O meu pai criava porcos. Eram sujos e cheiravam mal, mas eu gostava deles. Na verdade tinha um certo respeito à forma como devoravam a comida. Por mais ração que lhes dessem, aqueles porcos estavam sempre esfomeados. Um dia chegou um porco novo. Na verdade deveria ser um leitão. O meu pai ainda tentou integra-lo no curral. Porém os outros porcos, ao verem o seu domínio ameaçado, rejeitaram o recém chegado. Começaram a mordê-lo, e teriam morto o bacorinho não fosse o meu pai entrar em cena, saltando para dentro do curral, e resgatando-o da morte certa. O porquinho teve de ser colocado num curral à parte, e penso que viveu sozinho o resto dos seus dias. Também nós somos porcos.
Somos porcos cada vez que aceitamos cegamente os impulsos da mãe natureza. Sejam impulsos sexuais, territoriais, ou da mais pura sobrevivência; somos porcos cada vez que rejeitamos o que é diferente só por ser diferente. De igual forma, somos porcos, se aceitamos tudo o que é igual a nós. Só não cheiramos tão mal. E comemos de faca e garfo.
Acho que esta coisa que chamamos sociedade, ou melhor esta coisa ainda maior a que chamamos universo, é muito grande. Há porcos. Mas também há coelhos, patos, avestruzes, leões, seres humanos, nas suas contingências: Indianos, Portugueses, Alemães, Americanos. Eu acho que podemos tentar ser seres humanos e uma vez por outra usarmos a razão.

É verdade que somos parte da natureza. Mas foi colocando-nos à margem da natureza, naquilo a que chamamos civilização, que encontrámos o nosso conforto, o nosso progresso e prosperidade, a nossa casa. Foi lutando contra a fome e a doença, que mecánizamos a agricultura e a medicina. Foi desmatando e isolando as florestas, que erguemos cidades.
Eu não gostaria de viver entre os leões. Seria comido. Não gostaria de viver na floresta: teria frio. Também não gostaria de ser uma árvore, uma planta, ou um vegetal – sentiria falta da liberdade de me poder mexer e sobretudo de pensar.
Não é justo, mas é compreensível, que enquanto civilização humana coloquemos à parte o que é diferente. Isso começa muito cedo, quando queremos em crianças, ser iguais aos nossos amigos, ter as mesmas roupas, ou os mesmos brinquedos. Depois vai pela vida fora, sempre que vemos alguém que fala diferente, pensa diferente, veste ou age diferente. O porco que há em nós deseja morder. Deseja proteger o seu território. Nem pensa que são os instintos mais primevos que o conduzem. Mas julgo que chegámos ao ponto em que temos de decidir se queremos ser porcos, condenados à violência pela mãe natureza. Ou se queremos ser humanos, mesmo órfãos, mesmo sujeitos ao teste dos sentidos, protegendo e acarinhando o que faz de nós diferentes das outras espécies. A racionalidade. A capacidade de pensar em abstracto. A capacidade de conter ou mesmo superar os nossos impulsos. É fácil, natural e sociável ser porco. É imensamente mais difícil e solitário ser um ser humano.



















