a subida da falésia mais à frente. Magnífica a vista com a rebentação a bater nas paredes rochosas. Praia da Ponta Ruiva, é o lugar. O caminho tem alguma areia e muita perda bicuda que magoa os pés devido à torção. Se há beleza monótona, é aqui. Ravinas de cortar a respiração.

Caminhamos nas calmas e vamos conversando e tirando muitas fotos. O trilho vicentino vai-nos guiando, mas às vezes encostamos mais ao mar, sem ver que por baixo de nós, muitas vezes, existem cavernas e estamos quase em suspensão. Ao fundo, a Pedra das Gaivotas, um cubo quase perfeito rodeado pela água do mar. Extraordinários os cortes que a natureza faz. Muitos turistas a tirarem fotos com câmaras de grande alcance para registar belezas ímpares.

O grupo vai junto e salteando de pedra em pedra. Já se avista o Cabo de São Vicente. Estamos com sede e precisamos de parar um pouco para comer. Está quase. O pavimento é em pedra cortada, o que magoa muito os pés. Temos que ter muito cuidado onde os pomos – para torcer ou partir é um instante. É doloroso andar assim tantos quilómetros… Há certas pedras que parecem lâminas.

 

Chegamos ao Cabo de São Vicente com alguma fome. Paramos no forte a comer e a beber. Somos olhados com espanto. Os turistas cumprimentam-nos sorridentes. Aproveitamos para beber uma cervejas a preço de ouro. Descansamos e tiramos umas fotos, finalmente de volta à civilização.

Falta-nos o troço até Sagres. Uma hora depois, continuamos a caminhada junto às falésias, seguindo o Trilho Vicentino inaugurado em 2019, do Cabo de São Vicente a Lagos. O dia vai escurecendo e procuramos o melhor pôr do sol para uma foto. O caminho continua a ziguezaguear.

Chegamos à residencial já de noite, os dias pequenos não rendem. Enquanto a Virgínia e o António vão desmarcar os carros, desta vez para Lagos, nós seguimos para o banho, já a pensar no jantar. O Luís e a Idalina aproveitam a boleia até Vila de Bispo, antes de regressarem a Lisboa.

Eu, a Virgínia, o António, a Elsa e a mãe, a Ana Tavares e o Hélder conseguimos mesa para jantar, mas não é tarefa fácil. O jantar, bom, esse foi cheio de proteínas.

Despesas: Almoço – €10 (vários); Jantar – €13; Dormida – €15 (partilhado)

VEJA A GALERIA DE IMAGENS E O VÍDEO DESTE DIA:

Domingo, 24 de novembro: Sagres – Lagos, 37 kms

São 7h30 e estamos na rua. A noite nunca é bem dormida, mas estamos sempre pron-tos a caminhar. A Elsa aparece e arrancamos em direcção a Lagos. Inicialmente, en-gano-me numa travessa em Sagres, quem diria! Rapidamente retomamos o trilho junto às praias e falésias.

De manhã andamos sempre à procura de um café, mas está tudo fechado, ainda por cima ao domingo. Vamos caminhando e variando de parceiro para falarmos, o que torna a aventura mais saudável. Passamos por praias lindas, com ribeiras, muito acolhedoras, com água muito calma. Aos poucos entramos num planalto com uma vista fantástica, não ao nível do horizonte, mas para baixo – falésias de meter respeito. Toda a paisagem é bela, uma imensidão. Mantêm-nos tranquilos os mantimentos que levamos nas mochilas, porque não se veem a olho nu sinais da civilização. O mar está lindo num azul pérola.

Seguindo o Trilho Vicentino, todos estão bem. Eu vou um pouco mais atrás, o António na frente, a Ana e a Elsa no meio e a Virgínia fecha o grupo. Por vezes, o trilho dá para falar quase os cinco em linha, noutras vezes é bem apertado. Quando digo apertado, acrescento algum desnível, por vezes técnico o quante baste. Com mais ou menos dificuldade, todos passamos. Por norma, os acessos às praias são os mais complicados, assim como as saídas, uma vez que se estendem em “vales” e as colinas têm que ser transpostas. Pessoalmente, já acuso algum cansaço de tanto subir e descer. Não estou bem, fruto também de não caminhar há um mês. As subidas continuam e sinto os tendões das pernas bem esticados. A minha progressão é lenta e em gestão.

Paramos na Praia das Furnas para comer qualquer coisa. À nossa frente, ergue-se uma bela parede e estamos a ver por onde atacá-la. De repente, aparece um casal a descer, ela ainda escorrega de rabo, nada de especial. É por ali que vamos subir. Depois do reforço alimentar, lá vamos nós. A chatice é que me sento um pouco cheio para respirar fundo. Vou mesmo devagar. A Virgínia faz-me companhia e subimos em passos bem pequenos. A Ana e a Elsa vão lá mais à frente, em bom esforço. O António está imparável, sempre a dar-lhe. O trilho é lindíssimo, e ao mesmo tempo bastante técnico. Cruzamo-nos com alguns estrangeiros que devem adorar estes recantos paradisíacos.

A caminhada começa a tornar-se um pouco dolorosa. Quando deixamos de olhar em redor e estamos só concentrados na nossa condição, deixa de haver prazer. Ao chegarmos à Praia da Figueira, decido fazermos o trajecto mais pelo interior. A média está a descer bruscamente, e com os dias pequenos tenho de arranjar solução para nos aproximarmos o mais possível do objetivo Lagos.

Caminhamos em direção à localidade de Figueira, também na esperança de encontrar um café aberto para hidratar e descansar um pouco. Para desgosto, dos dois que existem, um só abre às 15 horas e o outro está cheio de estrangeiros, num ambiente muito familiar deles. Não há coca-cola nem cerveja nem água e muito menos café. Um desespero. Está aberto um estabelecimento daqueles ao público? Enfim… Fazemo-nos à estrada e, uns quilómetros mais à frente, um hipermercado. Afinal, estão todos com vontade de comer e beber. Sentamo-nos.

Começo a fazer contas ao tempo e aos quilómetros e resolvo terminar a etapa na Praia da Luz. O trajeto tinha mais quilómetros do que imaginara, e os trilhos mais técnicos fizeram-nos perder algum tempo. Para nos despacharmos, há que gerir as coisas de maneira a chegarmos o mais rápidamente possível, ainda que caminhando pelo alcatrão, neste caso pela Nacional. É domingo e ainda teríamos de regressar a Lisboa.

A Virgínia fica na paragem de autocarro à espera de bus para Lagos, onde deixara o carro. A mãe da Elsa vem buscá-la. Eu, o António, o Hélder e a Ana continuamos a caminhar. A dada altura tentamos fazer um azimute por terrenos particulares, mas em vão. Está difícil chegar à Praia da Luz. Escurece. A Virgínia telefona a dizer que já nos espera na praia. “Então o melhor é vires ter connosco à nacional…”, sugiro-lhe. E assim acontece. Reencontra-nos quando faltam apenas quatro quilómetros para a praia da Luz, mas ainda iríamos demorar mais uma hora. Dou por terminada a etapa, que já leva mais de 30 quilómetros. Alguma saturação apoderava-se de nós, ou de mim, e regressamos a Sagres.

No final de dezembro, partiríamos da Praia da Luz, mas dessa etapa darei conta na próxima crónica. Chegamos de carro a Sagres já de noite. O António e o Hélder seguem de automóvel para Lisboa. Eu e a Virgínia, depois de um merecido banho, ainda jantamos antes de voltarmos à capital. Entro em casa às duas e meia da madrugada, no fim de uma jornada espetacular, sempre bem acompanhado, sabendo que por vezes estamos melhor e noutras pior, o que faz de nós humanos. Obrigado a todos pela participação e companhia.

Despesas: Almoço – €7 (vários); Jantar – €13; Transporte – €20

As 16 etapas do projeto Costa a Pé

1) 26 e 27 de janeiro: Monção – Caminha – Viana do Castelo, 47 + 27 kms

2) 23 e 24 de fevereiro: Viana do Castelo – Póvoa de Varzim – Porto, 53 + 42 kms

3) 23 e 24 de março: Porto – Ovar – Aveiro, 44 + 38 kms

4) 25, 26, 27 e 28 de abril: Aveiro – Tocha – Figueira da Foz – Pedrógão – Nazaré, 47 + 38 + 38 + 45 kms

5) 25 e 26 de maio: Nazaré – Peniche – Ribamar, 51 + 36 kms

6) 8, 9 e 10 de junho: Ribamar – Ericeira – Almoçageme – Cascais, 36 + 27 + 27 kms

7) 13 de junho: Cascais – Lisboa, 33 kms

8) 22 e 23 de junho: Trafaria – Meco – Sesimbra, 30 + 25 kms

9) 20 e 21 de julho: Sesimbra – Setúbal – Comporta, 30 + 28 kms

10) 24 e 25 de agosto: Comporta – Santo André – Porto Covo, 36 + 34 kms

11) 21 e 22 de setembro: Porto Covo – Almograve – Odeceixe, 35 + 37 kms

12) 26 e 27 de outubro: Odeceixe – Chabouco – Vila do Bispo, 35 + 31 kms

13) 23 e 24 de novembro: Vila do Bispo – Sagres – Lagos, 33 + 37 kms

14) 28 e 29 de dezembro: Lagos – Portimão – Armação de Pêra, 28 + 27 kms

15) 25 e 26 de janeiro de 2020: Armação de Pêra – Quarteira – Olhão 31 + 35 kms

16) 22 e 23 de fevereiro de 2020: Olhão – Cabanas – Vila Real de Santo António 35 + 25 kms