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Da parte que me coube, em 1994, ninguém quis ficar. Toda a gente queria a faculdade. Lisboa, Coimbra, Porto. Tudo era melhor do que ficar no Entroncamento, onde nada acontecia. As minhas médias académicas eram paupérrimas. Tive de estudar muito para as provas específicas de Português e Geografia, onde tive 95% e 89%, respetivamente. Salvei-me do abandono e do exílio na minha própria terra e fui à aventura com o Pedro Casaleiro e o Filipe Páscoa, morar na mesma casa em Lisboa, no Campo Grande.

Foi aí que começaram as insónias e começou também a desenhar-se uma instabilidade interior que me acompanharia o resto da vida. Saímos de casa, saímos da terra. Cada um foi à procura da sua vida. Hoje não sei o que aconteceu a muitos dos colegas daquela comunidade de jovens do Entroncamento. Sei, e lembro-me, que a ninguém passou pela cabeça ficar. Ninguém nos expulsou. Ninguém nos obrigou. Partimos porque queríamos partir. Queríamos mundo, universidade, cidades grandes, empregos, futuro. Ficar parecia quase uma falta de ambição. Era como se o Entroncamento servisse para nascer e crescer, mas não para realizar a vida.

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Hoje gostaria de ter ficado. Se os meus amigos tivessem ficado, era o que eu faria. E esta frase, aos cinquenta anos, já não me parece tão infantil como me pareceria aos vinte. Talvez tenhamos dado pouca importância a uma coisa muito simples: querer permanecer perto das pessoas de quem gostamos.

Perderam-se os dias de São Martinho na Golegã, ainda sem ASAE e cheios de tascas, onde nos embriagávamos até cair, mas nos levantávamos uns aos outros. Perdeu-se a companhia nas caminhadas para as discotecas à sexta-feira à noite. Até a lua nos sorria e era cúmplice. Perdeu-se aquela promessa nunca enunciada, própria da juventude, de que aquilo iria durar para sempre.

Claro que não durou. Talvez nunca pudesse durar. As pessoas crescem, casam, têm filhos, mudam de trabalho, mudam de cidade e mudam também umas em relação às outras. Mas continuo a pensar que houve um património de afectos que se perdeu pelo caminho e ao qual, na altura, ninguém dava grande valor.

Estávamos demasiado ocupados a preparar o futuro. A minha geração foi educada para a realização individual. O programa era simples: estudar, arranjar um emprego melhor, subir na vida, ter independência, comprar casa, constituir família. Era um programa respeitável e, para muitos, uma conquista enorme. Eu próprio o segui. Mas havia pouco espaço para outro tipo de ambição, menos fácil de medir: permanecer ligado a uma terra, a um grupo, a uma comunidade, construir alguma coisa em conjunto.

Há pouco espaço para aquilo que se constrói em conjunto. Infelizmente, o programa social é muito pobre: cada um por si. A minha vida, o meu caminho, o meu emprego, a minha casa, os meus objetivos. Não necessariamente contra os outros, mas separados deles. E assim fomos aprendendo a sonhar no singular.

Aos cinquenta anos lamento que a minha geração não tenha tido um sonho mais amplo, mais largo, do que o sonho privado de um bom emprego numa multinacional. Gostaria que também nos tivessem ensinado que ficar podia ser uma escolha válida, que construir alguma coisa com os outros também podia ser uma forma de sucesso e que uma vida não se mede apenas pelo lugar onde chegámos, mas também por quem permaneceu connosco no caminho.

Seria um dever da sociedade proporcionar também esses sonhos colectivos. Não convencer os jovens a ficar, nem impedir ninguém de partir, mas tornar possível permanecer sem sentir que se desistiu de alguma coisa. Uma cidade pequena deveria conseguir oferecer aos seus jovens mais do que a memória da infância e a promessa de regresso aos fins de semana. Devia ser possível querer ficar sem que isso parecesse falta de coragem ou de ambição.

Se o Páscoa, o Casaleiro ou o Ricardo Sacadura tivessem ficado no Entroncamento, também eu teria ficado. O que eu queria eram os amigos. Queria lá saber de trabalho ou estudo. Não é atitude que se tenha aos dezassete anos, nem incentivo que se dê aos jovens de agora. Mas quanto mais velho fico, mais percebo que talvez exista nessa frase uma definição simples de comunidade: querer estar com os amigos.

Hoje estou no Entroncamento. Novos amigos e novos camaradas. Talvez até seja mais feliz hoje. Mas não consigo deixar de pensar que houve um património de afectos que se perdeu. Perdeu-se por cidades, empregos, casamentos, filhos e por todas as decisões perfeitamente razoáveis que cada um de nós tomou. Ninguém fez nada de errado. E talvez seja isso que custa mais.

E assim fomos pela vida, sozinhos. Uns com saudades, outros talvez não. Mas todos condenados a viver a realização, ou não, dos nossos sonhos. Eu trocaria os meus sonhos pelos meus amigos. Aliás, todos os meus sonhos individuais foram sempre pretextos convictos para fazer, e estar com amigos. Falhou o meu sonho de comunidade. Resta a soma, e muitas vezes colecção, de vontades individuais.

Escrito por Gonçalo Serras, com o apoio da Saphy, inteligência artificial da OpenAI

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