Enquanto farmacêutica, sou diariamente confrontada com uma realidade que, apesar de bem conhecida por quem entra numa farmácia, nem sempre é plenamente reconhecida fora dela: o valor do serviço farmacêutico ultrapassa em muito a dispensa de medicamentos, da gestão da terapêutica e da garantia de segurança do medicamento.
As farmácias são, para muitos cidadãos, o primeiro e mais acessível ponto de contacto com o sistema de saúde. Estão presentes no quotidiano das pessoas, sem marcação prévia, com horários alargados e profissionais qualificados que conhecem a comunidade que servem. Esta proximidade cria uma relação de confiança única, construída ao longo do tempo, e é precisamente essa confiança que permite prestar cuidados de saúde pertinentes, eficazes e personalizados. É nesta base de proximidade e confiança que assenta a diversidade de serviços farmacêuticos que hoje caracterizam a farmácia comunitária.
O atual enquadramento legal permite às Farmácias Comunitárias disponibilizar um conjunto alargado de serviços farmacêuticos diferenciados, que reforçam a sua intervenção em saúde pública. Entre os múltiplos serviços farmacêuticos disponíveis, encontram-se atos simples na forma, mas fundamentais no impacto: a avaliação da tensão arterial, a medição da glicemia, do colesterol total ou do peso corporal são exemplos claros de como a monitorização regular pode contribuir para a deteção precoce de alterações e para o melhor controlo de doenças crónicas. Estes serviços permitem ao utente acompanhar a sua saúde de forma consciente e informada, muitas vezes evitando o agravamento silencioso de situações clínicas.
A farmácia comunitária tem também vindo a afirmar-se como um espaço de diagnóstico rápido e de apoio à decisão. A intervenção farmacêutica na infeção aguda da orofaringe, na Infeção do Trato Urinário não complicada ou a realização de testes de gravidez são exemplos de respostas céleres a necessidades concretas, que reduzem a ansiedade do utente e orientam corretamente os passos seguintes, seja através de aconselhamento farmacêutico ou do encaminhamento para o médico quando necessário.
Outro pilar essencial do serviço farmacêutico é a administração de vacinas e injetáveis. Ao assegurar estes atos num ambiente seguro, próximo e familiar, a farmácia contribui para o aumento da adesão à vacinação e para a proteção da saúde pública, reforçando o papel do farmacêutico como agente ativo na prevenção da doença.
Talvez o maior valor do serviço farmacêutico resida nos momentos que não constam de nenhum recibo: o aconselhamento. Cada medição, cada intervenção, cada contacto é também uma oportunidade de educação para a saúde. Explicar como interpretar um valor de tensão arterial, reforçar a importância da adesão terapêutica, esclarecer dúvidas sobre hábitos de vida ou sinais de alerta – tudo isto constitui pedagogia do autocuidado e da responsabilização individual pela própria saúde. É precisamente esta dimensão educativa que sustenta, a longo prazo, ganhos efetivos em saúde.
Este acompanhamento contínuo capacita os cidadãos, promove a literacia em saúde e contribui para decisões mais informadas no dia-a-dia. E, ao fazê-lo, desempenha um papel decisivo na auto-resolução de situações simples, evitando deslocações desnecessárias aos cuidados de saúde primários ou aos serviços de urgência.
Reconhecer o valor do serviço farmacêutico é compreender que a saúde também se constrói na proximidade, na confiança e na disponibilidade. É perceber que, ao investir nas farmácias enquanto espaços de cuidados acessíveis e qualificados, estamos a promover uma utilização mais eficiente dos recursos do sistema de saúde, reduzindo o sobrecarregamento do Serviço Nacional de Saúde e colocando o cidadão no centro da gestão da sua própria saúde.
No fundo, o serviço farmacêutico é isso mesmo: cuidar, acompanhar e educar – todos os dias, ao balcão.
Dra: Joana Ferreira



















