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Morreu o Jorge Palma e não há outra forma de o dizer. Morreu. Já não vai compor mais, não vai sentar-se ao piano e esboçar aquele sorriso de miúdo, que nunca perdeu. Não vai encher salas de concertos, não vai dizer coisas de forma hesitante, mas tão acertada. E nós vamos ter saudades de tudo. Do amparo, das letras acertadas, dos acordes ora melancólicos, ora enérgicos. Haverá alguém neste país que não tenha trauteado uma música de Jorge Palma?

Para mim, foi casa, casas, foi abrigo e conforto. Se ele nunca desistiu, mesmo quando esquecia e tombava, como havíamos de desistir? Chegou-me pela mão da rádio, pela mão dos meus pais, mais tarde, de forma mais intensa pela mão da Ana, onde, em Coimbra, se ouvia e cantava noite fora. Nasci no fim da década de 70 e a minha geração ouviu-o incessantemente, assistimos a concertos caóticos, onde a voz faltava e a memória também, cantámos na sua vez, esperámos que surgisse. Às vezes até de manhã. Sempre a adiar o dia seguinte. Nunca o abandonámos e acho que ele sabia disso, de como era importante, de como era ouvido e de como o esperaríamos com uma militância poética.

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Vi-o em salas grandes, carregadas de gente que sabia letras de cor, a ser aplaudido de pé, em ovação. E vi-o em sítio pequenos, muito pequenos, onde só os grandes tocariam. Vi-o na aldeia de Santa Margarida, há vinte anos, talvez, num sítio minúsculo e meio improvisado. E ele lá estava com aquele sorriso e o ar “de quem não tem muito mais a perder”. Enorme na sua fragilidade, honesto na sua música.

Sempre sorriu de forma desabrigada, inocente, com um olhar vivo, curioso, nunca triste, nunca revoltado, coisa rara nos dias que vivemos. Nunca o abracei, mas senti-me abraçada tantas vezes. Protegida do frio e dos trambolhões.

Quando alguém diz o indizível é sempre único, quando alguém fala da vida como ele, com tanta fragilidade, tanta honestidade, tanta beleza, torna-se incontornável.

Seremos sempre egoístas a falar de Jorge Palma, mas de um egoísmo bonito, porque ele é parte de nós, de tantas noites, tantos recomeços. Obrigada por teres tornado tudo mais bonito, muito para além do suportável.

APB

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