Uma namorada disse-me uma vez que eu não tinha sentido de humor. Isso magoou-me imenso, pois estava sempre a tentar fazê-la rir. Mas realmente, dificilmente acho piada a anedotas, sobretudo se forem de caserna. Reconheço, no entanto, que o riso ajuda em muito a sobreviver, sejam as relações, sejam os estados de espírito. Há pessoas que têm uma graça natural, tudo nelas nos faz rir. Pessoas que, por exemplo, facilmente ganham uma alcunha ou diminutivo. Outras são inteligentes o suficiente para desmontar uma situação, alcançando o ridículo e tantas vezes o paradoxo das afirmações ou situações.
Os gatos fedorentos, surgidos em 2003, são génios (malignos) do humor, e enquadram-se em todas as categorias do humor. Porém tornaram o humor uma coisa séria, e isso eu não lhes perdoo. Tornaram-se os terríveis gatos assassinos. Por que o humor também mata. Porque o humor é assassino. Porque o humor deveria ter consciência. Porque o humor mata, e por isso deve ser condenado. Deve ter lei. É fácil rir, e é fácil ignorar. E se formos nós o alvo? E se fores tu a morrer com uma piada certeira ao coração, meu amigo?

Consciência por exemplo que não existiu com Paulo Bento, treinador do Sporting, quando se capturou uma expressão idiomática “Tranquilidade” para disso fazer motivo de chacota. Nunca mais ouvimos a palavra tranquilidade, sobretudo da boca de Paulo Bento, apesar do mesmo assumir decorosamente que a piada foi inócua – não foi. A palavra “Tranquilidade” foi assassinada dentro dele, levando-o de reboque para os abismos da comédia. Aqueles abismos donde nunca mais se sai sem ser caricaturado. Para além de Paulo Bento, foi satirizado o gesticular do prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que imediatamente conteve o expansivo da sua comunicação por medo do ridículo. Outros foram caricaturados, mas o mais importante é perceber que os visados não tinham a menor hipótese de reclamar. A gargalhada era demasiado grande, demasiado efusiva. Era uma histeria coletiva, donde na minha opinião saiu muito ódio entranhado. Contra as instituições, contra os nossos representantes, contra os nossos símbolos. Mas vamos a mais. Veja-se por exemplo a rubrica “Tesourinhos Deprimentes”, uma rubrica que recuperava programas antigos da televisão portuguesa, e que teve cerca de 37 momentos (a confiar nas pesquisas da inteligência artificial). Nesses cerca de 37 momentos foi sistematicamente delapidado, ante o aplauso geral, o nosso património de inocência. O nosso património de tentativa erro presente nos primeiros tempos de televisão. Os nossos heróis de outros tempos, aquelas figuras misteriosas que apareciam na televisão, imediatamente reconhecidas e celebradas, a quem os meus avós cumprimentavam inadvertidamente, reduzidos à sua condição humana.
Não perdoo aos Gato Fedorento, Gatos Assassinos, terem passado o limite do humor. Terem feito do humor uma coisa séria, quando devia ser divertida. Os Gatos Fedorento, doravante Assassinos, estabeleceram um padrão de humor, seguido depois por Bruno Nogueira, ou Joana Marques. Um humor que fere e destrói o visado. Gil Vicente referia-se aos visados no plural – era o indivíduo feito comunidade, nos seus cavaleiros e sobretudo no seu Joane, o Parvo. Solnado, na sua “História da minha Ida à Guerra de 1908”, Herman José, no seu Senhor Feliz e Senhor Contente (1974), Estebes (1983) Serafim Saudade (1984), não procurava matar ninguém. Procuravam as tendências como um todo. Não procuravam um alvo. Procuravam que nos ríssemos todos. Eram iconoclastas, visavam os estereótipos e os simbolos e isso fazia rir. Não personalizavam. Os gatos são fedorento, porque emanam o cheiro a morte.
Gonçalo Serras


















