A Quercus manifestou preocupação relativamente à construção de um segundo centro de dados no concelho de Abrantes, após a Câmara Municipal ter emitido pronúncia favorável unânime ao Pedido de Informação Prévia apresentado pelo grupo Hyperion. Em comunicado enviado ao EOL, a associação ambientalista alerta para o potencial impacto cumulativo dos dois projetos já aprovados no território.
O novo data center, classificado como Projeto de Interesse Nacional (PIN), prevê uma área de implantação de 151 mil m² e 287 mil m² de construção, junto à rotunda de Alvega, com ligação elétrica anunciada de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego. A Quercus considera que o empreendimento é “excessivo para o território que pretende ocupar”, defendendo a realização de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) antes de qualquer licenciamento.
A associação recorda que Abrantes tem já aprovado outro centro de dados de grande dimensão, promovido pela EDC ONE, previsto para os terrenos da antiga central termoelétrica do Pego. Este projeto, aprovado em setembro de 2025 ao abrigo de um Projeto de Interesse Municipal (PIM), recebeu isenções fiscais de 16,2 milhões de euros.
Segundo a Quercus, a coexistência de dois empreendimentos desta escala, ambos dependentes do ponto de ligação à rede na Central do Pego, levanta questões sobre impactes cumulativos ao nível do consumo energético, pressão sobre recursos naturais, solos agrícolas e florestais, e alteração da paisagem, que “não estão a ser avaliados de forma integrada”.
Consumo energético poderá ultrapassar várias vezes o consumo anual do concelho
A associação destaca que os valores anunciados — 20 MW para o centro de Alvega e 300 MW para o EDC ONE — representam a potência máxima instalada. Mesmo considerando apenas 30% de utilização média, o consumo conjunto poderá atingir 841 GWh/ano, cerca de 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes em 2024 (148,8 GWh). À plena capacidade, o consumo poderá chegar a 2,8 TWh/ano, valor equivalente a 19 vezes o consumo anual atual do concelho.
A Quercus sublinha ainda que estes projetos surgem num contexto de escassez hídrica na Bacia do Tejo, lembrando que o diagnóstico mais recente da APA para o 4.º ciclo (2028‑2033) aponta para um índice WEI+ de 40% no rio Tejo. A associação considera que a instalação de mais uma infraestrutura industrial de consumo intensivo de água deve ser analisada com especial cautela.
Críticas ao Plano Nacional de Centros de Dados
A Quercus afirma também que o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD) apresenta uma visão “demasiado otimista”, descurando riscos e salvaguardas que “não saíram do papel”, apesar do crescimento acelerado deste tipo de projetos no país. O plano reconhece que vários mercados europeus enfrentam limitações energéticas, ambientais e territoriais, mas, segundo a associação, não analisa devidamente as causas desses constrangimentos.
A Quercus lembra que países como Irlanda e Países Baixos têm reportado impactos significativos na rede elétrica, no território, nas comunidades e nos ecossistemas, o que tem levado à necessidade de abrandar e reavaliar a expansão dos centros de dados.
















