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Eu vi, ninguém me contou. O presidente Nelson Cunha saía da Câmara Municipal do Entroncamento, era o fim do dia. Não percebeu que eu ao longe o observava. Ia depressa. Mas voltou para trás, baixou-se, pegou num papel amachucado que estava no chão e depositou-o no lixo. Um exemplo, não só para os outros, como para si mesmo. A isto chama-se integridade. Fazer, porque a consciência a isso nos obriga. Tal como eu faço com estas crónicas.

O Nelson, já o sei, tem um currículo excecional. Desconfio que a sua presença aqui no Entroncamento, vindo de longe, não tenha sido por acaso, numa terra onde a eleição do Chega era provável. Um filho da terra, com grande capacidade executiva. O perfil ideal, para que o Chega faça do Entroncamento um exemplo político, um laboratório de boas práticas – já que Albufeira, o outro reduto do Chega, está ao que sei a ser um desastre nomeadamente a nível dos favorecimentos a empresas e atribuição de cargos políticos – precisamente ao contrário das promessas do Chega.

Eu contrataria o Nelson para a minha empresa. Profissional dedicado e consciencioso, que tenta apresentar soluções (mesmo que abruptamente, como se viu no caso da Listorres, de novo na estaca zero). Mas tenta. E tenta. É resiliente e isso é de valorizar.

Nelson, és de facto um bom profissional e um cidadão exemplar. Gostaria que usasses essas qualidades como presidente da câmara. Como profissional: Que agilizasses e profissionalizasses os serviços da câmara. Os tornasses mais eficientes. Como o meu pai Adelino Serras fez um dia no União Futebol Entroncamento, estruturar, e informatizar o concelho. Identificar as resistências a este processo é um primeiro passo. Como profissional: implementar a adopção de inteligência artificial de topo (Anthropic seria uma possibilidade) para o aumento da produtividade. Algo simples que poderias fazer era ter alguém que fizesse o atendimento em inglês às mais de 60 nacionalidades que existem no Entroncamento. Seria mais eficiente que aguardar que falem corretamente o português. Algo que também deverás pensar seriamente, uma vez ultrapassada a instabilidade migratória.

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Mas é como cidadão exemplar, que sei que és (eu vi, ninguém me contou), que o tru trabalho será mais difícil. Santos da casa não fazem milagres. A questão que te coloco: “O que é ser um exemplo?”. Meu amigo, ser um exemplo é meio caminho andado para falhar o alvo. Em primeiro lugar, porque sendo da casa, terás muitos a apontarem-te as falhas desse exemplo. Bem sei que podes com a crítica. Porém o esforço de lidar com ela consumir-te-á o tempo e a paciência. Por outro lado não há exemplo que resista numa comunidade dilacerada pela diferença, que paulatinamente se vai organizando em guetos. Ainda ontem te vi na Praça Salgueiro Maia. Sei que viste o mesmo que eu. Um espaço distribuído por raças. Haverá razões para isso. Não interessa. Interessa sim desqualificar o cidadão modelo e exemplar, porque isso não existe nas circunstâncias atuais. A haver um cidadão exemplar, teríamos de ter uma cultura homogénea (como havia antigamente), para que todos pudessem uniformemente obedecer a critérios e regras objectivas. Algo que as circunstâncias atuais não permitem. Não sejas por isso um cidadão exemplar. Sê tu próprio. Comete os teus erros. A verdadeira gente de bem será capaz de perceber, sem ofender ou manietar, a natureza dos teus erros. Sê antes o profissional que estás capacitado a ser. O Sr. Presidente da Câmara do Entroncamento, profissional, Nelson Cunha. Com estima, deste cidadão pouco exemplar.Gonçalo Serras.

A rubrica correio dos leitores em nada vincula o EOl à opinião expressada

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