O cheiro a combustão fazia-se sentir na Praça da Estação do Entroncamento ainda antes da partida. Pouco depois das 10h00, centenas de olhares estavam voltados para a locomotiva centenária CP 0186, que dava vida à primeira viagem do Comboio Histórico a Vapor Templário, uma iniciativa da CP que liga o Entroncamento a Tomar e que junta o património ferroviário à herança templária da cidade nabantina.

Às 10h06, a composição partiu da estação do Entroncamento rumo a Tomar, com a presença do presidente do Conselho de Administração da CP, Pedro Moreira e do presidente da autarquia de Tomar, Tiago Carrão. A lotação estava esgotada, cenário que se vai repetir nas restantes viagens do fim de semana, este domingo, confirmando desde logo a forte procura por esta nova experiência turística.

A bordo, os passageiros encontraram uma composição formada por carruagens históricas de madeira rebocadas pela locomotiva a vapor CP 0186, uma das imagens mais marcantes do património ferroviário português. Durante a viagem, vários figurantes trajados à época templária recriaram ambientes associados ao século XII, com personagens ligadas à fundação do reino e à história templária de Tomar, proporcionando animação contínua aos viajantes.
Se dentro das carruagens o ambiente era de entusiasmo, no exterior o cenário não era muito diferente. Ao longo de praticamente todo o Ramal de Tomar, dezenas de pessoas aguardavam a passagem do comboio. Em pontes, passagens de nível, quintais, jardins e junto às estações, eram muitos os que filmavam ou fotografavam a composição. Houve também quem simplesmente acenasse à passagem da locomotiva, num ambiente que recordou tempos em que a chegada de um comboio era, por si só, um acontecimento.


Paragem na Lamarosa para preparar a subida
Uma das paragens do percurso aconteceu em Lamarosa, onde a composição permaneceu cerca de 15 minutos. A explicação foi dada por Rui Ferreira, profissional ligado à área da tração ferroviária e habilitado para a condução de locomotivas a vapor. Segundo explicou, era necessário aumentar a produção de vapor antes de enfrentar o troço seguinte em direção a Santa Cita, onde a linha apresenta uma ligeira subida. A paragem permitiu garantir as condições necessárias para a continuação da viagem, evidenciando algumas das particularidades operacionais de uma locomotiva com características muito diferentes das composições modernas.

Após nova paragem em Santa Cita, o comboio prosseguiu para Tomar, onde os passageiros foram recebidos para uma visita guiada ao centro histórico da cidade. Foi aí que o presidente da Câmara Municipal de Tomar, Tiago Carrão, fez um balanço muito positivo desta primeira edição do projeto.
O autarca considerou que a iniciativa constitui já um sucesso, destacando a procura registada e a forma como o produto combina duas referências patrimoniais distintas. Para Hugo Cristóvão, a ligação entre o património ferroviário e a herança templária cria uma oferta turística diferenciadora, capaz de atrair visitantes e gerar impacto económico no território. O presidente admitiu ainda que esta poderá ser a base para um produto mais regular no futuro, embora sublinhe que esta edição funciona como um projeto-piloto cujo resultado será agora avaliado pelas entidades envolvidas.

Também Pedro Moreira se mostrou satisfeito com a adesão registada. O responsável da CP afirmou que o objetivo destas primeiras viagens passa por testar o conceito e recolher o feedback dos participantes, admitindo que existem condições para repetir e eventualmente ampliar a iniciativa nos próximos anos.
Questionado sobre o preço dos bilhetes, o presidente da CP lembrou que a operação deste tipo de material histórico acarreta custos elevados, tanto ao nível da manutenção como da exploração. Explicou ainda que a locomotiva e as carruagens utilizadas são alvo de trabalhos especializados de manutenção e restauro nas oficinas de Contumil, acrescentando que o objetivo principal não passa pela obtenção de lucro, mas antes pela criação de experiências capazes de valorizar o património ferroviário e contribuir para a dinamização económica dos territórios abrangidos.

A iniciativa envolve a CP, o Município de Tomar e o Museu Nacional Ferroviário, permitindo igualmente uma ligação ao Entroncamento. Quem viaja de Tomar para o Entroncamento tem incluída a entrada no Museu Nacional Ferroviário, reforçando a componente cultural de um projeto que pretende valorizar simultaneamente dois dos mais importantes ativos patrimoniais da região.

Depois de uma viagem marcada pela curiosidade dos passageiros, pela adesão do público ao longo da linha e pelo ambiente proporcionado pela locomotiva a vapor e pela animação temática, a sensação que ficou no final do percurso foi a de que o Comboio Histórico Templário conseguiu despertar interesse muito para além dos entusiastas ferroviários. E, à luz da procura registada nesta estreia, o desafio para os promotores será perceber se esta viagem ao passado pode vir a ter continuidade no futuro.
O EOL viajou a convite da CP
Texto e fotos: Ricardo Alves



















